Um heróí de nariz vermelho

Fonte: Luiz Eduardo Pesce de Arruda

Diz-se que Aristóteles, em sua “Arte Poética”, destacou a (mímesis ou imitação), referindo-se à capacidade de a arte imitar a vida ou, mais propriamente, as coisas essenciais da vida capazes de conduzir o serantonio carlos malheiros 92f3efoto: TJSP humano a refletir e chegar à virtude.

Ao longo da vida, fontes surgem como refrigério em nossa áspera jornada rumo à placidez do fim, que alcançaremos tranquilos se soubermos viver com sabedoria. São situações, mas principalmente, são pessoas tão especiais que nos sentimos abençoados por nossos caminhos terem se cruzado. São personagens que nos inspiram por sua humanidade.

Assim foi ter tido o privilégio de conhecer e ter sido amigo de Antonio Carlos Malheiros.

Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, o doutor Malheiros conferiu à toga tanta humanidade, tanta humildade, tanta decência, integridade e pundonor que, nestes tempos de desesperança e de busca desesperada por figuras públicas que nos encantem com seus exemplos de vida, podemos olhar para sua breve existência e sentir que é possível – sim, é possível -  vivermos em uma sociedade mais justa e solidária. Ele foi um herói do nosso cotidiano.

Pense em um vetusto magistrado que, ao deixar sua nobre missão judicante, transforma-se em uma criança, capaz de colocar nariz vermelho, assumir anônimo o papel de palhaço, para ler para crianças com câncer, voluntário em um hospital público de periferia. Sem fotos, sem mídia, sem redes sociais.

Pense em um desembargador, uma das maiores autoridades mundiais em infância e juventude, capaz de interromper seu descanso e fornecer seu conforto verbal, sua sábia orientação técnica e seu número de celular pessoal a uma pobre mãe aflita, que precisa recuperar a guarda de seu filhinho, levado à força ao Maranhão pelo pai, que a abandonou, depois de espancá-la brutalmente.

Pense em um desembargador defensor dos direitos humanos – de todas as pessoas, sem bandeira política, sem militância, sem observar gênero, raça, origem, religião, tão somente empenhado de corpo e alma em assegurar a cada pessoa o mínimo de dignidade, fosse policial, fosse agente prisional, agente público, réu preso, adolescente infrator, mulher vítima de violência.

A ele, não importando o que de bom ou de mau a pessoa houvesse feito, só importava que ali, defronte dele, estava uma pessoa em sofrimento, precisando desesperadamente de ajuda. Que ele nunca negou. Sempre observando a lei, edulcorando-a, porém, com a doçura de seu coração, cheio de compaixão e de bondade.

Pense em um desembargador, conselheiro de cardeais e governantes, pró-reitor da PUC, professor apaixonado pela docência, conselheiro de ministros e de chefes de estado no Brasil e no Exterior, quando o tema era vulnerabilidade de crianças e adolescentes, lembrado para ocupar vaga de ministro em tribunais superiores  - do que ele sempre declinou – mas capaz de se apresentar num palco cantando “Rapaziada do Brás”, acompanhado pela orquestra sinfônica da Polícia Militar, pois, segundo ele candidamente relatou:

Essa era a música preferida da minha mãe...

Devo muito a ele por tanto que me ajudou, orientando meus passos na consecução do momento mais emocionante e gratificante de minha vida.

Hoje ele partiu. Ao chegar ao céu, imagino a torcida. Tantas pessoas que ele ajudou na Terra, que vai causar fila e aglomeração. Por sorte, no Céu não há necessidade de distanciamento social, álcool gel nem de uso de máscara. No Paraíso, onde Antonio Carlos Malheiros foi morar hoje, não tem COVID.


 
São Paulo, 17 de março de 2020, 18.35 h