Carta

Frances de Azevedo 2 56cceAh! O tempo em que se escreviam cartas!

Há um sentido profundo no escrever uma Carta. É a fala de coração para coração!

Há inúmeros significados para a palavra Carta, que vai desde correspondência escrita, passando, por favor, mensagem, mapa, diploma, regulamento, lei, baralho...

Todavia, aqui, o que me traz é o seu sentido literal de comunicação, do falar, conversar com alguém, expor sua real emoção, através da escrita. Carta dos tempos em que não havia comunicação eletrônica, dos tempos em que o único meio para se falar à distância era por meio de cartas!

Sabe-se de Cartas Históricas em que os mais sutis sentimentos foram revelados, como a Carta de Machado de Assis a Joaquim Nabuco, relatando o seu sofrimento sobre a morte da esposa. E as Cartas de Amor, como a de Almeida Garret para Rosa Barreiras e a de Fernando Pessoa para Ofélia Queiroz...

Também há a conhecida Carta de Pero Vaz de Caminha, ao rei de Portugal, relatando sua impressão sobre a nova terra que viria a ser chamada Brasil!

Todavia, dentre todas, há uma Carta que considero a Carta das Cartas. É a que transcrevo, integralmente, logo abaixo, onde a prosa poética salta aos olhos, mesclada de profundo sentimento humano, fé, coragem, sabedoria. Eivada de fatos históricos ao tempo do Mestre Jesus: hábitos, costumes, vestimentas, tipo físico. Uma Carta do Senador Romano Publio Lêntulos ao Imperador de Roma (Tibério Cézar), que passou pelas mãos de seu amigo Sexto Júlio Severo (cônsul romano) que a leu para seu primo Flamínio Severo (senador romano), pai de Quirílius Cornelius (Centurião que teve seu filho curado por Jesus).

Encontramos pérolas poéticas de Publio, ao descrever Jesus que, aqui, transcrevo no seu devido formato:

....é um homem de justa estatura
e é muito belo no aspecto,
e há tanta majestade no rosto,
que aqueles que o veem
são forçados a amá-lo ou temê-lo.
Tem o cabelo da cor da amêndoa,
são distendidos até as orelhas
e das orelhas até a espádua,
são da cor da terra, porém mais reluzentes.

Sem mais, deixo aos leitores, esta CARTA que fala por si:

CARTA DE PUBLIO LÊNTULOS (Senador Romano, Presidente da Judéia) escreveu para o Imperador César. O amigo de Públio, Julius Severus, leu-a para seu primo Flamínio Severus (pai de Quirílius Cornelius, “O Centurião que Viu Jesus”. J.W. Rochester (Maria Gertrudes Coelho Maluf). Pág. 138/139:

“Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo em nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, e que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, em cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra, é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou teme-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê na sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.

A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende e que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua Mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes, uma mulher tão bela, porém, se a Majestade tua, ó César, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível.

De letras, faz-se admirar de toda cidade de Jerusalém; Ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muito se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.

Dizem que tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a Lei de tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirma ter dele recebido grandes benefícios e saúde; à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que tua Majestade ordenar ser cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo...
Públio Lêntulos, presidente da Judéia.
“Lindizione sétima, luna seconda”.

Frances de Azevedo
Cadeira 39 da ACL