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Raquel Naveira

 teatro1 4c4b8Ilustração com IA

O teatro é uma arte milenar que teve início na Grécia Antiga, em rituais ao deus Dionísio. “Theatron” significa “lugar para ver”, espaço físico onde se encenam histórias trágicas e cômicas e o público se encharca de lágrimas e risos.

O ensaio “O Teatro e a Peste”, de Antonin Artaud (1896-1948), esse influente artista francês, dramaturgo, figura central da vanguarda surrealista, é um dos textos mais viscerais e intensos de sua obra. Artaud compara o teatro à peste, não como algo negativo, mas como força violenta, reveladora, transformadora. Tanto a peste quanto o teatro abalam a sociedade, mostram o que está oculto, desorganizam a ordem aparente, produzem uma catarse radical, purificação de fogo. Os desejos reprimidos são expostos. Há choque, inquietação, confronto com verdades. O teatro, segundo ele, é um ritual que atua nos sentidos, uma experiência limite que penetra o sagrado, uma crise que termina em morte ou cura. Destruídas as ilusões, o ser humano se regenera.

O Juízo Final é o tribunal divino onde o Cristo julgará as nações, os vivos e os mortos, com base nos feitos e na fé. Será um evento teatral, dramático, de prestação de contas: o Grande Trono Branco, a abertura do Livro da Vida, a separação entre vida eterna e castigo eterno. O fim dos tempos, uma ocasião pública de encenação cósmica, multidões convidadas, um palco absoluto sem papéis falsos, com máscaras caídas. Almas nuas. Anjos espalhados em voos rasantes, fora do tempo.

Murilo Mendes (1901-1975), poeta que fundiu o sagrado e o profano em sua poesia de imagens surrealistas, enxerga a arte, assim como Artaud, como crise espiritual, como algo que desperta, o mundo como drama. Artaud tem visão trágica e sem saída do caos. Murilo vê o juízo final como teatro apocalíptico e redentor. Abre-se para o transcendente, para o mistério. No poema “O Juízo Final”, assim Murilo descreve a cena universal:

“As trombetas tocarão.
Os mortos sairão das sepulturas
Os vivos tremerão de medo.

 As máscaras cairão dos rostos,
Os gestos inúteis cessarão. 

Cada um verá a sua própria face
Diante dos olhos de Deus.

O tempo será recolhido
Como um pano depois do espetáculo.”

Reunindo os pensamentos de Antonin Artaud e Murilo Mendes, escrevi o poema “Cortina de Teatro”, pois grande, abissal, é minha sede de teatro e justiça:

Cortina de teatro,
Pesada,
De veludo vermelho,
Se tocarmos suas bordas
Sentiremos, ao mesmo tempo,
Ardor de brasas
E frieza de rio que rola,
Vapores,
Mistérios de neblina.

No palco,
A representação do mundo,
As estrelas imperecíveis,
As salamandras e os anjos,
A verdade e o drama,
O choro e a libertação,
O crepitar da chama.

Na plateia,
O espectador se projeta,
Compartilha sentimentos,
Acompanha movimentos,
Expressões de paixão;
Os atores são seres mutantes,
Instáveis,
Enquadrados pela cortina
Incendiada de ouro e platina.

Vem o alívio,
Madeiras mortas
Foram cortadas
E queimam na alma;
Fecha-se a cortina,
Nossos complexos se retorcem
No fogo da faxina.

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