
Em 130 anos há espaço para muita história e a história transborda das páginas deste livro. Ao longo desse tempo, 89 vezes, alternaram-se na presidência da Academia de Medicina de São Paulo (AMSP), médicos notáveis, honrados por seus pares para representá-los. Neste livro, o Acadêmico Begliomini nos dá conhecê-los melhor.
Quem foram, de onde vieram, quais escolas médicas os abrigaram durante a formação, quando suas trajetórias de vida se uniram à da AMSP, o que viram e viveram, eles e seus contemporâneos? Respostas a tais instigantes questões, encontrá-las-emos nas páginas da obra de Helio Begliomini “Presidentes da Academia de São Paulo – Particularidades e Curiosidades”.
São Paulo, desde sempre abre seus braços aos dotados de espírito empreendedor, coração aberto e braços fortes. E assim foi na AMSP. Reuniram-se sob as 13 listas de nossa bandeira presidentes paulistas, paulistanos, brasileiros de outras plagas de nosso imenso Brasil e nascidos fora de suas fronteiras. Nutriram-se nossos predecessores do melhor que havia em educação médica no tempo de cada um deles, trazendo-nos tempos melhores.
Os acontecimentos que marcaram a humanidade entre o crepúsculo dos anos 1800 e o alvorecer deste terceiro milênio gravaram-se no pensamento de nossos próceres e seus contemporâneos, moldaram os valores que consolidam o edifício desta ora mais que centenária Academia. Recordá-los organizados de forma sistemática oferece aos leitores oportunidade ímpar para rever o passado, melhor compreender o presente e sonhar o futuro.
Os fatos e suas circunstâncias aqui bem e oportunamente descritos vão além de associações temporais, pois certamente influenciaram direta ou indiretamente mudanças que orientaram nossas lideranças na condução deste sodalício. Ao conhecê-los integrados cronologicamente, passamos a entender com clareza seu impacto também no pensamento da sociedade como um todo. Particular interesse têm as descobertas científicas que transformaram a Medicina e, consequentemente, a prática clínica ao longo da existência da Academia. Se males antes considerados inevitáveis passaram a ser melhor identificados, controlados, curados, prevenidos e mesmo erradicados, mesmo antes que evanescessem, outros novos surgiram, ceifaram milhares de vidas e continuam a nos desafiar. Sobrevivemos a três grandes pandemias: a gripe espanhola, a Aids e a Covid-19. Essas catástrofes biológicas marcaram-nos profundamente, expuseram nossa fragilidade, desafiaram nossa capacidade de reagir e deram azo a notáveis avanços, particularmente no campo da imunologia. A Academia viveu duas guerras mundiais, entremeadas e seguidas por episódios de horror que expõem a crueldade “humana” ainda prevalecente e que nos envergonha. As notícias mudaram de lugar, dos jornais, para o rádio, para a televisão e, agora, as mídias sociais, mas continuam marcadas por atrocidade e genocídios; aprofundam-se as diferenças sociais, refletidas por desigual expectativa de vida, que separam, por décadas, grupos que coexistem às vezes na mesma cidade. Há quem hoje nasça com a esperança de tornar-se centenário, ao lado de outros condenados a desaparecer antes de um lustro. Alguns poucos gozam conforto, boa nutrição, acesso imediato aos progressos da assistência médica, enquanto milhares sobrevivem à margem destes benefícios. Este é o desafio do século XXI: vencer a desigualdade social, determinante fundamental da saúde.
Se este é o desafio do nosso tempo, enfrentemo-lo, inspirados nos tantos que têm iluminado esta caminhada de 130 anos.
José Luiz Gomes do Amaral1
