Memórias de um Caríssimo Ambulatório

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Prefácio I       por Wagner Lopes SanchezWagner Lopes Sanchez 1b10c

“... se levantou e pôs-se a servi-los” (Mt 8,15)

     A sociedade atual, caracterizada pelo individualismo e pelo egocentrismo, estimula a busca desenfreada do interesse pessoal e da acumulação. Valores como solidariedade e amor incondicional são vistos como gestos raros e próprios de situações extraordinárias. Falar de serviço, doação da vida e gestos fraternos soa, muitas vezes, como algo inusitado e antiquado num mundo que prioriza o lucro e a ganância.

     Nesse contexto social, servir é colocar-se na contramão desse estilo de vida; é colocar-se à escuta das necessidades das pessoas em condições de fragilidade e procurar satisfazê-las de forma digna e respeitosa.

     Cinco palavras traduzem bem o verdadeiro sentido do serviço: acolhimento, doação, libertação, humanização e amor. Servir é acolher as pessoas em suas necessidades e dar-lhes uma resposta. Servir é doar o que sabemos fazer e o que temos, para contribuir para que as pessoas vivam bem. Servir é libertar as pessoas do sofrimento do corpo e da alma, da barriga e do coração. Servir é humanizar as pessoas e dar a elas a possibilidade de afirmar a sua dignidade. Enfim, servir é amar as pessoas para que sejam felizes e alegres.

     O serviço desperta a alegria e a felicidade tanto na pessoa que oferece como na pessoa que recebe. Aqueles e aquelas que se colocam com gratuidade no caminho do serviço dão exemplos de que é possível viver fora dos padrões e fora da lógica dominante da sociedade atual.

     O serviço gratuito, desinteressado, é uma das exigências do seguimento de Jesus. Isso por que a própria vida de Jesus, centrada no anúncio do reino de Deus, foi um verdadeiro serviço aos pobres. O amor de Jesus pelos pobres e pequenos, a sua compaixão pelos famintos e doentes, e sua ternura com as crianças revelavam um Deus amoroso, compassivo e que entra na história para colocar-se a serviço do povo.

     Através de sua vida, Jesus revelou-nos o verdadeiro nome de Deus: amor incondicional. A primeira carta de João 4,8 traduz esse ensinamento com a frase que é a melhor definição que se pode dar de Deus: “Deus é amor”.

     O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, ensinou que: “cada cristão e cada comunidade são cha­mados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo” (no 187).

     Francisco tem colocado no centro de suas preocupações a pessoa do pobre, a pessoa em condição de fragilidade, e tem insistido na necessidade de nos colocarmos na direção dessas pessoas.

     O trabalho realizado por dr. Helio Begliomini, há quase 40 anos, no consultório localizado na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Jardim Tremembé, bairro da periferia da região norte de São Paulo, é um exemplo de serviço generoso e desinteressado.

     Durante todo esse tempo ele atendeu – e atende – graciosamente pessoas pobres que precisavam – e precisam – de ajuda profissional de um médico. Esse trabalho se junta a um grande mutirão de mulheres e homens que, em muitos lugares deste Brasil, dedicam tempo, conhecimento e recursos para ajudar pessoas pobres.

     Num país onde a saúde não é prioridade, um trabalho desse tipo tem um valor inestimável. Trata-se de um serviço que socorre as pessoas em suas necessidades de mais saúde.

     Se, no Brasil, muitos profissionais da medicina fazem a opção de se dedicar exclusivamente a atender pessoas ricas, o trabalho do dr. Helio tem um significado de grande valor para pessoas que necessitam de saúde e de alívio para suas dores. E é um exemplo de que é possível exercer a medicina servindo às pessoas que mais necessitam.

      O texto que temos em mãos é semelhante a um diário de bordo desse trabalho realizado pelo dr. Helio. Reúne impressões, poesias, orações, testemunhos e fotos. Aqui, neste livro, temos a oportunidade de conhecer a sua trajetória religiosa e o serviço que decidiu prestar nas dependências da Paróquia Nossa Senhora de Fátima. A leitura desse rico material permitirá, a quem vai ler, acompanhar a trajetória de um médico que decidiu sair de seu consultório e colocar parte de seu tempo e conhecimento a serviço dos pobres, no mesmo espírito do Papa Francisco, quando fala de uma Igreja em saída (Evangelii Gaudium  no 20).

     Certamente, nesse serviço médico, ele pôde ouvir muitas histórias de vida de seus pacientes. Histórias marcadas pelo sofrimento e pela dor, mas também de esperança e de confiança num amanhã de mais saúde e felicidade para essas pessoas.

     Sua fé em Jesus foi a motivação para levar a sério o Juramento de Hipócrates e realizar esse serviço médico destinado aos pobres, ao longo desse tempo.

     Só mesmo aqueles e aquelas que, durante todos esses anos, passaram pelo seu consultório, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, podem dizer o significado e a importância de um serviço desse tipo.

     Parabéns ao dr. Helio e que o seu serviço de doação generosa no seu consultório da periferia continue beneficiando ainda muitas pessoas. Que seja exemplo e inspiração para outros profissionais colocarem-se a serviço dos mais pobres.

São Paulo, 15 de outubro de 2018.

Wagner Lopes Sanchez é mestre em teologia e mestre e doutor em ciências sociais. É professor no Programa de Estudos Pós-Graduados de Ciência da Religião, vinculado ao Departamento de Ciência da Religião, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, e no Itesp – Instituto São Paulo de Estudos Superiores. É membro da diretoria do Ceseep – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, e do Observatório Eclesial Brasil. É autor de artigos e livros publicados nas áreas de teologia e ciência da religião, e um dos organizadores do Dicionário do Concílio Vaticano II (Paulus-Paulinas, 2015).

Prefácio II       por Domingos ZamagnaDomingos Zamagna 953e1

 Philantropías Pélagos

(Um Mar de Amor ao Ser Humano)

     O título é grego, e é oriundo de um Padre da Igreja, João Damasceno (675-740), uma importante testemunha ocular da tradição cristã entre a cultura greco-síria e a cultura islâmica. Foi um doutor que precisou lutar contra a iconoclastia, a destruição dos éicones, as imagens sagradas, impedidas de veneração no judaísmo e no islamismo, mas aceita pelo cristianismo. Por quê?

     João Damasceno ensinou: Deus é imaterial, incorpóreo, jamais poderia ser representado por algo material. Mas desde que Ele se dignou enviar seu Filho, a Palavra encarnada, a matéria, o sensível, a carne, foi dotada de tal dignidade que merece veneração. Somente Deus é adorado, mas os seres humanos merecem veneração, pois – na linguagem forte dos gregos – foram “divinizados”, já que Deus, condescendente, quis ser da nossa raça (At 17,28), e fazer também da nossa carne a sua morada.

     É esse ímpeto que leva alguém a se dedicar ao seu semelhante. Essa é a paixão que conduz seres humanos a se debruçarem sobre seus irmãos sofredores para lhes proporcionar atenção, alívio, cura.

     No início da nossa era, o filho do carpinteiro José, enfrentando o ceticismo e até mesmo a hostilidade das autoridades, passou sua jovem existência terrena fazendo o bem aos mudos, surdos, mutilados, leprosos, cegos, epiléticos... envolvendo-se com todo tipo de enfermidade. Por isso mesmo ele foi – uma única vez em todos os quatro evangelhos – chamado de “médico” (Lc 4,23). Curava os corpos e, como anotam os evangelistas, estendia sua cura também às enfermidades morais. Salvava os seus semelhantes das doenças e dos pecados.

     Sob este aspecto, ninguém se aproxima mais da obra amorosa de Jesus do que os médicos, os enfermeiros, os cuidadores, os cientistas que colocam sua inteligência e operosidade a serviço da restauração de uma humanidade ferida, de uma natureza que perdeu o viço. Todos e todas que se empenham nesse mar de amor ao ser humano (philantropías pélagos) imitam o Jesus médico, taumaturgo, restaurador, cuidador.

     Não precisamos recorrer apenas aos tempos antigos, aos exemplos excepcionais. Mais correto é olhar ao nosso entorno: entre nós existem aqueles que, por um ímpeto humano, ético, moral e de fé, dedicam-se com afinco ao mar de amor pelo ser humano. A obra que o leitor tem em mãos é um testemunho vibrante de como um homem de ciência e de fé, dr. Helio Begliomini, tocado pelo amor misericordioso do Filho de Deus (cf.1Cor 13,1-13), que entre nós foi também o médico Jesus, fez de sua vida uma dedicação à atenção, ao alívio, à cura de todo tipo de enfermidade. Somente na obra de que trata este volume temos o testemunho – voluntário, fiel, competente e alegre – de longos 40 anos de trabalho.

     Dr. Helio não poderia oferecer melhor presente à Igreja Católica e ao Brasil, na conclusão do Ano do Laicato (2018), convocado pelo Papa Francisco, do que esta impressionante obra-testemunho de uma espiritualidade encarnada (reconhecendo no corpo do ser humano a imagem do ser divino) mergulhado num “mar de amor pelo ser humano”.

Domingos Zamagna bacharelou-se em comunicação social, teologia e filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e nessa instituição licenciou-se em filosofia. Especializou-se em ética na Universidade de Fribourg, Suíça. É mestre em história pela Universidade de São Paulo (USP) e em ciências bíblicas pelo PIB de Roma. Trabalhou sempre como jornalista e professor universitário, atuando nas áreas de cultura e religião. Lecionou durante 20 anos latim, grego e hebraico na Faculdade de Teologia da PUC-SP. Trabalhou 18 anos na TV Globo de São Paulo, na editoria de educação e cultura, e cinco anos em jornalismo político, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Fez a cobertura jornalística de cinco conclaves, desde o que elegeu o Papa Paulo VI, em 1963, até a eleição do Papa Francisco, em 2013. Trabalhou dez anos no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo, onde também editou a revista Digesto Econômico.
Domingos Zamagna é membro da Academia Cristã de Letras e integra o Colégio de Tradutores da Bíblia de Jerusalém (Paulus), da Bíblia Sagrada (Vozes) e do Missal Romano da Igreja católica (CNBB). Atualmente é professor no Unifai – Centro Universitário Assunção (Filosofia); no Instituto Bartolomeu De Las Casas (Ética dos Meios de Comunicação), na Fapcom – Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Filosofia e Jornalismo), na Faculdade São Bento (Exegese Bíblica) e no Unisal – Universidade Salesiana (onde leciona Exegese Bíblica e Teologia Patrística).

Prefácio III     por Frei Guilherme P. Anselmo Jr., sia

     O doutor Helio Begliomini é médico. Tive a feliz oportunidade de conhecê-lo há pouco tempo, quando assumi o serviço de pároco da Paróquia em que ele testemunha Frei Guilherme fe9bbsua fé, há mais de três décadas. Ele escreveu um livro sobre alguns aspectos dessas décadas de trabalho, suas raízes, motivações, caminho, ações, obstáculos, desafios e esperanças. Fui convidado, sem méritos, a escrever um “prefácio” para dito livro.

     Nunca tinha escrito um prefácio. Fui, então, certificar-me tecnicamente a que se presta um prefácio. Parece que deve ser um texto que desperte motivações no leitor do livro, para que se interesse e se anime a ler a obra. Bom, se é isso, então é muito fácil. Não terei esforço nenhum.

     “Não existe árvore boa produzindo mau fruto; nem inversamente, uma árvore má produzindo bom fruto. Pois cada árvore é conhecida pelos seus próprios frutos. Não é possível colher-se figos de espinheiros, nem tampouco, uvas de ervas daninhas. Uma pessoa boa produz do bom tesouro do seu coração o bem, assim como a pessoa má produz toda a sorte de coisas ruins a partir do mal que está em seu íntimo, pois a boca fala do que está repleto o coração.” (Lc 6, 43-45)

     O livro que você está começando a folhear é a bela descrição de muitos frutos colhidos por milhares de pessoas, em muitos anos. Respeito, atenção, cuidado, escuta. Tratamento, encaminhamento, remédio, orientação. A lista é enorme desses frutos, você verá com seus próprios olhos e coração ao acompanhar estas páginas que estão diante de você.

     Não é a história de uma profissão ou de um profissional. Não. É a história de uma vocação e um vocacionado. Deus chamou o dr. Helio e ele disse “sim”, e permaneceu dizendo “sim” até hoje. Esse foi o adubo dessa árvore frondosa. Claro que, vez ou outra, houve poda. Alguns galhos e folhas ficaram pelo caminho. Intempéries atrapalharam algumas vezes. Mas a árvore nunca parou de dar frutos. Sinal de que Deus manteve a árvore fértil.

    Convido-o a deliciar-se com as narrativas, com as estatísticas, com os “causos” meticulosamente contados, com os detalhes de um homem organizado na ação. Aproveite o sabor de um texto bem escrito que vai fazer o seu dia bem melhor. Se ler até o fim, não será transformado só o seu dia, mas muitas coisas na sua vida terão outro sentido, sempre maior. Quando acabei de ler o texto, olhei para a minha vida e percebi quanto falta eu fazer para responder ao que Deus quer e espera de mim. Percebi tal coisa, motivado pelo testemunho coerente, concreto e brilhante que salta aos olhos ao leitor deste livro.

     Ainda, caro leitor, permita-me convidá-lo a uma experiência para além da degustação da leitura. Mergulhe nos rios dessas páginas sem proteção, sem medo, disposto a molhar-se com essa água morna e sadia. Já nadando ali você vai perceber que não são só palavras que vão entrando em você. São vidas inteiras visitadas e alcançadas que vão fazendo você ter mais entusiasmo e alegria em ser uma pessoa melhor.

     O título dado à obra é “Memórias de um Caríssimo Ambulatório”. O conceito de memória é um capítulo à parte para mim. Sou pesquisador dos textos bíblicos judaicos. Naquele ambiente, memória não é só lembrar de algo ou alguém. O conceito é outro. Trata-se de reviver o que se lembra, atualizar, dar novo sentido. Esta obra se presta justamente a isso. Não é uma ata ou um registro histórico para lembrar. É uma atualização perene, uma memória sagrada e que será relida muitas vezes no futuro, sempre com um sentido novo. O aspecto itinerante dessa memória está garantido pelo termo “ambulatório”, palavra cuja raiz carrega a ideia de caminho, rumo, itinerância, instabilidade. O Papa Francisco vem retomando essa ideia como metáfora das ações de bondade de hoje: como num hospital de campanha, aqueles armados numa tenda em meio a calamidades humanas, sem todos os recursos necessários, mas como espaço de resgate e reconstrução de pessoas. Prepare-se, você vai ler um texto de um “hospital de campanha” aos moldes do Papa Francisco.

     Dou graças a Deus por estar aqui vendo esse pomar tão lindo vivo e fértil. É um privilégio.

   Dou graças a Deus também por ter lido este livro que você agora vai ler. Tomara que você também seja alcançado pela beleza e pela verdade de tudo que está escondido nele.

Frei Guilherme P. Anselmo Jr., sia: Técnico em comércio internacional (Aduaneiras), graduou-se em letras clássicas e filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e, em teologia, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), obtendo, nessa universidade, o título de mestre em teologia. É superior geral da Congregação Missionária de Santo Inácio de Antioquia (Frades Inacianos); diretor espiritual da Legião de Maria – Senatus Nossa Senhora Aparecida (SP-MT-MS); pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima; professor de teologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – Unisal (Pio XI) e professor de grego na PUC-SP (Extensão).