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  • Posse: 18/09/2008 - (2º ocupante)
  • Fundador: Hugo Beolchi Júnior
  • Patrono: Rodrigo de Abreu
  • Antecessor: Hugo Beolchi Júnior

Acadêmico

 

Rosa Maria Custódio nasceu em Lages, Santa Catarina, em 31 de janeiro de 1952. É a quarta dos onze filhos de Pedro José Custódio e Lides Anna Dorigon Custódio.

rosa maria custodio 2008 31315Rosa Maria Custodio - 2008

Pedro nasceu em 04 de fevereiro de 1922, em Santa Catarina, na região de Araranguá, filho de José Manoel Custódio e Maria Brandina Rocha. Lides nasceu em 05 de setembro de 1927, no Rio Grande do Sul, em Nova Vicenza, distrito de Caxias do Sul, hoje uma próspera cidade conhecida como Farroupilha, filha de Maximiliano Thomaz Dorigon e Dozolina Josephina Lodi. Pedro e Lides casaram-se em 1947.

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De sua cidade natal, Rosa Maria não guarda lembranças pois sua família mudou-se para o então vilarejo de Campo Belo do Sul quando ela tinha apenas dois anos. Na época, o casal tinha cinco filhos pequenos e essa era a segunda mudança que faziam desde que saíram de Farroupilha, no Rio grande do Sul, onde eles se conheceram, se casaram e tiveram os dois primeiros filhos.

Campo Belo do Sul, em suas lembranças, permanece como uma cidade desprovida de cores. Rosa Maria lembra do frio do inverno, das casas de madeira sem pintura, das ruas sem calçamento, do barro que se formava depois das chuvas. Não havia eletricidade, nem sistema de água encanada. Sua mãe tirava água do poço para suprir as necessidades da casa e da família.

A vida era árdua para Lides e muito simples para seus filhos, que cresceram sem livrinhos de histórias e sem lápis de cor. As crianças brincavam ao ar livre, interagindo umas com as outras e se distraindo com brincadeiras diversas. Em algumas ocasiões a família recebia com festa a caixa de guloseimas e brinquedos enviada pela nona Dozolina, do Rio Grande do Sul.

Assim como seus irmãos mais velhos, Rosa Maria começou a estudar aos sete anos, junto com outras crianças na sala paroquial do vilarejo. Os mais velhos estudavam no turno da manhã e os mais novos no turno da tarde, aos cuidados de duas professoras, uma em cada turno. O ensino oferecido ia até a quarta série primária e este foi um dos motivos que fez com que Lides começasse a pressionar seu marido para voltar a morar em Farroupilha.

Pedro José Custódio, que era órfão de pai desde os 12 anos, trabalhava como mestre de obras na área da construção civil e, apesar de inteligente e comunicativo, mal sabia ler e escrever. Lides não queria que os filhos seguissem o mesmo caminho e costumava dizer que Campo Belo do Sul era o fim do mundo.

Em 1960, Lides já era mãe de sete filhos e se preparava para fazer a grande mudança quando surgiu a oportunidade de enviar os mais velhos para Farroupilha, onde poderiam continuar os estudos. Na região serrana do Rio Grande do Sul, eles ficaram dispersos, morando cada um na casa de um parente. Rosa Maria teve o privilégio de ser acolhida por seus avós maternos, Maximiliano Thomaz Dorigon e Dozolina Josephina Lodi, descendentes de italianos.

Maximiliano era neto de Paolo e Luiza, oriundos da Província de Treviso (Região do Veneto) e filho de Eugênio, o primogênito do casal que chegou ao Brasil ainda bebê. A família, depois de uma longa viagem de navio, ao aportar no Brasil, ficou acampada durante um mês na Ilha das Flores (hoje conhecida como Ilha de Paquetá), no Rio de Janeiro. Como imigrantes, depois foram conduzidos ao Rio Grande do Sul, onde fixaram residência na região serrana que hoje conhecemos como Bento Gonçalves.

Eugênio casou-se com Margarida Lovera, também descendente de italianos, e com ela teve 14 filhos (sete homens e sete mulheres). Maximiliano era o segundo filho do casal. Depois de servir ao exército, ele casou-se com Dozolina, filha de Angelo Lodi e Silvia Arsego, que moravam na região serrana de Nova Vicensa, onde ele fixou residência. O casal teve cinco filhos, sendo Lides a primogênita.

Morar com seus avós, até então praticamente desconhecidos, foi uma experiência surpreendente para Rosa Maria. Eles moravam ao lado da imponente Igreja Matriz e bem perto do Grupo Escolar Farroupilha, onde ela passou a estudar. Com eles moravam os filhos mais novos, Dalcir, com 17 anos, e Liane, com 14 anos.

A cidade era bonita, com ruas largas, de paralelepípedo, e calçadas limpas. As casas eram pintadas, algumas feitas de madeira, outras de alvenaria. As pessoas eram mais claras, descendentes de europeus. Andavam bem vestidas e, quando passavam umas pelas outras, se cumprimentavam. À noite, as luzes clareavam as ruas e, dentro de casa, os lustres pendentes brilhavam como cristais na copa e na sala de estar da casa dos avós. Tudo era muito diferente daquilo que ela conhecia.

O prédio do Grupo Escolar Farroupilha tinha dois andares, com amplos corredores e muitas salas de aulas. Antes de entrarem no prédio e irem para suas salas, os alunos ficavam em filas organizadas por turmas. Na hora do recreio, elas tinham amplos espaços e quadra de esportes, ao ar livre, para exercícios e jogos. Apesar de começar seus estudos no meio do ano letivo e vivenciar muitas mudanças, Rosa Maria conseguiu passar com notas muito boas nos exames finais. Ficou em segundo lugar na sua turma e até ganhou um presentinho de sua professora: uma tiara para segurar seus cabelos volumosos.

Em 1962, a família voltou a se reunir, quando Lides se mudou definitivamente para Farroupilha, trazendo consigo os filhos mais novos e entre eles um bebê. Em quinze anos de casada ela gerou nove filhos. Pedro, seu marido e pai de seus filhos, ficou de voltar para junto da família assim que terminasse alguns trabalhos em andamento. Veio visitá-los algumas vezes, mas não voltou. Suas visitas foram ficando mais espaçadas e sua ajuda financeira também. Mas havia amor entre o casal e, assim, nessas visitas, Lides engravidou e teve mais dois filhos.

Alguns anos depois, para tristeza de todos, eles ficaram sabendo que Pedro tinha outra família e outros filhos em Santa Catarina. Foram tempos difíceis para todos. Apesar da dor da decepção e das mágoas, era preciso seguir em frente. A força e a coragem de Lides, mais o incentivo dos familiares, foram fundamentais para manter a vida fluindo, apesar da ausência do pai.

Rosa Maria e seus irmãos começaram a trabalhar na adolescência, quando foram aprovados no curso ginasial (segunda parte do ensino fundamental) e passaram a estudar à noite, na escola da CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade) que funcionava no mesmo prédio do Grupo Escolar, onde eles concluíram o curso primário.

Aos 16 anos, ela iniciou o curso secundário (ensino médio) no Colégio Cristóvão de Mendoza, em Caxias do Sul (cidade vizinha), onde, paralelamente, estudou inglês, no Instituto Michigan, com uma bolsa de estudos. Aos 20 anos, tendo concluído o curso secundário e o curso intensivo de inglês, foi para Porto Alegre com dois objetivos: procurar emprego e fazer exames vestibulares.

Por influência da prima Anete, cujo namorado trabalhava na VARIG (Viação Aérea Riograndense), Rosa Maria procurou se informar sobre a possibilidade de trabalhar como aeromoça. Conversou pessoalmente com o Sr. Aldrovando D’Avila, Supervisor Regional da empresa, em Porto Alegre, que ficou de lhe avisar a data da entrevista para as candidatas ao trabalho de aeromoça.

A vontade de encontrar seu lugar na sociedade e o conhecimento da língua inglesa lhe permitiam sonhar, mas ela ainda não estava pronta: não passou no vestibular nem na entrevista da VARIG. Ficou alguns meses hospedada no apartamento de sua tia Liane, já casada com Aldérico, que trabalhava como fotógrafo no Palácio do Governo. Foi ele quem lhe orientou a encontrar um trabalho temporário na Associação dos Dirigentes de Vendas do Brasil.

Alguns meses depois, mais familiarizada com a cidade grande, Rosa Maria passou na segunda entrevista que fez na VARIG e, na sequência, foi submetida a uma série de exames físicos e psicotécnicos. Aprovada nesses exames, foi admitida na empresa e viajou de avião, pela primeira vez, rumo à cidade do Rio de Janeiro.

Durante três meses, participou do Curso de Comissários de Voo no Departamento de Ensino da VARIG, de segunda à sexta-feira, com aulas diárias de oito horas. Ela e as outras colegas do curso, oriundas de muitos lugares do Brasil e do Japão, ficaram hospedadas no Pensionato Nossa Senhora da Paz, ao lado da Igreja e em frente à Praça, com o mesmo nome, no coração do bairro de Ipanema, bem pertinho da praia e do mar. Os rapazes que também foram selecionados pela empresa ficaram hospedados em um hotel, no centro da cidade.

Depois do curso, a empresa deu uma semana de férias para os alunos-comissários visitarem suas famílias. Ao voltar para o Rio de Janeiro, Rosa Maria prestou exames na Aeronáutica, foi aprovada e recebeu sua carteira de habilitação técnica e de saúde. Em seguida, recebeu treinamento prático e iniciou sua vida de trabalho e viagens.

Nos dois primeiros anos, trabalhou nas rotas nacionais, depois foi promovida para as rotas internacionais. Nessa época, ela morava em um pequeno apto alugado, no Bairro de Laranjeiras e estudava francês na Maison de France (Aliança Francesa, no centro do Rio de Janeiro). Nos dias de folga ela costumava ir ao cinema, no Largo do Machado ou no Flamengo, onde ficava o Cine Paissandú, sempre com filmes interessantes e instigantes.

Em 1975, Rosa Maria decidiu que era hora de continuar seus estudos e prestou exames vestibulares para o Curso de Letras da Faculdade de Educação, Ciências e Letras Notre Dame, situada perto da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, bairro que ela já conhecia. Iniciou seu curso em agosto de 1975.

Foi nessa época que ela decidiu ir morar em Copacabana com Aramis, seu namorado. Eles se conheceram na piscina do Hotel Nacional, em Brasília, numa tarde de sábado, no segundo semestre de 1972, quando era novata na aviação. Os dois estavam de folga naquele final de semana. Ela, com 20 anos, tinha vindo de Porto Alegre e retornaria ao Rio na segunda-feira. Ele, com 32 anos e ainda solteiro, trabalhava na Revista Manchete, fazendo contatos publicitários com grandes empresas brasileiras.

Depois de conversarem por algumas horas, ao saber que aquela era a sua primeira viagem à Brasília, ele a convidou para conhecer a cidade no dia seguinte. Alugou um taxi e a levou para conhecer a nova capital do Brasil (construída no Governo de Juscelino Kubitschek entre os anos de 1956 e 1960, criação e realização dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer). Em 1987, a cidade de Brasília foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Muito educado e respeitoso, Aramis a impressionou.

No final do passeio, se despediram desejando boa sorte um ao outro, como se nunca mais fossem se encontrar. Mas, na segunda-feira de manhã, ela o encontrou entre os passageiros de seu voo. Encabulada, mal o cumprimentou. Só voltaram a conversar enquanto esperavam as malas junto à esteira de bagagem no aeroporto. Ao se despedirem, ele deixou com ela o número do seu telefone. Foi assim que tudo começou, foi assim que ela conheceu o seu primeiro e grande amor, aquele que seria o pai de seu único filho, Aramis Alves Ayres Filho.

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A Faculdade Notre Dame era administrada por freiras e o ambiente era muito bom. Estudar, para Rosa Maria, era essencial, pois sempre teve muita sede de conhecimento. Mas estudar, na profissão que havia escolhido (em meio a viagens, fusos horários, noites sem dormir) era quase um calvário. Compensava as ausências com trabalhos extras e, felizmente, contava com a compreensão da maioria dos professores. Para cursar a faculdade, foi forçada a interromper seu curso de língua francesa.

Seu interesse pelas matérias do primeiro ano (Psicologia, Sociologia, Filosofia, História e outras) levou-a a mudar de curso no ano seguinte. Optou pelo Curso de Estudos Sociais, que lhe ajudaria a entender melhor a sociedade e as relações sociais que aos poucos ia testemunhando em sua vida. No ano de 1978, conseguiu participar de dois cursos de extensão universitária, promovidos pela Faculdade Notre Dame: Música Popular e Poesia; Fato Social e Fato Histórico.

Em novembro de 1978, para sua grande surpresa, uma semana depois de fazer compras e, pela primeira vez, dar uma renovada geral no seu guarda-roupas, ela descobriu que estava grávida. Até então, ter filhos não fazia parte de seus planos. Ela e Aramis moravam juntos há três anos e já tinham conversado sobre um possível casamento, mas tanto um como o outro, em momentos diferentes, achavam que não estavam prontos. Os hábitos e costumes estavam mudando, principalmente nas cidades grandes.

Ao saber da gravidez, ele não manifestou grande alegria, mas foi gentil com ela. Alguns amigos e familiares tomaram conhecimento e a vida prosseguiu seu curso. Na VARIG, fazia poucos anos que as comissárias de voo podiam voltar ao trabalho, depois de terem filhos. Antes, elas eram transferidas para outros setores da empresa, caso quisessem continuar trabalhando. Agora a empresa até permitia que elas trabalhassem no voo, nos primeiros meses, enquanto a barriga não denunciasse a gravidez, e não houvesse qualquer outro impedimento.

Rosa Maria pretendia trabalhar alguns meses mais, pois sabia que sua situação financeira ia mudar bastante. Ela receberia apenas 70% do salário e deixaria de receber as horas extras e horas de trabalho noturno que dobravam o seu ordenado. Ela e Aramis eram independentes financeiramente. Ele pagava o aluguel e ela cuidava das compras domésticas. Mas quando saiam para passear ou jantar fora, era ele quem pagava a conta. E assim viviam.

Com a gravidez, as coisas mudaram muito. No segundo mês, Rosa Maria foi obrigada a entrar de licença médica porque não suportava o cheiro de cigarro a bordo durante as viagens, que eram internacionais e duravam mais de 8 horas. Os vômitos eram constantes e a impediam de realizar o seu trabalho. Como estava de férias na faculdade, no início de 1979 ela foi passar um tempo com a família de Aramis em João Pessoa. Ele já estava lá, na sua temporada de trabalhos pelo Nordeste, mas as viagens que estava fazendo eram curtas e ele voltava para João Pessoa.

Foi nesse período que Rosa Maria viu a realidade nua e crua desfilar diante de seus olhos. Ela descobriu que Aramis era viciado em jogo. Muitas noites, ele saia e a deixava junto com a sogra e a cunhada. Voltava tarde e, algumas vezes, era só para trocar a camisa. Fazia isso porque acreditava que mudando a camisa a sorte no jogo também mudaria. A mãe e a irmã sabiam disso e só então resolveram lhe falar. Acrescentaram que ele já tinha perdido no jogo a parte de sua herança e outras coisas.

Foi então que ela compreendeu a razão dos passeios que antes faziam ao Jóquei Clube da Gávea, no Rio, onde ele gostava de apostar nas corridas de cavalos, ou dos passeios que faziam ao famoso Hotel Quitandinha, em Petrópolis (palácio construído em 1944 para ser o maior cassino da América do Sul). Compreendeu também a razão da dificuldade que tinham para se entenderem quando conversavam sobre casamento e a compra de um imóvel. Eles moravam num apto alugado em Copacabana, na Rua Djalma Ulrich, pertinho da praia...

Nem tudo eram flores no relacionamento do casal. Ciumento em relação às suas viagens para o estrangeiro, que serviam de motivo para brigas inesperadas, o cenário mudou durante sua gravidez, quando ele começou a ficar cada vez menos tempo no Rio de Janeiro. Justamente quando ela mais precisava de sua presença. Estudar, andar na praia de Copacabana, cuidar de sua saúde e alimentação, preparar o enxoval de seu bebê, eram essas as suas atividades nesse período de grande solidão.

Na manhã do dia 05 de julho de 1979, Rosa Maria acordou e sentiu um clic que veio de seu útero. Em seguida, sentiu um líquido quentinho correr no meio de suas coxas. Era o líquido amniótico, saindo da bolsa e anunciando a chegada de seu bebê. De acordo com o médico, seu bebê nasceria duas semanas depois. Ela estava de férias na Faculdade e o pai dele estava fora do Rio de Janeiro há mais de dois meses. Eles conversavam pelo telefone todas as semanas e, coincidentemente, ele ligou poucos minutos depois. Ela explicou o que estava acontecendo e acrescentou que ia ligar para o Hospital São Lucas, onde já tinha pago um plano de saúde que incluía as despesas do parto. Ele lhe respondeu que estava em Recife e que viajaria para o Rio naquela mesma manhã.

Rosa Maria ligou para um casal de amigos, que morava no mesmo prédio, e eles a levaram até o hospital, onde foi atendida assim que chegou. Sua mãe, Lides, tinha tido muitos filhos e nunca falara das dores do parto. Naquela época já se falava nos benefícios de um parto normal e ela escolheu não tomar anestesia. Para sua surpresa, na medida em que as contrações se tornavam mais fortes, as dores do parto foram ficando insuportáveis. Se ela soubesse que seria assim, tão dolorido, teria optado pela anestesia. A enfermeira apertou sua mão com muita força e ela sentiu um alívio que se completou quando seu menino nasceu. Algumas horas depois, Aramis chegou. Ficou com ela naqueles dois dias, ainda constrangido com a paternidade.

Rosa Maria tinha consigo uma lista de 200 nomes masculinos, pois já sabia que seu bebê era um menino. Mas não conseguia escolher um nome. O pai também não. Mas o médico pediatra queria saber qual o nome do recém-nascido. Foi pensando no pai, o homem que ela amava, que já tinha sofrido a perda do pai e do irmão mais velho, que ela escolheu homenagear a família dele, dando o mesmo nome ao filho. Tempos depois, diante de algumas situações difíceis, chegou a pensar que não tinha sido uma boa decisão.

No terceiro dia, Aramis os levou ao apto onde moravam. Ficou exatamente 21 dias no Rio de Janeiro e, nesse tempo, ajudou no que podia. Depois iniciou suas viagens de trabalho e ficou ausente por mais de um mês. E isso se repetiria nos meses seguintes. Com um mês de licença maternidade e 15 dias para a alimentação materna, mais dois meses de férias vencidas e outros 15 dias pelo fato de seu filho ter nascido antes da data marcada pelo médico, Rosa Maria ficou quatro meses afastada do trabalho e se sentiu agradecida por ter esse tempo para cuidar de seu bebê, todos os dias.

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Os anos seguintes foram ainda mais difíceis. Situações novas provocaram mudanças no curso de sua história e afastaram o romantismo de sua vida. Separação e brigas na justiça pela posse e guarda do filho foram responsáveis pelas maiores chagas em seu coração. Longe dos familiares, sem ter a quem recorrer, ela repetia para si mesma “Hei de vencer!” e seguia em frente.

Quando as aulas começaram, ela contratou sua amiga do prédio, Ivonete, para cuidar de seu filho nas horas em que ela ia para a Faculdade. Concluiu seu curso universitário em julho de 1980, quando ele tinha um aninho e, junto com o pai, participou da celebração de sua formatura.

Em 1981, Rosa Maria teve a oportunidade de participar de dois eventos culturais:

5º Congresso Nacional de Estudos de Linguística e Literatura, realizado pela Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta, Faculdades Integradas, de 11 a 17 de janeiro de 1981, no Rio de Janeiro, RJ.

1º Simpósio Internacional de Indagação sobre o Inconsciente, realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ), de 08 a 12 de abril de 1981. Tendo como presidente o Prof. Dr. Luiz Machado, e Secretária-geral a Prof.ª Marilene Ferreira de Oliveira.

Em 1983, Rosa Maria já estava morando no antigo bairro do Rio Comprido, na zona norte da cidade, onde, um ano antes, comprara um apto de dois quartos, ainda em construção, depois de assumir um financiamento no Banco do Estado do Rio de Janeiro. Morava na Rua do Bispo e ali pertinho ficava o Colégio Sagres, onde o seu filho (que em anos anteriores frequentara a turminha maternal do Colégio Pernalonga, em Copacabana) iria estudar, no turno da manhã.

Nesse mesmo ano, ela resolveu continuar seus estudos e matriculou-se na Faculdade Estácio de Sá, que ficava ali mesmo na Rua do Bispo, bem perto de seu apto e do Colégio Sagres. Também estudaria no turno da manhã, para não prejudicar o tempo de convivência com seu filho, já prejudicado com suas viagens que eram, também, sua única fonte de recursos. Confiando na Divina Providência, ela dependia de outra mulher, quase uma estranha, para cuidar de seu filho nas suas ausências e viagens.

Muitas vezes, enquanto preparava as malas para viajar, e até mesmo já uniformizada, quando descia pelo elevador em direção à garagem, ela queria se sentir doente para pedir dispensa médica e ficar mais tempo em casa. Mas como era uma pessoa forte e responsável, logo procurava afastar tal pensamento. Enquanto dirigia seu carro, rumo ao aeroporto, ia se preparando mental e psicologicamente para entrar no clima da viagem, do trabalho a bordo, do relacionamento com os colegas, do atendimento aos passageiros.

Na Faculdade Estácio de Sá (que anos depois se transformaria em Universidade Estácio de Sá) Rosa Maria matriculou-se no curso de Letras. A Literatura, além de fonte de conhecimento, representava para ela uma fonte de prazer. Um prazer que ela vinha postergando, enquanto buscava outros conhecimentos que considerava importantes. Mas, durante as primeiras aulas, compreendeu que o curso era voltado para a formação de professores e não era isso que ela queria. Percebeu também que seu relacionamento com a turma, constituída de jovens e donas de casa, não ia ser fácil. Ela já imaginava o assédio que sofreria pelo fato de ser “aeromoça”. As pessoas se mostravam muito mais interessadas nos produtos estrangeiros que ela pudesse trazer do que no conhecimento cultural que as viagens proporcionavam.

Rosa Maria achou melhor cancelar o curso. Na secretaria, foi orientada a ir conversar com um dos diretores da Faculdade e este a incentivou a fazer Curso de Comunicação Social, onde poderia escolher entre Relações Públicas, Jornalismo ou Publicidade. Ela aceitou e escolheu Jornalismo, pois escrever era a Arte que queria desenvolver. Era o meio que mais usava para expressar seus sentimentos e se comunicar com familiares e amigos que moravam distante.

Por já ter curso superior, foi dispensada de algumas matérias e iniciou o curso no segundo ano. Já conhecia o caminho das pedras: faltaria muitas aulas e teria que trabalhar dobrado para compensar as ausências. Em função das faltas, muitas vezes teria que pedir e pagar pela segunda chamada das provas, além de ter que enfrentar filas na secretaria e perder um tempo que lhe era valioso. Não seria fácil, mas estava disposta a pagar o preço

Muitas vezes, ela ia assistir as aulas depois de passar a noite toda trabalhando, em viagens que duravam mais de 10 horas, apenas de voo. Somando as horas da jornada de trabalho, esse número passava das 14, 15 e até 16 horas. Chegava em casa exausta, de manhã cedo, sentindo o efeito dos fusos horários, da pressurização, do ar viciado dentro da aeronave, pois era permitido fumar a bordo. Tomava banho, dava um pouco de atenção ao filho e ia para Faculdade, onde passava horas sentada numa cadeira dura, em meio a jovens que, na sua maioria, estava interessada apenas em conseguir o diploma. Onde alguns professores eram muito bons e outros eram medíocres. E assim ela chegou, como os outros, ao fim do curso, ao diploma.

Formou-se em 1987. Pretendia continuar trabalhando na aviação, que lhe proporcionava um bom salário e ampliava seus horizontes; paralelamente, trabalharia como jornalista freelancer, escrevendo matérias culturais e sobre viagens para os jornais do interior do Brasil. Começou escrevendo para o Jornal O Farroupilha, no RS, quando ainda era estudante de jornalismo. Era também uma maneira de se sentir próxima de seus familiares. Entre 1986 e 1988, colaborou semanalmente na coluna que intitulou Via Aérea, Par Avion, By Plane. Depois a coluna recebeu outro título: Pelos caminhos do mundo. Ela tinha liberdade de escrever sobre o que julgasse interessante ou oportuno.

Foi o curso de Jornalismo que a levou ao curso de Fotografia - uma linguagem especial, onde uma imagem podia valer mais do que mil palavras. A oportunidade surgiu depois de retornar aos estudos de Francês, na Aliança Francesa da Tijuca, a mais próxima de onde morava. Concluiu o Curso Superior de Língua e Literatura Francesa e recebeu o Diplôme supérieur de langue et littérature françaises (3e degré), pela Universidade de Nancy II, em 1986. Os professores eram da Aliança Francesa, mas os examinadores vieram da Universidade de Nancy, na França.

O curso de Fotografia, promovido pelo Prof. Ricardo de Holanda, membro da FUNARTE e fotógrafo profissional do Jornal do Brasil, foi realizado na Aliança Francesa da Tijuca, aos sábados, durante 33 semanas - de abril a novembro de 1986. Como sempre, em função de seu trabalho, Rosa Maria não comparecia a todas as aulas. Algumas vezes, quando o grupo saia para fotografar um determinado lugar, ela não podia ir. Ficava frustrada, mas era melhor absorver 50% do conhecimento do que nada. Em 1987, sua turma de curso fundou o INFOCO, uma espécie de cooperativa de estudos e trabalho, para continuar se desenvolvendo na arte da fotografia e também auferir alguma renda. Por algum tempo, Rosa Maria permaneceu com o grupo.

Sua primeira exposição individual aconteceu em fevereiro de 1989, na Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro, intitulada Um Olhar sobre O Porto, onde apresentou 16 fotos em preto e branco, de pessoas e da cidade portuguesa também conhecida como “capital do Norte”. Também distribuiu um texto seu sobre O Porto - cidade com mais de dois mil anos de história, situada à margem direita do Rio D’Ouro.

Em setembro de 1989, ela participou de uma exposição coletiva, junto com alguns colegas do INFOCO, realizada na Aliança Francesa da Tijuca. Suas fotos em preto e branco foram tiradas na Itália, na Alemanha e em Miami.

De outubro de 1989 até outubro de 1991, sem interrupção, Rosa Maria publicou, mensalmente, a coluna “Quem Somos nós?” onde apresentava o perfil (positivo) de colegas de voo que se destacavam em alguma área ou atividade cultural, fora da empresa. Ela os entrevistava e também os fotografava. Esse projeto foi criado num período em que o grupo de Comissários se sentia desunido e disperso. Sentimento que cresceu depois das interferências sindicais (manipuladas pela CUT e PT que promoviam greves e o antagonismo entre os funcionários e os empregadores) e a reação do sindicato patronal que conseguiu aprovar, em 1983, uma Regulamentação Profissional ainda mais rígida e desgastante. Foi nessa época que surgiu na empresa o comentário de que os comissários de voo eram um mal necessário. Seu trabalho na revista tinha o objetivo de elevar a moral do grupo e incentivar a criatividade de cada um.

Em 1991, Rosa Maria inaugurou na revista Speech, da Associação dos Comissários de Voo da VARIG, a coluna intitulada Revele seu grande clik, com uma foto de Nova York (Summertime). Nessa época, ela já participava como colaboradora do Speech, escrevendo artigos relacionados com a profissão, a empresa e as viagens. Outras fotos suas já tinham sido publicadas na capa da revista ou ilustração de algumas matérias.

Rosa Maria participou de duas exposições coletivas na VARIG, no Espaço de Arte da Fundação Rubem Berta, ao lado do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Em setembro de 1991: I Amostra de Fotografias de três Comissários de Voo: Edíamo Villas-Boas Jr. / Paulo Resende / Rosa Maria. Em junho de 1993: II Amostra de Fotografias de três Comissários de Voo: Edíamo Villas-Boas Jr. / Paulo Resende. Obs.: Edíamo é sobrinho do internacionalmente renomado fotógrafo Sebastião Salgado. Ele trabalhava nas rotas domésticas e tirava lindas fotos de dunas e praias do Nordeste. Paulo Resende trabalhava nas rotas da América Latina e se dedicava à fotografia com paixão: além das fotos de viagens, ele documentava quase todos os eventos relacionados com a Varig.

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Em novembro de 1991, Rosa Maria foi transferida para a base de Los Angeles (Califórnia/USA), onde trabalhou nas rotas para o Japão. Alugou um apto em Torrance, não muito distante do aeroporto de Los Angeles, e procurou aproveitar seu tempo de folga para melhorar seu conhecimento na língua inglesa, na fotografia e estudar informática. Seu filho Aramis, que ainda estava no período de provas na escola, só viajou no ano seguinte. Ele cursou o último ano do curso fundamental na Middle School e o primeiro ano do curso secundário na High School do distrito de Torrance, perto de onde moravam. Estudou com adolescentes de sua idade e teve o privilégio de se familiarizar com a cultura americana, além de avançar nos estudos da língua inglesa. Ele já estudava inglês no Brasil e não encontrou dificuldade para seguir os alunos de sua classe.

Em junho de 1993, Rosa Maria estava de férias no Brasil. Depois de participar da exposição de fotos com seus colegas, (programada com antecedência), ela viajou para Farroupilha, com seu filho Aramis, onde visitaram os familiares da serra gaúcha, incluindo Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Foi lá no Sul que surgiu a ideia de apresentar à Secretaria de Cultura de Farroupilha o projeto de uma exposição de fotos sobre o Japão, para o ano seguinte, quando retornaria ao Brasil.

Antes de voltar ao Brasil, no final de junho de 1994, ela pediu sua transferência da Base Rio para a Base São Paulo. Vendeu seu apartamento no Rio de Janeiro e comprou uma casa em Bragança Paulista, onde fixaria residência, assumindo novo financiamento, desta vez na Caixa Econômica Federal. No segundo semestre desse ano, enquanto organizava a vida na casa de Bragança Paulista, Aramis Filho ficou na casa da avó Lides e perto dos demais familiares em Farroupilha.

Em outubro de 1994, Rosa Maria realizou, na Biblioteca Pública Olavo Bilac, a exposição intitulada “Um Olhar sobre a Cultura Japonesa”. No convite, ela escreveu aos Farroupilhenses:

“De novembro de 1991 até junho de 1994, estive baseada nos Estados Unidos trabalhando a rota de Los Angeles para o Japão, como comissária de bordo da VARIG. Durante este período, pude apreciar de perto duas culturas diferentes da nossa. Foi uma experiência muito rica em minha vida. E agora que estou de volta ao meu país, gostaria de compartilhar com meus familiares, amigos e demais moradores de Farroupilha, um pouquinho de tudo aquilo que pude ver e conhecer no Japão. Você está convidado para a inauguração da exposição de minhas fotografias e outros objetos que são uma amostra da Cultura Japonesa, tais como papéis artesanais, jornais, revistas, livros e porcelanas. Para comemorar, ao som de música nipônica, teremos sakê e chá verde, duas bebidas tipicamente japonesas. Conto com sua presença”.

Na Base São Paulo, ela retomou suas escalas de voos para os Estados Unidos e para a Europa e, nos pernoites, colocou em prática o plano de entrevistar suas colegas de voo, para escrever um livro sobre suas histórias de vida. Algumas vezes, precisou deslocar-se nos dias de folga para entrevistar suas colegas que moravam no Rio e em São Paulo e trabalhavam em outras rotas e aeronaves.

Em 1996, Rosa Maria teve a oportunidade de ir trabalhar por alguns meses na base de Hong Kong, trabalhando na rota para a África do Sul. Aproveitou suas folgas para conhecer a região e entrevistou outras colegas nos seus pernoites em Johannesburg.

(Continua)

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Fundador

 


Posse: 30/09/1976 - (1º ocupante)


 

Hugo Beolchi Jnior 78883Hugo Beolchi Júnior, filho de Hugo Beolchi e Ignez Milani Beolchi, nasceu na cidade de Cedral, interior de São Paulo, em 06 de maio de 1928 – seis meses depois da morte do poeta Rodrigues de Abreu, que ele escolheria como Patrono na fundação de sua Cadeira, número 30, da Academia Cristã de Letras, onde ingressou aos 48 anos, no ano de 1976.

Cursou o primário no Grupo Escolar de Cedral e o secundário no Colégio Ateneu Paulista, em Campinas. Depois seguiu a carreira de seu ilustre pai, o médico obstetra Hugo Beolchi, pessoa de bom coração e de elevado mérito profissional. Formou-se em Ginecologia e Obstetrícia, no ano de 1953, aos 25 anos. Foi o orador de sua turma e continuou atualizando-se, fazendo cursos de extensão em sua área de especialização e afins. Também colaborou em vários cursos, defendeu teses de doutorado, participou de Congressos Médicos, onde apresentou seus trabalhos.

O jovem médico casou-se com Sônia Palma Beolchi, com quem teve oito filhos: João Batista, Mônica, Mirta, Maila, João Antônio, Melissa, João Paulo e João Luiz. Foi um pai amoroso e muito querido. Apesar das dificuldades para sustentar uma família tão numerosa, exerceu sua profissão com zelo, responsabilidade e ética.

Além de se dedicar à medicina, Hugo Beolchi Júnior atuou em outras áreas, principalmente na Literatura, onde se destacou como orador e poeta. Foi sócio titular da Sociedade Brasileira de Escritores Médicos, membro do Pen Clube do Brasil, Conselheiro efetivo do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo e representante oficial da Classe Médica, em inúmeras solenidades, como orador e conferencista. Recebeu homenagens na Câmara Municipal de Cedral por sua brilhante trajetória e méritos conquistados. Foi Diretor de Educação e Cultura da Associação Amigos da Aclimação, bairro onde residia, em São Paulo.

Na Academia Cristã de Letras, proferiu brilhantes discursos, em eventos poéticos e apresentação de novos membros. O acadêmico Afiz Sadi, ilustre médico, escritor e poeta, lembrava-se da emoção que sentiu ao ser apresentado por Hugo Beolchi Júnior, na sua solenidade de posse, realizada no auditório da Escola Paulista de Medicina, na noite de 10 de agosto de 1982. Destaco um pequeno trecho daquele discurso:

A Alegria nos atendeu esfuziante e tocando seus címbalos, cantou este salmo de Aleluias:

-Bem-vindos ó romeiros da ternura e lirismo, que andais carregando sonhos, num mundo onde o sonho, pobre enjeitado, na sombra da vergonha se escondeu...

-Bem-vindos ó romeiros que cantais canções de amor e paz, no deserto onde o amor petrificou-se na indiferença. A paz... a paz acaba de morrer até nos braços inocentes que acalentavam bonecas!

-Bem-vindos ó romeiros que vindes impregnados da beleza do nascer das auroras e do morrer manso e sanguíneo dos poentes, quando o céu se ascende às velas das estrelas!

-Bem-vinda Casa de São Francisco de Assis, à Casa de Otávio de Carvalho! Pisai o tapete que ontem fiamos com as cordoalhas tendinosas do nosso coração. A nossa Casa é vossa. Entrai!

Inesquecível também foi outra palestra sua, sobre o Patrono da Academia Cristã de Letras, São Francisco de Assis, em uma solenidade presidida pelo escritor e acadêmico Alcindo Brito. Ele terminou seu brilhante discurso com estas palavras:

Que minhas palavras finais sejam um murmúrio de prece a ti, Pai Francisco, pela nossa Academia, humilde e simples como a tua vida; pela nossa pátria, sofrida em meio à maior crise em todos os seus setores; e por nós todos, que persignados e de joelhos, ainda cremos, ainda amamos e ainda temos a alegria que nos ensinaste no sofrimento. Louvado seja Deus.

O acadêmico Hugo Beolchi Júnior fez grandes amigos, e, entre eles, dois colegas de turma: Samoel Atlas, membro da Academia Cristã de Letras, e Salim Curiati, político, que o nomeou Secretário da Promoção Social quando foi prefeito de São Paulo. Depois, Hugo Beolchi Júnior, juntou-se ao Jornalista Carlos Corrêa de Oliveira, substituto de Paulo Zing na presidência da Associação Paulista de Imprensa, tornando-se um de seus assessores e indicando-o à Academia Cristã de Letras. Também foi amigo dos escritores Alcindo Brito e Duílio Crispim Farina, acadêmicos da Academia Cristã de Letras. A morte de alguns colegas e amigos, principalmente a do escritor Alcindo Brito, por quem nutria especial afeto, deixou profundas cicatrizes em seu coração.

A década de 90 foi uma das mais difíceis e de muitas mudanças em sua vida. Começou a apresentar sintomas de cansaço e falta de ar. Em 1994, aos 66 anos, foi submetido a uma cirurgia no coração e passou a usar ponte de safena. O pós-operatório foi difícil, principalmente no aspecto emocional, pois deixou de atender em seu consultório. A família procurou confortá-lo e montou novo consultório na própria residência, onde, aos poucos, ele voltou ao trabalho.

Entre 1996 e 1997, ele decidiu ir passar um tempo mais longo no sítio da família, em Termas de Ibirá, onde começou nova vida. Seus filhos mais novos já estavam na faculdade, enquanto sua esposa se desdobrava para atender o marido em Ibirá e os filhos em São Paulo. Em Ibirá, atendendo gratuitamente as pessoas mais pobres e simples da região, ele descobriu, dentro de si, uma nova energia. E acabou, naturalmente, se envolvendo na vida política local. Nas eleições do ano 2000, foi o vereador mais votado naquele município. Como vereador, recebeu prêmios e homenagens, pelos trabalhos realizados. E em 2004, candidatou-se a prefeito, mas ficou em segundo lugar, com uma pequena diferença de votos do primeiro colocado. Ficou muito triste com o resultado e voltou para São Paulo, por uns tempos.

Ainda pensava em retornar à vida política quando voltou a sentir cansaço e falta de ar. Uma nova cirurgia seria necessária. Nesse meio tempo, foi homenageado, em outubro de 2006, juntamente com mais de 300 médicos paulistas, que contavam com mais de 50 anos de profissão, numa importante solenidade, no Teatro Municipal, promovida pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Os médicos presentes receberam diploma de reconhecimento pelo trabalho realizado, com dignidade e ética, em prol da saúde e do bem-estar do ser humano.

No final de 2007, Hugo Beolchi Júnior foi submetido a uma nova cirurgia e não resistiu. Sofreu um derrame, ficou em coma durante sete dias e faleceu no dia 15 de novembro, aos 79 anos. Seu corpo foi transladado e velado em Ibirá, onde a população, emocionada, acompanhou a pé todo o cortejo, até o sepultamento no cemitério local.

Depois do sofrimento e do luto, pela morte do esposo e companheiro, com quem viveu durante mais de 42 anos, Dona Sônia encontrou um novo alento em sua vida: ingressou na política para dar continuação ao trabalho de seu querido esposo. Assim, os sonhos do Acadêmico Hugo Beolchi Júnior, médico, político e poeta, continuam vivos para a sua família.

Hugo Beolchi Júnior deixou muitos textos, discursos, poesias, contos. Também escreveu um pequeno livro intitulado Estatuto do Feto Humano, que ainda se encontra em forma de apostila e que foi singelamente ilustrado por seu filho caçula, João Luiz. Trata-se de um hino em defesa da vida, com 23 estatutos. O segundo estatuto diz assim: Fica decretado que tenho vida, sou embrião. As minhas células se multiplicam em exuberante reprodução, como os grãos da bonança das colheitas fartas e viçosas. Eu sou a alegríssima esperança de um dia ser uma criança!

Em seu discurso de posse, na Academia Cristã de Letras, encontrei um trecho que me pareceu bonito e envolvente. Ele se refere às três verdades, que Hugo Beplchi Júnior encontrou enquanto preparava seu discurso para o evento de sua posse na Academia Cristã de Letras, em 30 de setembro de 1976. O médico e poeta, então com 48 anos de idade e pai de cinco filhos, procurava, no escritório de sua residência, em meio a livros, papéis e canetas, um fio condutor de seus pensamentos para melhor expressar seus sentimentos em relação ao seu patrono Rodrigues de Abreu. Eis que é interrompido, em seu trabalho, pelos filhos pequenos. Com suas observações inocentes, eles estão amorosamente presentes em alguns trechos daquele discurso, pois auxiliaram o futuro acadêmico a encontrar duas das “três verdades” sobre o seu querido poeta e patrono:

Primeira Verdade:

Quando eu era menino, estudante em Campinas, Hildebrando Siqueira, meu querido professor de português, um dia falou sobre Rodrigues de Abreu. Nunca mais esqueci a sua voz embargada, que sussurrava uma autobiografia que o poeta lhe enviara como carta. (...) Hildebrando Siqueira, retirou-se da sala, de mansinho, pisando nuvens, e tinha no andar o mesmo escrúpulo que tivera ao falar. Nós ficamos de olhos vermelhos, surpresos de emoção! Aí eu aprendi uma 1ª verdade: “Para falar-se do querido poeta, a gente deve ter a mansidão dos que pisam nuvens”. “Rodrigues de Abreu, é um estado de alma”.

Segunda Verdade:

A Hiléia Amazônica, de Gastão Cruls, estava aberta sobre a mesa e das suas páginas enormes, maravilhado, pretendia transcrever suas descrições, para compará-las à vida de Rodrigues de Abreu. Eis, quando, entra pela porta do meu cômodo de estudos, a alegria canora e esfuziante dos meus 5 filhos, espargindo luz e vida no amor de todos os dias. Tinham fugido das páginas da Hiléia Amazônica como bandos de uirapurus e saís; galos-da-serra e sucurás! Nova revoada, e resta-me um par de olhos azuis num rostinho meigo, invadido por cabelos de ouro. Há, então, este diálogo autêntico:

-Puxa, papai, que vida complicada a sua! Você escreve... escreve... sobre Rodrigues de Abreu... Amontoa, amarrota, rasga, e rabisca papéis. Põe livro, tira livro, gasta tanta tinta e nunca chega ao fim!?

Aí eu descobri uma 2ª verdade: “Para falar-se do querido poeta, é preciso vê-lo, com o olhar puro da criança que entende os homens, sem complicadas confusões”. “Rodrigues de Abreu é um par de olhos azuis de simplicidade”

Terceira Verdade:

Eu havia reunido um bom material sobre o poeta e também um certo desespero. Precisava mostrar muito do meu patrono, mas tinha medo de ser prolixo, de ficar perdido em labirintos. Um dia, procurava uma citação de Amadeu Amaral, quando um par de olhos castanhos gorgeou:

- Calma, papai, você não falava que Rodrigues de Abreu era bom e humilde?

Aí eu descobri uma terceira verdade: “Para falar-se do querido poeta, não é necessário escrever angústias nem temperar palavras com o salitre dos calvários. “Rodrigues de Abreu é remédio para o desespero”.

Ao finalizar seu discurso de posse, Beolchi Júnior exorta a cidade de Capivari a prestar uma homenagem ao poeta e construir A casa de Rodrigues de Abreu. E confessa: gostaria muito de entrar nessa casa arrumadinha, branquinha, onde encontraria o amado poeta, com seus versos, seu diário, sua vida, e seria recebido como um irmão.

Em pensamento, eu vejo o encontro dos dois poetas, o fundador e o patrono, em uma casinha arrumadinha, branquinha, destelhada, cheia de poesia e música, flutuando num céu muito azul, sob o olhar protetor de São Francisco de Assis. Onde quer que os poetas estejam, neste céu imenso, cuja grandiosidade desafia nossa imaginação, eu os acompanho neste momento. Afinal, agora, eles também fazem parte da minha história.

 

A RECEITA foi uma das primeiras poesias que deu destaque ao poeta Hugo Beolchi Júnior, na sua juventude. Foi publicada na Antologia POETAS DA CIDADE:

Maldito orgulho que é senhor do mundo,

que mata o sentimento e cega a vista,

deixando a vida tão materialista,

ferindo o amor universal profundo.

Para sanar o mal há uma receita,

cujas drogas são simples de encontrar.

Mas nenhuma farmácia hoje aceita

esta estranha poção prá preparar.

Três gotas da miséria da favela,

um cálice do olhar de uma indigente,

as súplicas de um pobre na janela,

um miligrama de um indiferente.

Dez gramas da tristeza da orfandade,

a fome se adiciona sem pesar,

pôr um pouco do aroma da saudade

para tal gosto amargo disfarçar.

Durante um longo tempo, até curar,

a dose é uma colher às refeições.

Tomem por toda vida, sem parar,

os mais empedernidos corações...

 

(Rosa Maria Custódio – Janeiro\2018)

Patrono

 

 

Benedito Luiz Rodrigues de Abreu nasceu em 27 de setembro de 1897, em Capivari, interior de São Paulo. Seus pais, Narciso Rodrigues de Abreu e Leonor Ribeiro da Silva, tiveram seis filhos, dos quais apenas três sobreviveram. A família vivia com simplicidade e tirava da agricultura o seu sustento.

O menino, que se tornaria poeta, aprendeu a ler e escrever em escola de sítio. Em 1904, a família se mudou para Piracicaba, onde ele continuou seus estudos no Externato Coração de Jesus. Por volta de seus 12 anos, a família mudou-se para a cidade de São Paulo. Nessa época, as indústrias prosperavam e atraíam um número crescente de imigrantes vindos do campo.

Rodrigues de Abreu, ainda no início da adolescência, foi trabalhar em uma farmácia, como entregador de remédios à domicílio e lavador de vidros. Algum tempo depois, conseguiu uma vaga no Liceu Coração de Jesus para estudar e aprender um ofício. Lá permaneceu pouco tempo, pois viram nele vocação religiosa e o encaminharam para o colégio dos padres salesianos, e em seminários de outras cidades. Foi nesse período que ele teve contato com o mundo da poesia, aprendeu noções de métrica, desenvolveu a arte da oratória e da declamação, entregou seu coração às musas e começou a compor suas próprias poesias.

A vocação religiosa não se confirmou e o jovem de 19 anos deixou a segurança da carreira eclesiástica pela vida incerta dos desafortunados. Durante um ano e alguns meses, trabalhou como professor de português. Em 1918, aos 21 anos, acompanhou sua família, que voltou a fixar residência em Capivari. Lá, ele trabalhou na Caixa de Crédito Agrícola, como escriturário. Nesse mesmo ano, a morte levou sua mãe querida, que foi enterrada num caixão doado pela prefeitura - o que mostra a difícil situação financeira da família. No ano seguinte, aos 22 anos, ele publicou o livro Noturnos, onde os temas predominantes em sua poesia são: tristeza, dor, frio, vento, e uma profunda solidão.

Aos 24 anos, Rodrigues de Abreu retornou à cidade de São Paulo, onde trabalhou, por pouco tempo, na revista “A Cigarra”, por influência de seu conterrâneo e amigo, o escritor e jornalista Amadeu Amaral, que conhecia e admirava sua poesia. A capital do estado vivia, então, um período de efervescência, tanto na economia quanto na cultura e nas artes. Os ventos desse novo tempo, soprados por um grupo de jovens irreverentes que no ano seguinte comemorariam o Centenário da Independência com a famosa Semana de Arte Moderna, de 1922, não agitaram a cabeça do poeta Rodrigues de Abreu, que foi morar em Bauru. Dois anos depois, ele publicou o livro A Sala dos Passos Perdidos. Nessa época, a tuberculose já estava alojada em seus pulmões e ele foi buscar tratamento em Campos do Jordão. Julgando-se curado, mudou-se para São José dos Campos, onde permaneceu até abril de 1927. Nesse ano, publicou seu terceiro livro, Casa Destelhada. Sofreu uma recaída e foi internado em Atibaia, durante alguns meses. Depois voltou para Bauru, onde a morte o levou, no dia 24 de novembro, aos 30 anos de idade.

Este é um resumo da curta existência do nosso patrono, poeta sensível e lírico, que alojou a tristeza, o frio e o vento em sua poesia e em seus pulmões.

Na Cidade de São Paulo, no Paraíso, existe uma Praça com o nome de Rodrigues de Abreu. Uma homenagem dos paulistanos ao poeta. Mas, um dia, Paulo Maluf, então prefeito, quis trocar o nome da praça para "Reino de Marrocos" porque o embaixador marroquino estava oferecendo um monumento para ser fixado exatamente naquele local. Felizmente, graças ao esforço e insistência do poeta Paulo Bonfim, Maluf mudou de ideia, e a homenagem ao poeta Rodrigues de Abreu permanece no local.

A obra poética de Rodrigues de Abreu tem sido pouco divulgada. Sua poesia brota espontaneamente da alma e revela um coração puro, sofrido, nem sempre resignado com seu destino, mas sempre dominado pela emoção. Alguns quiseram defini-la como poesia mística, mas são poucos os seus poemas que buscam a transcendência. Podemos perceber alguma influência religiosa, mas é com as questões deste mundo e desta vida que o poeta se debate.

Para sua querida mãe, o poeta compôs belos versos que nos remetem à sua infância e evocam ternura e nostalgia. Quando a doença da tuberculose açoitava seu corpo, num longo e emocionante poema, ele evocou a presença bondosa de sua mãe, que, como enfermeira do outro mundo, viera lhe aquietar o espírito. Desse poema, selecionamos alguns versos:

Sinto que é o seu espírito bom que anda em volta de mim,

que enche de resignação minhas noites compridas.

É você que põe a prece nos meus lábios,

quando a dor os repuxa para um grito blasfemo.

É você, doce enfermeira do outro mundo,

que aquieta o meu espírito atribulado e febril,

Que embala a minha alma, minha alma que adormece

na cama de provação do meu corpo doente...

Mãezinha, se você fosse viva, cuidaria do meu corpo.

Mas, não haveria espírito bom,

que do outro mundo aquietasse a minha alma...

E eu morreria desesperado, desesperado!

 

Do livro, Noturnos, onde os temas mais constantes são o vento, o frio, e os mendigos, escolhemos mais alguns versos, que mostram sua poesia impregnada de angústia e solidão:

Muitos homens, que vivem na opulência,

dirão, lendo os meus versos: "Nada valem.

As angústias, melhor é que se calem."

Mas, todos os que vivem na indigência:

"Seja abençoado quem as nossas dores

interpretou e todos os clamores..."

Para curar as grandes cicatrizes,

fiz estes versos para os infelizes.

Fiz, quando o frio me apertava e o vento

me trazia dos pobres o lamento;

quando, pensando em minha vida, vi

que para a dor também foi que nasci.

*

Sou irmão dos mendigos. Se não peço

nas ruas por não ser ainda a ocasião,

peço a esmola do amor, por isso meço

o sofrimento dos que pedem pão.

À noite, ao frio, quase que enlouqueço:

sinto a geada no pobre coração;

e porque tenho frio e enfim padeço,

vejo em cada mendigo um meu irmão!

Compreendo todo o horror que a vida encerra...

Da mesma essência fez os homens Deus:

e uns riem e outros choram sobre a terra!

Hei de fazer os vossos prantos meus,

tristes mendigos que a indigência aterra,

pobres que sois a maldição dos céus...

*

Como tendes na voz tanta doçura,

pedindo esmolas, pobres aleijados,

pobres famintos, pobres torturados,

a sangrar pela via da amargura?!

E não amaldiçoais os céus, irados?!

Volveis os olhos mansos para a Altura

que manda para a vossa desventura,

como punhais, os ventos acerados!

Ah! - sois assim, porque pedis. E pondes

na voz, por isso, um eco tão soturno

e doce que parece a voz das frondes...

Mas a vossa doçura é só fingida:

e, com razão, sozinhos, no noturno

silêncio, amaldiçoais o mundo e a vida.

 

Com tanta dor e solidão no coração, é no trabalho, na composição de sua poesia e nas leituras, que o poeta procura, e consegue, por um breve tempo, serenar a alma e esquecer suas desventuras:

Trabalho. Esqueço tudo. Vejo, quando

trabalho, que a minha alma é serenada,

e que o meu coração está cantando...

Mas, contemplando após a obra acabada,

vejo, no verso, um coração chorando,

vejo, no verso, uma alma atormentada.

*

Se não escrevo, nestas noites, leio

leio histórias de amor e de pecado,

de um remorso casando-se a um gorjeio,

de uma tragédia, a um beijo de noivado...

E lendo assim, sinto-me bem. Tão cheio

dos outros e de mim tão descuidado,

esqueço até que sou um torturado,

e tenho essas histórias no meu seio.

Leio. Mas, de repente, quando bate

na porta o vento, como um vil mendigo

em farrapos, pedinte e sofredor,

Lembro a perpétua angústia que me abate

e temo que essas dores, que bendigo,

se acumulem com a minha própria dor...

 

Em seus sonhos, o poeta consegue criar um outro mundo. Porém, ao acordar, percebe que seu sonho foi levado e desfeito pelo vento. Mesmo assim, ele se reanima: “outros sonhos hão de vir”.

Sonhei. Formei um mundo à parte, crendo

demais na vida... E a vida, vejo agora,

que não passa do vento que lá fora

erra, folhas e sonhos desfazendo!

*

Mas, mesmo sem sonhos vejo,

nesta minha solidão,

surgirem no meu desejo

as glórias de outra estação.

Primavera! Primavera!

Outros sonhos hão de vir...

Minha alma há de ser como era

antes do Inverno cair.

 

O poeta também sonha com uma mulher bondosa e amiga, cuja presença encheria seu quarto de perfumes e beijos. Mas, logo compreende que este é um sonho impossível. Assim confirmam o vento e o frio, que são as vozes de seu implacável destino. E, em outros versos, o poeta conclui que a vida é engano e ilusão:

Penso numa mulher bondosa e amiga

a encher-me o quarto de um perfume estranho...

Penso em beijos que no ar, em sonho, apanho

e que têm o sabor de uma cantiga...

Mas sonho com tudo isso um só momento,

Vem-me o frio. Interrogo a minha vida:

"Terei tudo isso?" Numa voz sumida,

"Nunca o terás" - fora, responde o vento...

*

Tudo é engano na vida ou quase tudo.

Mente o amor, mente a glória, o ideal engana.

A vida está com máscaras de entrudo

sempre, sempre iludindo a espécie humana.

 

Para finalizar esta breve introdução à história de vida e obra do poeta Rodrigues de Abreu que faleceu na mocidade, vitimado pela tristeza e a tuberculose, selecionamos o poema que tem o mesmo título de seu livro Casa Destelhada:

A minha vida é uma casa destelhada

por um vento fortíssimo de chuva.

(As goteiras de todas as misérias

estão caindo, com lentidão perversa,

na terra triste do meu coração.)

A minha alma, a inquilina, está pensando

que é preciso mudar-se, que é preciso

ir para uma casa bem coberta...

(As goteiras de todas as misérias

estão caindo, com lentidão perversa,

na terra triste do meu coração.)

Mas a minha alma está pensando

em adiar, quanto mais, a mudança precisa.

Ela quer muito bem à velha casa em que já foi feliz...

E encolhe-se, toda transida de frio,

fugindo às goteiras, que caem lentamente

na terra esverdeada do meu coração!

Oh! a felicidade estranha

de pensar que a casa agüente mais um ano

nas paredes oscilantes!

Oh! a felicidade voluptuosa

de adiar a mudança, demorá-la,

ouvindo a música das goteiras tristes,

que caem lentamente, perversamente,

na terra gelada do meu coração!


(Rosa Maria Custódio - Janeiro/2018) 

Discurso de recepção

 

Saudação que faz Drª. Frances de Azevedo à Novel Acadêmica Rosa Maria Custódio, no dia 18 de Setembro de 2008.

Coube-me a honra de paraninfar Rosa Maria Custódio. De seu extenso currículo, apontarei, apenas, alguns tópicos, para não me alongar.

Rosa Maria é natural de Lages, Santa Catarina, filha de Pedro José Custódio e Lides Anna Dorigon Custódio. É casada com o jornalista Costa Carregosa e reside em São Paulo.

É Jornalista, formada pelas Faculdades Integradas Estácio de Sá - RJ; Socióloga, formada pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras Notre Dame - RJ. Pós-graduada (lato sensu) em Didática da Língua Portuguesa com ênfase em Literatura Brasileira pela Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista - Faculdade de Ciências e Letras; Curso de Inglês no Instituto Michigan, em Caxias do Sul; Curso Superior de Língua e Literatura Francesa (Nancy), pela Aliança Francesa do RJ. É coordenadora e co-fundadora da ASES Jovem- Associação de Jovens Escritores de Bragança Paulista. É escritora. E com orgulho declara ter sido Aeronauta, Comissária de Vôo durante 32 anos!

Rosa Maria participou de inúmeros Cursos de Extensão Universitária (Fotografia, Musicoterapia, História das Artes, Música Popular e Poesia), Simpósios e Congressos. Participou, de 1989 a 1994, de diversas Exposições de Fotografias, entre as quais: Exposição Coletiva, Travessia II (Fotografias de Nova York, Los Angeles e Miami) na Aliança Francesa da Tijuca, RJ e Exposição Individual: “Um Olhar Sobre o Porto” (fotografias do porto e das pessoas de O Porto, Portugal) na Biblioteca do Estado do RJ.

Atualmente, Rosa Maria atua como Editora-assistente do Jornal da Imprensa Paulista (API), e em projetos especiais de comunicação, junto ao Sistema Antares de Comunicações e empresas ligadas à Manager Assessoria de Imprensa e Jornalismo Especializado de São Paulo.

Possui obras publicadas: individual e em parceria. Destaque para: “O Prazer Além da Escrita”; “Um Olhar Sobre o Porto”. Também possui dois trabalhos a serem publicados brevemente: “Transpondo Universos” e “O Ser Humano E Suas Verdades”.

Como já disse na introdução, não pretendo me alongar e coloco aqui neste currículo um ponto e vírgula. Não é ainda, o ponto final, pois, adiante, abordarei o aspecto que reputo o mais importante, sobre a nossa confreira Rosa Maria.
A palavra Academia, originariamente, vem da palavra Academo, herói grego, para o qual se consagrou um jardim de oliveiras próximo de Atenas, por nome akadémeia. Posteriormente, passou a ser a escola de filosofia fundada por Platão. E, hoje, como a conhecemos, Academia é associação de cientistas, artistas, escritores, cujo fim “é debater e divulgar seus trabalhos, ou promover sua própria representação social” (cf. livro:“Academias e Discursos de Acadêmicos” de nosso confrade Adolfo Lemes Gilioli).

Assim, Senhoras e Senhores, a nossa recipiendária, Rosa Maria, a transpor este magnífico portal da Academia Cristã de Letras, para ocupar a cadeira nº. 30, vem somar fileiras, se não por suas qualidades intelectuais, que, como vimos são inúmeras, mas por suas qualidades morais, de honestidade, dignidade, solidariedade, amor ao próximo. Dotada, pois, dos mais profundos princípios cristãos que são os fundamentos de nossa ACL!

O filósofo Lao-Tsé disse: “A alma não tem segredo que o comportamento não revele”. Assim é, pois, Rosa Maria, com sua constante simpatia e amabilidade.

Lembro, aqui, também, as sábias palavras de Aristóteles: “Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito.” Rosa Maria, tem por hábito a extrema polidez, permeada por seu indefectível sorriso!

Antes de conhecer Rosa Maria, conheci seu marido e companheiro de jornada nesta terra, o jornalista Costa Carregosa. Desde o primeiro instante, percebi que Rosa Maria é especial. Pela delicadeza ao se expressar. Pelos seus gestos. Seu tom de voz melodioso eu diria. Assim é, também, quando escreve. Quer seja em seus artigos jornalísticos, onde, mesmo que tenha que dizer algumas verdades, ela, o faz de um modo todo seu, para não ferir ninguém! Quando envia e-mails aos seus amigos, que são muitos, sempre sentimos, chegamos a vislumbrar seu sorriso amável e alegre, que nos dá as boas vindas!

Se, Rosa Maria, hoje, galga mais este degrau em sua existência, com certeza, deve ao seu esforço, à sua luta, como jornalista séria, devotada à verdadeira cidadania, democracia e ao culto da nossa língua.

Naturalmente, que pessoa de tal jaez, tão sensível, humanista, voltada para as causas sociais, também, é poeta, tendo várias poesias de sua lavra, oriundas do seu puro sentir, entre as quais, para finalizar esta breve saudação e dar as boas vindas a esta nossa confreira, destaco:

ESPERANÇA

Luz que vem de dentro
do infinito do meu ser,
teu nome é Esperança!
Vontade de viver!

Luz que vem de dentro
do infindável Vir a Ser,
ilumine meu caminho
neste novo alvorecer.
Se encontro pedras
e me firo nos espinhos,
não me deixe esquecer
que existem flores,
doces cheiros e carinhos,
que alegram meu viver!

Se o dia virar noite
e minha alma entristecer,
não deixe que a tristeza
me faça esmorecer.
Acalente este meu sonho
de abraçar o mundo inteiro
e cantar até morrer.

Luz que vem de dentro
do infinito do meu ser,
teu nome é Esperança!
Vontade de viver!
Direcione meu destino
na canção do renascer.

Frances de Azevedo - Cadeira 39 da ACL

Discurso de posse

Discurso de posse de Rosa Maria Custódio - Cadeira nº 30 - 18/09/2008

Digníssimo Prof. Dr. Paulo Nathanael Pereira de Souza, Presidente da Academia Cristã de Letras.
Digníssimo Mestre, Adolfo Lemes Gilioli.
Digníssima Dra. Frances de Azevedo.
Amado companheiro, Jornalista Costa Carregosa.
Digníssimos Acadêmicos e Acadêmicas, Autoridades presentes, colegas do Movimento Poético Nacional, da Associação Paulista de Imprensa. Familiares do meu antecessor, Hugo Beolchi Júnior. Meus familiares. Senhoras e Senhores. Amigas e Amigos,

Agradeço a todos que me honram com suas presenças nesta noite tão especial para mim. Dizer que não tenho palavras para expressar a emoção que sinto neste momento seria o mais apropriado, pois nunca imaginei receber esta honraria e este voto de confiança de um grupo de homens e mulheres tão ilustres, cultos e talentosos, que compõem esta congregação de ilibada reputação.

Certamente devo esta honra ao espírito cristão que norteia os trabalhos desta Casa de erudição, cujos ideais estão a serviço do saber, da preservação dos valores fundamentais da vida e do aprimoramento da linguagem que permite a troca salutar de informações e a transmissão do conhecimento, tão necessários ao enriquecimento de nossa civilização.

É este espírito cristão, tão apregoado e glorificado por São Francisco de Assis – o patrono desta Academia de Letras – que nos exorta a perseverar na busca do bem e da verdade, na prática da fraternidade e do amor universal, com bondade e misericórdia; que nos exorta a perseverar no trabalho, com responsabilidade e devoção, apesar das dificuldades e frustrações. É este espírito cristão que nos impulsiona, que nos torna fortes, idealistas e obstinados na luta por um mundo melhor, mais justo e fraterno.

Ser acolhida por irmãos tão generosos, e de espírito superior, muito me honra e me alegra. Recebo o título de Acadêmica como um desafio e um grande incentivo.

Gostaria de fazer alguns agradecimentos especiais:

Ao Acadêmico Dr. Guido Arturo Palomba, pela gentileza de nos acolher neste auditório de solenidades, da Associação Paulista de Medicina, para o evento desta noite.

Aos Acadêmicos Dr. Afiz Sadi e Dr. Helio Begliomini, à Sra.Terezinha da Cruz Gonçalves (zeladora da Biblioteca da ACL), e à Sra. Sonia Palma Beolchi, pela colaboração na coleta de informações sobre o Acadêmico Hugo Beolchi Júnior.

Ao Professor e Acadêmico Adolfo Lemes Gilioli, que muito admiramos e respeitamos. O Professor Gilioli, é uma daquelas pessoas singulares, que soube, desde muito jovem, pautar sua vida na busca do conhecimento e da cultura, sempre respeitando os valores fundamentais de justiça, honestidade e solidariedade humana. Hoje, ele é um patrimônio de nossa humanidade, graças às riquezas que acumulou nas esferas profissional, cultural, social e moral. É daquelas pessoas predestinadas a serem exemplos de vida correta, digna e frutífera. É um mestre que reconhece e incentiva os discípulos que encontra pelo caminho, pois sabe que dentro de cada ser humano existe a essência do amor, da beleza e da verdade, que precisa ser cultivada. Muito obrigada, Mestre Gilioli, sem o seu apoio, eu não estaria aqui.

Ao Jornalista Costa Carregosa, meu companheiro, homem que amo, admiro e respeito. Costa Carregosa é um homem de muitas qualidades. Entre elas, cito: a inteligência, a nobreza de caráter, a dignidade, a sensibilidade, o espírito de justiça, de solidariedade, de liderança. É um homem forte, trabalhador, independente. É o amigo certo nas horas incertas. É o irmão sempre pronto a ajudar, e, por isso mesmo, muito procurado. É um empreendedor ousado e competente. É uma pessoa confiável, verdadeira. É o meu sol. Antes de encontrá-lo, eu era uma lua em eclipse, minguante. Com seus raios quentes e amorosos, descobri a plenitude do amor e a renovação. Hoje, sou lua cheia, cintilante. Exploro, confiante, os mistérios do céu infinito, e aceno, sorridente, para as estrelas que brilham neste Universo sem fim. Muito obrigada querido, sem seu incentivo e seu apoio, eu não estaria aqui.

Agradeço ao Prof. Dr. Paulo Nathanael Pereira de Souza, Presidente da Academia Cristã de Letras, pelas palavras gentis e a recepção que nos é oferecida, com o patrocínio do CIEE.

Agradeço também as gentis palavras de saudação da amiga e Acadêmica Dra. Frances de Azevedo.

Muito obrigada a todos vocês! Agradeço de coração e espero saber retribuir, com gratidão e amizade.

É com muito prazer, respeito e alegria, que agora me volto para a tarefa que me foi designada, de homenagear a memória de Rodrigues de Abreu, o patrono, e Hugo Beolchi Júnior, o fundador da cadeira número 30 desta renomada Academia Cristã de Letras que hoje me acolhe em seu dadivoso seio:

Patrono: Rodrigues de Abreu

Rodrigues de Abreu nasceu em 27 de setembro de 1897, em Capivari, interior de São Paulo e recebeu o nome de Benedito Luiz Rodrigues de Abreu. O menino, que se tornaria poeta, teve uma infância pobre, aprendeu a ler e escrever em uma escola de sítio, em Piracicaba.

Ainda adolescente, trabalhou em farmácia, como entregador de remédios à domicílio e lavador de vidros. Depois, conseguiu vaga no Liceu Coração de Jesus para aprender um ofício. A partir daí, foi encaminhado para estudar em colégio de padres salesianos. Foi neste período de sua vida que teve contato com o mundo da poesia, aprendeu noções de métrica, desenvolveu a arte da oratória e da declamação. Foi então que entregou seu coração às musas e começou a compor suas próprias poesias.

Deixou o seminário aos 19 anos, trocando a carreira eclesiástica pelo ofício de professor de português e latim. Em 1918, aos 21 anos, acompanhou sua família, que voltou a fixar residência em Capivari. Lá, ele trabalhou na Caixa de Crédito Agrícola. Neste mesmo ano, a morte levou sua mãe querida, que foi enterrada num caixão doado pela prefeitura, o que mostra a difícil situação financeira da família. No ano seguinte, aos 22 anos, ele publicou o livro “Noturnos”, onde os temas predominantes em sua poesia são: tristeza, dor, frio, e uma profunda solidão.

Aos 24 anos, Rodrigues de Abreu retornou à cidade de São Paulo, onde trabalhou na revista “A Cigarra” e esteve próximo de conterrâneo, o escritor e jornalista Amadeu Amaral, que conhecia e admirava sua poesia. A capital do estado vivia, então, um período de efervescência, tanto na economia quanto na cultura e nas artes. No ano seguinte, com as comemorações do Centenário da Independência, os ventos de um novo tempo foram soprados por um grupo de jovens irreverentes, na famosa Semana de Arte Moderna, de 1922.

Nesse ano de 1922, enquanto alguns protagonistas da Semana de Arte Moderna agitavam a capital paulista, entre idas e vindas da Europa, Rodrigues de Abreu mudou-se para Bauru, interior de São Paulo. Dois anos depois, em 1924, lançou o livro "A Sala dos Passos Perdidos". Já nesta época, vivia momentos difíceis, sendo obrigado a mudar de cidade em busca de ares melhores, pois a tuberculose se alojara em seus pulmões. Seu terceiro livro, “Casa Destelhada” foi publicado em 1927 – ano em que a morte o levou, no dia 24 de novembro, com apenas 30 anos de idade.

Este é um breve resumo da curta existência do nosso patrono, poeta sensível e lírico, que alojou a tristeza, o frio e o vento, em sua poesia e em seus pulmões.

Textos poéticos de Rodrigues de Abreu

A obra poética de Rodrigues de Abreu tem sido pouco divulgada. Sua poesia brota espontaneamente da alma e revela um coração puro, sofrido, nem sempre resignado com seu destino, mas sempre dominado por muita emoção. Alguns querem defini-la como poesia mística, mas são poucos os seus poemas que buscam a transcendência. Podemos perceber alguma influência religiosa, porém, é com as questões deste mundo e desta vida que o poeta se debate.

Do livro Noturnos, onde os temas mais constantes são o frio, a tristeza e a solidão, selecionamos dois Sonetos:

 

Quando junho entra ríspido, friorento
fecho-me em casa. E as noites levo, a fio,
cheio de tédio e, como junho, frio,
sozinho com meu triste pensamento...

 

Por entre os galhos secos, fora, o vento
passa, rondando em fúnebre assobio;
e também passa por meu ser vazio
de crenças, a pungir-me, o sofrimento.

 

Penso no vento, penso em junho... Corta
meu pobre coração um frio intenso;
gelada, a alma parece que está morta.


E, numa solidão indefinida,
pensando em junho e em frio, triste, penso
na miséria e no horror da minha vida!

...

 

A minha vida é simples e apagada.
Não é, como essas vidas de romances,
cheia de tantos e imprevistos lances,
de fulgores de beijos e de espada!

 

Vida de quem se levantou do nada
e vai passando por humanos transes,
pondo as suas tristezas em rimances,
burguesmente seguindo a sua estrada.

 

Amo. Por isso nada me intimida...
Aceito tudo com jovial semblante
e voto à minha vida amor profundo.

 

Quando eu morrer e entrar numa outra vida,
hei de estranhar, hei de chorar bastante,
terei tantas saudades deste mundo!

 

Do livro Casa Destelhada, escolhemos o belo e triste poema, de mesmo título, que nos mostra a associação que o poeta (acometido pela tuberculose e sabendo que vai morrer) faz, entre o seu drama pessoal e uma casa ameaçada pela ventania. A casa, o seu corpo, que a alma, outrora feliz, precisa abandonar:

 

A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras, que caem lentamente
na terra esverdeada do meu coração!
Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa aguente mais um ano
nas paredes oscilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!

 

Com tanta dor e solidão, é no trabalho, na composição de sua poesia e nas leituras, que o poeta procura, e consegue, por um breve tempo, serenar a alma e esquecer suas desventuras:

 

Trabalho. Esqueço tudo. Vejo, quando
trabalho, que a minha alma é serenada,
e que o meu coração está cantando...
Mas, contemplando após a obra acabada,
vejo, no verso, um coração chorando,
vejo, no verso, uma alma atormentada.

 

Se não escrevo, nestas noites, leio
histórias de amor e de pecado,
de um remorso casando-se a um gorjeio,
de uma tragédia, a um beijo de noivado...

 

E lendo assim, sinto-me bem. Tão cheio
dos outros e de mim tão descuidado,
esqueço até que sou um torturado,
e tenho essas histórias no meu seio.
Leio. Mas, de repente, quando bate
na porta o vento, como um vil mendigo
em farrapos, pedinte e sofredor,

 

Lembro a perpétua angústia que me abate
e temo que essas dores, que bendigo,
se acumulem com a minha própria dor...

 

E assim, poderíamos continuar nos emocionando com as poesias do patrono Rodrigues de Abreu, mas já é hora de dedicarmos nosso tempo e nossa atenção ao Acadêmico Hugo Beolchi Júnior, fundador da cadeira número 30, que, com muita honra, estarei ocupando, a partir de hoje.

Fundador: Hugo Beolchi Júnior

Hugo Beolchi Júnior, filho de Hugo Beolchi e Ignez Milani Beolchi, nasceu na cidade de Cedral, interior de São Paulo, em 06 de maio de 1928 – seis meses depois da morte do poeta que ele escolheu como patrono para a cadeira número 30 desta prestigiosa Academia Cristã de Letras – onde ingressou, como fundador, no ano de 1976, aos 48 anos.

Hugo Beolchi Júnior cursou o primário no Grupo Escolar de Cedral, e o secundário no Colégio Ateneu Paulista, em Campinas, onde recebeu medalha de “Honra ao Mérito” e foi escolhido como orador oficial da turma.

Seguiu a carreira de seu ilustre pai, o médico obstetra Hugo Beolchi, pessoa de bom coração e de elevado mérito profissional. Beolchi Júnior formou-se em Ginecologia e Obstetrícia, no ano de 1953, aos 25 anos, e foi o orador de sua turma. Continuou atualizando-se, fazendo cursos de extensão em sua área de especialização e afins. Colaborou em vários cursos, em teses de doutorado e de livre-docência. Participou de congressos médicos, onde apresentou seus trabalhos. Participou de concursos literários, e recebeu prêmios, medalhas de ouro, menções honrosas.

O jovem médico casou-se com Sônia Palma Beolchi, com quem teve oito filhos: João Batista, Mônica, Mirta, Maila, João Antônio, Melissa, João Paulo e João Luiz. Foi um pai amoroso e muito querido. E, apesar das dificuldades para sustentar uma família tão numerosa, ele exerceu sua profissão com muito zelo, responsabilidade e ética.

Além de se dedicar à medicina, Hugo Beolchi Júnior atuou em outras áreas, principalmente na Literatura, onde se destacou como orador e poeta. Foi sócio titular da Sociedade Brasileira de Escritores Médicos, membro do Pen Clube do Brasil, conselheiro efetivo do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, representante oficial da Classe Médica, em inúmeras solenidades, como orador e conferencista. Recebeu homenagens na Câmara Municipal de Cedral, por sua brilhante trajetória e méritos conquistados. Foi Diretor de Educação e Cultura da Associação Amigos da Aclimação, bairro onde residia, em São Paulo.

Na Academia Cristã de Letras, proferiu brilhantes discursos, em eventos poéticos e apresentação de novos membros. O acadêmico Afiz Sadi, ilustre médico, escritor e poeta, ainda lembra da emoção que sentiu ao ser apresentado por Hugo Beolchi Júnior, na sua solenidade de posse, realizada no auditório da Escola Paulista de Medicina, na noite de 10 de agosto de 1982. Ao Dr. Afiz Sadi, e a todos vocês, rememoro um pequeno trecho daquele discurso:

A Alegria nos atendeu esfuziante e tocando seus címbalos, cantou este salmo de Aleluias:

-Bem-vindos ó romeiros da ternura e lirismo, que andais carregando sonhos, num mundo onde o sonho, pobre enjeitado, na sombra da vergonha se escondeu...

-Bem-vindos ó romeiros que cantais canções de amor e paz, no deserto onde o amor petrificou-se na indiferença. A paz... a paz acaba de morrer até nos braços inocentes que acalentavam bonecas!

-Bem-vindos ó romeiros que vindes impregnados da beleza do nascer das auroras e do morrer manso e sanguíneo dos poentes, quando o céu se ascende às velas das estrelas!

-Bem-vinda Casa de São Francisco de Assis, à Casa de Otávio de Carvalho! Pisai o tapete que ontem fiamos com as cordoalhas tendinosas do nosso coração. A nossa Casa é vossa. Entrai!

Inesquecível também foi outra palestra sua, sobre o Patrono da Academia Cristã de Letras, São Francisco de Assis, em uma solenidade presidida pelo escritor e acadêmico Alcindo Brito. Ele termina seu brilhante discurso com estas palavras:

Que minhas palavras finais sejam um murmúrio de prece a ti, Pai Francisco, pela nossa Academia, humilde e simples como a tua vida; pela nossa pátria, sofrida em meio à maior crise em todos os seus setores; e por nós todos, que persignados e de joelhos, ainda cremos, ainda amamos e ainda temos a alegria que nos ensinaste no sofrimento. Louvado seja Deus”

Em 1994, aos 66 anos, Hugo Beolchi Júnior foi submetido a uma cirurgia no coração e passou a usar ponte de safena. Foi obrigado a fazer mudanças em sua vida. Foi passar algum tempo no sítio da família em Termas de Ibirá, lá começou nova vida. Atendendo gratuitamente as pessoas mais pobres e simples da região, descobriu dentro de si uma nova energia, a energia franciscana do amor e da caridade. E acabou, naturalmente, se envolvendo na vida política local. Foi o vereador mais votado nas eleições de 2000 e recebeu prêmios e homenagens, pelos trabalhos realizados. Submetido a nova cirurgia, em 2007, não resistiu e faleceu em 15 de novembro, aos 79 anos.

Textos poéticos de Hugo Beolchi Júnior

Hugo Beolchi Júnior deixou muitos textos, discursos, poesias, contos. Participou da Antologia POETAS DA CIDADE com a seguinte poesia:

 

A RECEITA

Maldito orgulho que é senhor do mundo,
que mata o sentimento e cega a vista,
deixando a vida tão materialista,
ferindo o amor universal profundo.

 

Para sanar o mal há uma receita,
cujas drogas são simples de encontrar.
Mas nenhuma farmácia hoje aceita
esta estranha poção prá preparar.

 

Três gotas da miséria da favela,
um cálice do olhar de uma indigente,
as súplicas de um pobre na janela,
um miligrama de um indiferente.

 

Dez gramas da tristeza da orfandade,
a fome se adiciona sem pesar,
pôr um pouco do aroma da saudade
para tal gosto amargo disfarçar.

 

Durante um longo tempo, até curar,
a dose é uma colher às refeições.
Tomem por toda vida, sem parar,
os mais empedernidos corações...

 

Também escreveu um lindo livro chamado “Estatuto do Feto Humano”, que ainda se encontra em forma de apostila e que foi singelamente ilustrado por seu filho caçula, João Luiz. Trata-se de um hino em defesa da vida, com 23 estatutos entremeados com poesias. Selecionamos aqui o ARTIGO XVIII:

 

Fica decretado que é proibido
tramarem no silêncio dos laboratórios
novas armas contra mim.
O mundo está entupido de pílulas fatais,
anticoncepcionais
com permanentes efeitos residuais
sonegados, cinicamente, à mulher.
Tantas vozes pagas, gritam mentiras,
com maldita sevícia,
espalham a notícia
de que as novas pílulas
da anticoncepção
estão modernizadas,
aperfeiçoadas,
protegem e fazem bem!
Corsários da vida,
bajulam falsidades
e atrocidades
no seu lar de lama!

 

Senhoras e Senhores,

Os poetas e escritores, como jardineiros da expressão humana, falada e escrita, cultivam, em nossos corações e mentes, novas maneiras de sentir a vida e compreender o mundo que nos cerca. Quando as sementes que lançam, nas terras férteis da nossa imaginação, contêm a essência do bem e do belo, a nossa alma exulta em harmonia e contentamento, pois nos percebemos mais dignos e bons.

Como leitores e escritores, sabemos que sem o conhecimento daqueles que nos antecederam no tempo, não conseguiríamos dimensionar a grandeza da vida e o sentido de nossa existência. A nossa própria vida é um livro, cujas páginas vamos escrevendo ao longo dos dias, semanas, meses e anos, na medida em que nos abrimos para a rica experiência do relacionamento humano. Quanto mais experiência e conhecimento, mais interessantes se tornam as páginas de nosso livro pessoal, que poderá ser compartilhado com um número cada vez maior de pessoas.

Nas academias de letras, nas associações de escritores e outras associações culturais, o verbo compartilhar é conjugado em seu mais belo propósito, pois seus membros e associados, ligados pelo sentimento de fraternidade, reúnem-se para dialogar, trocar ideias, tecer novos conceitos, inventar novos caminhos, sempre visando à elevação cultural e espiritual do homem e a construção de um mundo melhor.

Fora das Academias, infelizmente, são outros os verbos empregados e compartilhar está ficando arriscado. O que mais se propaga é uma inversão de valores que culmina na falta de ética, na violência, na impunidade, no desrespeito às regras mais fundamentais da vida e da boa convivência humana e social. Até parece que o Arquiteto do Universo abandonou seu projeto divino e o ser humano ficou largado à própria sorte, ou azar.

A sociedade do descartável, do imediatismo e do stress é o resultado da primazia do progresso material que, fortalecido pelo desenvolvimento acelerado de novas tecnologias, provoca grandes transformações nos hábitos e costumes sem dar ao ser humano um tempo adequado de adaptação. As mudanças são velozes e os desafios são constantes e crescentes, pois, em nome do lucro e da vantagem econômica, os valores fundamentais da vida e da humanidade são ignorados ou vilipendiados. Como viver neste novo mundo, cada vez mais automatizado e desumano, sem perder as referências, sem perder a fé, a coragem e a esperança?

A resposta não é simples, mesmo para aqueles que dominam a arte da leitura e da escrita. No mundo de nossos dias, a insegurança é geral. Ricos e pobres, letrados e iletrados, vivem as mesmas ameaças, provenientes das catástrofes naturais e das insanidades humanas e sociais. O que acontece na nossa frente, ao nosso lado, atrás de nós, afeta dentro de nós. Somos todos vulneráveis e estamos todos expostos...

O que fazer? Olhar para trás e chorar? Ou continuar a olhar para frente, acreditando que a união faz a força e que o destino da humanidade é grandioso porque dentro de cada ser humano existe a essência do bem e do belo que precisa ser despertada e cultivada com o espírito do amor fraterno e universal?!

Não somos contra o progresso e o desenvolvimento tecnológico. Somos contra o descaso com que a vida é tratada e contra a exploração do homem pelo homem que se perpetua ao longo dos milênios, como se a cultura e o conhecimento adquirido tivessem valor apenas decorativo.

Vivemos em uma sociedade que se diz democrática, mas a pirâmide social, que sempre existiu, continua com uma base bem ampla, a dos cidadãos despreparados, incapazes de pensar, julgar e escolher. Entre esses indivíduos, excluindo a camada mais baixa, totalmente marginalizada e improdutiva, estão aqueles destinados a produzir as riquezas (bens e serviços) para o usufruto de uma minoria, os que se encontram no topo da pirâmide. O cidadão comum é levado a produzir e consumir para gerar o lucro que não retorna, como bem comum, à sociedade.

Felizmente, sempre existiram pessoas de nobres sentimentos e boa vontade, que lutam por mudanças sociais e mais investimentos na educação que eleva e dignifica o ser humano. Mudanças estão acontecendo, sim, e cresce o esforço no sentido de universalizar o acesso à educação. Mas, com que finalidade? Para manter a pirâmide ou para transformar cada indivíduo num cidadão responsável, consciente dos seus direitos e deveres?

Sem educação é impossível construir uma sociedade livre, justa e solidária. E a transformação de um indivíduo em cidadão educado, consciente e responsável, exige muito mais do que o conhecimento intelectual adquirido nas mais variadas áreas do saber - coisa que a maioria não tem. Exige educação ética e moral, que preserva os valores fundamentais do ser humano, e respeita a vida e o bem comum - coisa cada vez mais rara na vida cotidiana. Exige disciplina pessoal, adquirida desde a infância, no sentido do comportamento saudável, solidário e cooperativo - uma utopia em nossos dias.

Essas exigências não serão atendidas apenas através das instituições de ensino e da força tendenciosa das leis. A educação é adquirida, principalmente, na vida em sociedade, através da experiência cotidiana: na relação com os pais, professores, empregadores, adultos de modo geral, que são os instrutores e exemplos a serem seguidos. Na esfera pública, o exemplo maior deveria vir das autoridades que representam os interesses da sociedade e têm a obrigação de fazer cumprir a Carta Magna para garantir, de fato, o exercício da cidadania em condições de igualdade e liberdade – que só é possível quando todos têm condições iguais e respeitam os direitos e deveres de cada um, dentro de suas áreas de atuação.

Felizmente, a capacidade criativa do ser humano não tem limites. Assim, podemos continuar a sonhar com a felicidade. E, por mais que o cenário pareça desanimador, nós que abraçamos a arte da escrita, não podemos deixar de sonhar com a transformação do mundo em que vivemos num imenso e belo jardim.

Os poetas e escritores, como jardineiros da expressão humana, falada e escrita, precisam lançar com mais vigor, nas terras da imaginação coletiva, as sementes que contêm a essência do bem e do belo, para que todos possam exultar em harmonia e contentamento, para que todos possam se perceber dignos e bons e assim, unidos e irmanados, construir um mundo melhor, mais seguro, mais humano e justo.

Por sua atenção, muito obrigada!