Um avião invisível

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Prefácio: Mafra Carbonieri*

Os livros de Raquel Naveira, poesia ou prosa, são aviões invisíveis, e ela, uma excelente companheira de viagem.

Poetisa ou poeta, essa incerteza se torna tediosa quando se lê Raquel. Não importa o gênero em que ela exercite a sua escrita, a poesia sempre a acompanha, não como sombra, porém como o impulso vital de sua personalidade.

São setenta e seis crônicas. Poucas vão além de duas páginas. E todas estão circunscritas ao mistério da vida e da arte. Embora independentes, cada qual com uma reflexão fechada em si mesma, as crônicas não são descontínuas. Une-as o assombro da escritora pelos enigmas aparentes da existência, que ela analisa até deslindar-lhe os objetos, até fixá-los no âmbito de sua afeição.

A literatura de Raquel é fundada na fé e na solidariedade.

Ninguém mais solidário do que o criador de literatura, quando as criaturas de sua invenção derivam da fé e da voluntariedade moral. A poesia que perpassa por estas crônicas vem de páginas eternas, da Bíblia, argila que se renova e se deixa modelar pelas mãos hábeis, tão femininas, de Raquel, a ovelha.

O avião invisível da crônica de abertura é o pilotado por Carlo Del Prete, em 1928. Na tessitura da cronista, ao herói italiano se associa outro piloto, agora um francês, que escreveu: “O essencial é invisível aos olhos”, Antoine de Saint-Exupéry.

Todos com passaporte para o reconhecimento de seu talento, ou genialidade, vivos ou mortos, isso não importa, outros passageiros acenam das janelas do avião invisível para os leitores: Adélia Prado, Guilherme de Almeida, Baudelaire, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Francisca Júlia, Manuel Bandeira, Castro Alves, Monteiro Lobato, Rosa, Scliar, Palmério, Clarice...

Não há só escritores entre os passageiros de Raquel. Lá estão Caxias, Van Gogh, Almeida Júnior, Gigliola Cinquetti...

Claro que ela escreve para o Brasil, mas a presença de São Paulo, na simetria de suas pedras nevoentas, transparece no Pátio do Colégio, na Sé, no Museu do Ipiranga, na casa da Rua Lopes Chaves, e em nomes como Domitila, Angélica, Veridiana, Lygia...

Por essa coletânea de crônicas, e pela obra já consistente, com sinais inequívocos de autoria, estilo e desembaraço de expressão, Raquel Naveira assegura o seu lugar na estante dos grandes escritores brasileiros.

 

José Fernando MAFRA CARBONIERI

• É professor, jurista, poeta, escritor com vários livros publicados, entre eles, A Lira de Orso Cremonesi (poesia) e Os Gringos (romance), membro da Academia Paulista de Letras.