Geraldo Nunes

Tive a honra de prefaciar, em 2020, o livro de Thais Matarazzo que focaliza as boates da cidade de São Paulo dos anos 1950 - 60 inspirada nas publicações do jornalista Egas Muniz, conhecido como “o confidente da noite”. Thais nos deixou cedo, viveu apenas 41 anos, entre 1982 e 2023, mesmo assim nos deixou um legado de 26 obras publicadas no Brasil e em Portugal. No prefácio de Giro Noturno – táxi dancings fiz as seguintes considerações:

Thais Matarazzo é pessoa sensível e isso se percebe pelo seu modo de ser, ela transmite nas letras as interpretações do passado com fina gentileza, para que todos compreendam com facilidade a maneira como se comportavam corações e mentes em um tempo ainda não tão distante. Seu texto envolvente explica que os costumes eram outros, as relações interpessoais também, mas que o ser humano segue sendo, de geração em geração, o mesmo nas suas fantasias, esperanças e ilusões de amor, onde os trajes e a moda se alteram, mas os contornos do comportamento humano permanecem os mesmos.
Neta de uma avó apaixonada por música, nossa autora ouvia na infância as antigas canções na voz de Carmen Miranda, extraídas de pesados discos que giravam apressados em 78 rotações. Crescida já na fase da tecnologia digital, a casa da vovó para Thaís Matarazzo era uma espécie de túnel do tempo que a levava a viajar no passado e se interessar em pesquisar os assuntos de outros tempos.
Também na casa da vovó descobriu outras vozes que ninguém se lembrava e que Thaís resgatou em um de seus livros onde ela escreve sobre a Música Popular no Rádio Paulista. Estudando nossos antepassados, Thais foi descobrindo no presente ser possível sentir saudades até mesmo daquilo que não se viveu.
Desse sentimento só atribuído a quem carrega a poesia em seu íntimo, surge a moça escritora de nossa história recente. Desbravadora cultural, decide explorar caminhos que se esvaem na vasta memória dos que ainda não partiram, cujos assuntos não fazem parte das redes sociais da modernidade. São temas pouco conhecidos dos mais jovens, questões que fizeram parte do cotidiano de décadas perdidas no tempo e que agora, servem de referência para o estudo do comportamento humano na sociedade dos centros urbanos do século XX.
A paixão pela dança através da música e a relação sempre difícil entre homens e mulheres, é o assunto de Giro Noturno – táxi dancings, décimo oitavo livro de Thaís Matarazzo em que ela nos brinda com narrativas de um mundo de sonhos embalados no ritmo musical dos salões de dança existentes. nas duas das maiores cidades brasileiras, entre as décadas de 1920 e 1970, o Rio de Janeiro e São Paulo.
Os táxi-dancings no Brasil surgiram da influência dos salões de dança norte-americanos que se tornaram febre após a Primeira Grande Guerra, ganhando força especialmente nos grandes centros urbanos. O cenário tinha como pano de fundo a música de uma orquestra, seus cantores, a pista de dança, dançarinas, bar, mesas, cadeiras, glamour e a ilusão permanente do universo do amor entre um homem e uma mulher. Cada dançarina ali presente poderia depois estar nos braços de algum daqueles cavalheiros, este era o sonho inconfesso daqueles frequentadores na busca incansável do universo do amor.
Para as táxi-girls, entretanto, a atividade profissional se dava em um ambiente de respeito e em trajes serenos onde os homens só adentravam ao salão em terno e gravata. Ao chegar era entregue um cartão onde eram feitas as marcações correspondentes à quantidade de músicas dançadas. As dançarinas recebiam seu salário, de acordo com a picotagem desse cartão, ficando a elas uma parte do valor pago a cada dança e a outra parte, sempre maior, para a casa. Por isso interessava à bailarina dançar o maior número de vezes possível e nada mais ia além do que isso com o frequentador naquele ambiente. Evidentemente, pairava no ar um clima de sedução e o galanteio fazia parte desse universo. O dinheiro recebido por uma táxi-girl não era suficiente para o sustento diário e muitas delas partiam para uma “dupla jornada”, fora do expediente. Outras acumulavam atividades como as de enfermeiras ou datilógrafas, antecedendo ao trabalho noturno que se dava em lugares fechados, repletos de fumantes e, portanto, insalubre. Muitas adoeciam vítimas da pneumonia ou tuberculose, terminando seus dias com pouca ou nenhuma assistência.
Sobre os assuntos girando em torno deste mundo e submundo da dança, o livro é repleto de casos apaixonados como o de um advogado paulistano por uma táxi-girl do Avenida Danças, que acabou se casando com outro. A ela foi dedicada uma poesia, guardada no fundo do baú e só agora revelada no livro. Há também o caso pitoresco de uma dançarina que se tornaria, por ironia do destino, a primeira pessoa da América Latina e a segunda, no mundo, a receber um intestino transplantado, em 18 de agosto de 1968, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, pela equipe do famoso médico Dr. Euryclides Zerbini, o pioneiro dos transplantes no País.
São também trazidas as informações de jornais, revistas e outras publicações para realçar o assunto que se torna cada vez mais envolvente em cada página. Deste modo, como diz um editor amigo nosso, “há livros que só terminam quando ele é retirado das mãos de seu autor que sempre tem algo a mais para complementar e não quer encerrar a obra nunca.” Assim aconteceu com Thaís Matarazzo que durante as entrevistas foi descobrindo mais e mais pessoas conhecedoras do que se passou nos táxi-dancings do Brasil e seus bastidores, cogitando agora escrever uma sequência em futuro próximo dos novos relatos que já está obtendo. Por enquanto vale a pena acompanhar de ponta a ponta o começo dessa trajetória de Giro Noturno - táxi dancings, se preparando para novas e agradáveis surpresas literárias que Thais Matarazzo nos reserva para logo mais.
Geraldo Nunes, é jornalista-historiador, escritor e radialista
