Telhado

    Chove chuva 1 42b4c Moro numa casa velha, construída por meu avô, há mais de meio século. Natural que o telhado de barro cozido não tenha suportado a chuva forte, depois de tantos dias de estiagem. A água entrou pelas frestas aos borbotões. E eu que pensei que aqui estaria abrigada das intempéries, da intrusão de espíritos, fechada a estranhas influências. Que o meu segredo estava protegido. Que aquilo que adquiri materialmente estivesse seguro e instalado. Que a minha cabeça ficaria coberta.

      Pingos grossos encharcando meus cabelos me levam a temer uma súbita perda de consciência. Torturo-me. Não quero enlouquecer sem o atributo pelo qual me relaciono com o mundo e crio níveis mais altos de integração. A minha cabeça, parte mais sagrada do meu corpo, está cheia de pensamentos, ideias, vontade de executar obras, símbolos, representações, sentimentos, tendências que não consigo explicar. O meu tino, minha inteligência, meu juízo e memória estão dentro dela. Tudo agora pode voar de repente, pelas frinchas, como versos corrompidos e vazios de sentido.

     É verdade. Sem telhado, estaria descontrolada. Talvez cantasse aquela seresta do pianista Orestes Barbosa, “Chão de Estrelas”: “A porta do barraco/ Era sem trinco/E a lua, furando o nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão/ E tu pisavas nos astros distraída...” Que beleza! Logo será noite e verei mesmo uma ponta da lua e uns cacos de estrelas por esse vão que se abriu no reboco.

     Vinícius de Morais também cantou uma casa engraçada, feita com esmero, que não tinha teto, não tinha parede, não tinha chão. Alguns interpretaram essa casa como a metáfora da barriga da mãe, do útero. Mas o parceiro do poeta, o músico Toquinho, contou que essa casa existe, foi arquitetada pelo artista plástico   Carlos Vilaró, em Punta Ballena, no Uruguai. Era uma canção de ninar para os filhos de Vilaró. Vinícius encantou-se com a casa de blocos brancos, à beira do penhasco, onde podia levitar ao pôr do sol. Pura magia a casa sem telhado.

     Jesus em vão buscou um teto. Afirmou: “O Filho do Homem não tem onde recostar a cabeça.” Observou que as raposas tinham tocas, as aves tinham ninhos, mas ele era um peregrino. Seguir ao mestre exige mudança da mente. Uma vida diferente da que vivíamos. Poderemos em muitos momentos nos sentir desamparados e sozinhos na jornada. Sem termos onde reclinar a cabeça, descansaremos no seu ombro, chorando nossas angústias, falhas e fraquezas.

     Sou uma escritora, preciso de um teto. A romancista inglesa Virgínia Woolf (1882-1941), alertou que uma mulher necessita de independência econômica e de um quarto isolado, se pretende mesmo ser escritora. Um teto todo seu, um lugar para sondar os recantos impressentidos de sua alma, as suas sensações ocultas. Para esconder-se da brutal curiosidade alheia e derramar sua verve pelas folhas de papel.

      Se eu colocar uma telha de vidro no teto desse meu quarto escuro, quase uma camarinha, ele ficará iluminado, alegre. Seria bom beber da claridade, enquanto abro com as mãos trêmulas a trave dessa portinhola antiga. Uma telha só, porque telhado de vidro é perigoso, traz má reputação, revela manchas do passado e é passível de alguém atirar pedras.

      Parou de chover. Preciso tomar uma atitude radical: arrancarei esse telhado.