Legião Negra na Revolução de 32

Frances de Azevedo - Julho/2020

Quando criança, minha saudosa mãe, me contava que chegou a conhecer alguns escravos libertos e seus descendentes. À época, eu ouvia essa história e outras mais. Eu as apreciava muito. Ouvia daqui. Ouvia dali. Porém, não dava a devida importância. Há um tempo certo para tudo, não é mesmo?! O que importa é que ficou lá, no meu subconsciente e no fundinho de minha alma. Tanto que, agora, faço menção para, com base nessas lembranças, expor alguns pensamentos sobre o tema desta crônica.

A libertação dos escravos deu-se em 1888, pela Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel.Frances de Azevedo 1 25820

Mamãe nasceu em Abril de 1915, nas Minas Gerais. À época da Revolução Constitucionalista de 1932, contava dezessete anos de idade.

Qual a razão da menção de tais fatos?!

Ora, quando do seu nascimento, vinte e sete anos da libertação dos escravos tinham transcorrido. E quando da citada Revolução, quarenta e quatro anos.

Portanto, a história que mamãe contava ocorreu realmente!

Então, ligando um fato ao outro, pensei: vou escrever sobre a participação da Legião Negra na célebre luta dos paulistas em prol da restauração do Estado Democrático de Direito. Por que não?!

Como todos sabem, tenho um olhar especial sobre essa grande parcela de nosso povo oriundo do vasto e belo continente africano.

Há um filme que se passa na África, mais exatamente no Quênia, e que começa assim: Eu estive na África. Eu estive na África. Ao assisti-lo, profunda emoção me invadiu. A música é envolvente e combina com o cenário.  O nome original do filme é Out Of África. Versão para o Brasil: Entre Dois Amores. Em Portugal é: África Minha. Prefiro esta última!

A história se passa em 1914, numa fazenda de plantação de café. Uma baronesa (Meryl Streep), casada, se apaixona pelo caçador (Robert Redford), pelo povo e pela África!

Em 2011, tive o privilégio de visitar a África do Sul. Percorri, de carro, quase quatro mil quilômetros, procurando sorver seus costumes, conviver com sua gente, com suas belas e intrigantes paisagens, seus poderosos animais, sua história permeada de beleza e de sofrimento ao mesmo tempo.

Bem sei que estive na melhor parte desse imenso continente no que tange à infraestrutura, como a Cidade do Cabo,  Johanesburgo e outras cidades menores, porém não menos lindas e bem estruturadas como: Plettemberg Bay, Port El Elizabeth(terceiro maior porto do mundo!), Durban, Wetterberg Belfast, Lindemburg...

Sobre essa viagem editei uma obra intitulada: ÁFRICA EM PROSA, VERSOS E REVERSOS, onde, na contracapa, inseri uma quadra do poema Invictus, de Willian Ernest Henley, homenageando Nelson Mandela, cuja trajetória de vida permeou por muito tempo meus pensamentos e, obviamente, ainda está comigo. Ele ficou em Robben Island dezoito dos vinte sete anos em que permaneceu preso. Nesse tempo, o que o mantinha firme em seus propósitos era reler esse poema, cuja primeira quadra assim reza:

Dentro da noite que rodeia,

Negra como um poço de lado a lado,

Agradeço aos deuses que existem

Por minha alma indomável!

Despiciendo mencionar que visitei a ilha de Mandela, como é conhecida. Esta ilha dista doze quilômetros da costa da Cidade do Cabo, na África do Sul. Estive na sua cela. Ouvi sobre como ele humanizou a prisão onde, antes de sua chegada, os prisioneiros dormiam no chão, sobre uma espécie de cobertor dobrado. (O guia fez uma demonstração).

Contudo, não é sobre a trajetória de Mandela que pretendo escrever, até porque, seria um extenso artigo. Não! O que pretendo é contar um pouco sobre a participação dos negros no Movimento Constitucionalista de 32.

Quando se busca pelo assunto no Google, temos logo no inicio o seguinte:

“A Legião Negra nasceu em 14 de Julho de 1932, cinco dias depois do inicio do conflito, de uma dissidência de Joaquim Guaraná e outros lideres, como Vicente Ferreira, da FNB. Eles acreditavam que o conflito era a possibilidade de inserção do negro na sociedade paulista e construção de uma pátria livre das opressões.”

Ora, o que isso quer dizer?

Primeiramente, temos que levar em conta que a Abolição dos Escravos tinha ocorrido há pouco mais de quatro décadas, onde, após a libertação, muitos preferiram ficar com “seus donos” a saírem, sem rumo, sem ter onde ficar, o que comer...

Se ainda hoje perduram os reflexos da assinatura da Lei Áurea, como a inserção dos negros no mercado de trabalho, nas universidades, na sociedade como um todo, o que dizer em 32?!

Essa, portanto, a situação de nossos irmãos oriundos da vil escravidão, cujos ascendentes aqui foram trazidos em condições sub-humanas, acorrentados, maltratados, tidos como mercadorias!

Do trecho assinalado acima, temos que Joaquim Guaraná de Sant’ana, era advogado, ativista e principal idealizador da FNB (Frente Negra Brasileira), criada em 1931, que tinha como objetivo principal promover a “elevação moral, intelectual e profissional, assistência, proteção e defesa social, jurídica e econômica da Gente Negra.” No entanto, Guaraná saiu desta e fundou o PRN só de negros.

Vicente Ferreira, um dos lideres dessa Frente, foi quem propôs substituir a expressão “homem de cor” por negro, na termologia do Movimento Negro Brasileiro.

Muitas são foram as agremiações, associações recreativas, movimentos que surgiram pós-libertação, como a Revolta da Chibata em 1910. Todos procurando a inserção na sociedade, como seja, do ser escravo a cidadão. Assim é que, na década de trinta, o negro já possuía certa organização coletiva.

Nesses movimentos ocorreram dissenções, subdivisões, como soe acontecer na busca de um ideal, mormente o de encontrar seu lugar numa sociedade que antes o subjugara, sequer o considerando como gente!

Á época do governo de Vargas, a comunidade negra era considerada relevante politicamente, tanto que o governador de São Paulo, Pedro de Toledo, chegou a ir pessoalmente até a FNB!

Na verdade, a FNB não participou diretamente da Revolução de 32. O que houve foi a criação de Batalhões formados por seus membros, cada um, com um comandante, como o Tenente Arlindo, do Corpo de Bombeiros e o Tenente Ivo.

A Legião Negra, conhecidos como Pérolas Negras, participou da Revolução em quatro frentes: Frente Leste (na divisa com o Rio de Janeiro); Frente Norte (na divisa com Minas Gerais). Frente Oeste (na divisa com Mato Grosso) e Frente Sul (na divisa com o Paraná).

Havia mais de dez mil negros espalhados pela força paulista, sendo um de seus principais comandantes Palimércio de Rezende (Nasceu no Rio Grande do Sul, em 13/12/1880.). Após galgar postos no exercito brasileiro, em 1928 tornou-se Coronel do Exército Brasileiro, passando à chefia do estado-maior da Segunda Região Militar, sediada em São Paulo! Na Revolução de 32 esteve ao lado do Coronel Euclides Figueiredo participando da elaboração de planos para o levante armado e de todas as frentes de luta!

O efetivo paulista era de cerca de trinta mil homens, onde, portanto, um terço era de negros!

Não se sabe ao certo quantos morreram na Revolução de 32. Oficialmente constam 634 mortos. Outros dizem ser mais de 900; dados não oficiais relatam 2.200 homens...

Como se sabe, as mulheres participaram ativamente na retaguarda da Revolução Constitucionalista de 32. Foram mais de setenta mil! Algumas, vestidas de homem, também estiveram na linha de frente, entre as quais, Maria Sguassábia e MARIA JOSÉ BEZERRA (A Maria Soldado), cozinheira da família do Poeta Paulo Bomfim e que deixando suas panelas, vestiu sua farda e foi se juntar aos seus irmãos negros, lá nas trincheiras! Era de Limeira, onde nasceu em 09.12.1885. Tendo o Jornal A Gazeta, de 05/09/1932, assim se manifestado sobre ela:

Uma mulher de cor, alistada na Legião Negra, vencendo toda sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entrincheiramento na frente do sul., descrevendo a página mais profundamente comovedora , mais cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista ao desafiar a morte nos combates, encarniçados e mortíferos para o inimigo, MARIA DA LEGIÃO NEGRA! Mulher abnegada e nobre da sua raça.

Lá no alto da Lapa, no Colégio Santo Ivo, seu diretor, Dr. José Carlos de Barros Lima, criou um museu alusivo à Revolução de 32, ao qual denominou MUSEU MARIA SOLDADO!

Para não me estender, quero ressaltar que o Jornal A Gazeta também publicou, em 32, matéria ressaltando a coragem, heroísmo e a garra que marcaram a trajetória do negro no Brasil na luta contra a opressão.

Loa, pois, a TODOS os SOLDADOS CONSTITUCIONALISTAS!

Loa, especial, aos valorosos: PÉROLAS NEGRAS!

 

Findo a presente crônica com minha poesia:

 

PEROLAS NEGRAS

E a quem foi castigado,

Do tronco, recém-liberto,

Sem ninguém, a céu aberto,

Resoluto, de bom grado,

 

Lá se foi no grupamento

Dos Heróis de 32,

Deixando para depois,

Talvez, contar seu lamento.

 

Dez mil foi o contingente

Desse Grupo Especial

Que com um nome magistral,

Fez história emergente.

 

Lutaram com heroísmo.

De mãos dadas, irmanados,

Nas trincheiras inspirados,

Notório era o ufanismo!

 

Loa aos PÉROLAS NEGRAS!

 

Frances de Azevedo (Secretária do COCCID)