As cores vivas da paixão

13 Lazaro Jose Piunti 33f60Lázaro Piunti - 

De tempos em tempos o repicar dos sinos ainda acaricia a alma do penitente! Ele se recorda da inesquecível cerimônia que alterou o curso de sua vida. Aquela missa solene! Que ele assistiu e dela não participou!

Abstraíra-se por completo movido por uma força interior que lhe dilacerara o coração! O Primo do meu irmão Arlindo renunciou à vocação religiosa por fidelidade. Fidelidade aos seus princípios, pois, os passos seguintes o levariam à Ordenação Sacerdotal e ele definitivamente não mais queria ser padre. E fidelidade ao amor que, de repente, desabrochara em seu ingênuo coração, desde que a vira! Sim! Aquela menina linda, cujo olhar penetrante o atingira como um raio de sol. E cujo angelical sorriso o cativara por completo.

Ele era acólito do Bispo na celebração eucarística da missa do Advento. Ela, mimosa flor adolescente, era voz solo no Coral da vetusta catedral. Uniram-se no sorriso! Na Liturgia da Palavra o profeta Isaías pareceu ler seus sentimentos: “Apresentai a vossa demanda” - (capitulo 41, versículo 21). A sua demanda era o amor da coralista! E a  2ª Leitura? (Paulo aos Coríntios – cap. 7, v. 9) - “é melhor casar que abrasar-se”! O mandamento do matrimônio o chamava! Ao Evangelho seus olhares se reencontraram. Ó, a meiguice de um sorriso! E ele se prendeu ao doce olhar! A narração da Passagem do Monte Tabor foi transfigurada pela imagem dela! Elias e Moisés cederam espaço à criatura que ainda lhe sorria! Consumou-se o Ofertório; ele ofertou seu óbolo ao Senhor na forma de prece delicada em homenagem à menina! Eis chegado o momento solene da Consagração. E o Primo do meu irmão Arlindo esconde as lágrimas, tomado pela emoção que se apodera do seu espírito. Anseia por aquele corpo. Deus o livrasse do pecado! Aquele corpo formoso e jovem, cheio de vida e encantos! O vinho que desejaria beber – e Deus de novo o perdoasse! Trazia o sabor desconhecido daqueles lábios virgens! O Ritual da Comunhão se aproxima e a nave se ergue para a Oração do Pai Nosso. O Primo do Arlindo tem o pensamento fixo no semblante ameno da corista.

Ele reza. Só para ela! E inconscientemente deixa de fazer as “Orações Pela Paz”. Ao tomar do cálice para distribuição da hóstia consagrada suas mãos tremeram ao vê-la, num vislumbre, se aproximando do altar. Em silencioso gesto penitencial rogou ao Pai que ela tomasse a fila em direção a ele. Ela comungou de suas trêmulas mãos e o suave toque daqueles lábios em seus dedos levou-o ao êxtase. O ápice da celebração se anuncia! O velho Bispo diocesano profere as Orações Finais e concede aos fiéis as Bênçãos do Céu! “Ide em Paz e o Senhor vos acompanhe” – decreta o venerável Príncipe da Igreja!

Tantos anos depois, rememorando aquela celebração, o Primo do meu Irmão Arlindo se comove. E se culpa! Renunciara ao sacerdócio por um amor que, em verdade, jamais se consumou! A dor se iguala à paixão não correspondida. Ele se culpa do pecado cometido naquela missa. Após a prece do Pai Nosso ignorara as Orações pela Paz. Esquecimento fatal. Perdera a Paz! E a igreja um santo servidor!


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