Paulo Bomfim: Presente!

             *José Renato Nalini

            Hoje, 7 de julho de 2020, é o dia em que se recorda com saudades e carinho o poeta Paulo Bomfim, falecido há exatamente um ano.a Paulo Bomfim ca57d

            O tempo, implacável, segue seu curso. Mas há pessoas que permanecem por inúmeras razões.

            Não conheci outra pessoa mais generosa do que Paulo Bomfim. Viveu para enaltecer o semelhante. Só proferia palavras amáveis para todos. Não admitia se levantasse alguma dúvida em relação a seus amigos. Lealdade foi seu lema de vida.

            Nunca se recusou a incentivar aqueles que pretendiam caminhar pela senda complexa da poesia. Aceitava prefaciar todas as obras que o autor fizesse chegar à sua inexcedível paciência.

            Era uma enciclopédia heráldica e histórica de elevada precisão. Conhecia São Paulo desde o início da colonização, elencava dinastias e nunca se equivocou em relação aos nomes de família. Orgulhava-se de sua origem, cultuava seus antepassados e jamais se esqueceu dos vultos que passaram por sua profícua existência, repleta de estórias e singularidades que preencheriam vários volumes de deliciosa memória.

            Era um anfitrião como já não existe. Sabia receber e deixava todos os convivas à vontade. Suscitava conversas que envolvessem a cada qual, não permitindo que alguém tivesse de permanecer no olvido, a despeito de reunir personalidades de renome. Penso que estaria desesperado neste confinamento, diante da hipótese de não poder receber os grupos que diariamente sentavam-se à sua mesa na Peixoto Gomide.

            À sua bondade atribuo haver ingressado na Academia Paulista de Letras, onde ele reinou como Decano durante mais de meio século. Na verdade, esteve na Casa da Cultura do Largo do Arouche desde 23 de maio de 1963, até sua partida.

            Tive a ventura de conviver com ele durante décadas. Merecer o seu carinho nas horas mais tristes que enfrentei: a morte de meu irmão, em 1989. Esteve comigo no sepultamento e na missa de sétimo dia. De igual forma no passamento de meu pai, em 1992. E, quando minha mãe faleceu, em 17.11.2005, Emy e ele praticamente me adotaram. Insistiam em que estivesse todos os dias com eles. Cobriram-me com o manto protetor que me ajudou a suportar o insuportável.

            O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo sofreu uma amputação da qual nunca se recuperará, com o adeus de seu lume. Chefe de cerimonial, Chefe de gabinete, o mais solícito, polido e cortês intelectual fazendo as honras para receber convidados ilustres. Era diferencial que distinguia a insuperável qualidade da Justiça bandeirante.

            Nada equivale, todavia, ao vazio que ele deixou nas almas de seus irmãos, que ele dizia “reconhecer”, na incessante busca daquela elite espiritual que justifica a verdadeira amizade.

            Paulo Bomfim continua a dizer “presente” no coração daqueles que soube cativar.

 

*José Renato Nalini é Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, 2019-2020, na qual ingressou em 2003, conduzido por PAULO BOMFIM, o Príncipe dos Poetas Brasileiros.