Um clássico da economia política brasileira sobre o trabalho

Domingos Zamagna (*) - 16/7/2017

Há setenta anos dava-se o lançamento de um livro do ensaísta Alceu Amoroso Lima, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1935: A questão do trabalho. Rio de Janeiro: Agir, 1947. pp. 287.

Tempo de transformações

Em 23 de dezembro de 1930, liderados por Armando de Sales Oliveira, um grupo de pioneiros paulistas, na linha de seus antepassados bandeirantes, naturalmente de outro estilo, lançou em São Paulo as bases do Idort – Instituto de Organização Racional do Trabalho. O instituto foi oficializado no ano seguinte e pode ser considerado um dos frutos do choque social e psicológico representado pela Revolução de 30. Essa revolução lançou o Brasil em cheio nos grandes problemas universais do século XX.

Tratados de economia política dizem que o convênio de Taubaté em 1906 foi o primeiro fenômeno de dirigismo econômico do século XX. Se a indústria cafeeira conseguira superar a crise de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, agora pedia a proteção do Estado, mediante a manutenção dos preços altos. E o café sustentava mais da metade da economia nacional, garantidor da estabilidade material coletiva. Brasil próspero era o preço alto do café; o café de preço alto dava proteção a fazendeiros e industriais.

A década de 30 começou com a inesperada vitória das forças revolucionárias do Rio Grande do Sul, do Norte e de Minas Gerais sobre São Paulo. Serviu, contudo, para despertar o gigante paulista de suas preocupações quase exclusivamente cafeeiras. Se houvesse questões sociais, e havia, eram questão de polícia. São Paulo saiu da revolução marginalizado e ultrapassado pelos acontecimentos. A economia sobrepujou a política do liberalismo agrícola e dos bacharéis.

É verdade que a capital paulista fora agitada pela Semana de Arte Moderna de 1922. Mas, apesar dos textos antiburgueses da "Pauliceia Desvairada” de Mário de Andrade, a revolução estética não surtira ainda efeitos sociais.

Foi exatamente em 1931 que Alceu Amoroso Lima foi à capital paulista pronunciar uma série de conferências no Teatro Municipal, depois reunidas no volume "O problema da burguesia” (1932). Encontrou a cidade mergulhada numa atmosfera sombria, angustiante e expectante, mas ao mesmo tempo convencida que chegara o time for change, para fazer uma comparação com os republicanos norte-americanos. E, de fato, Armando Sales entendeu que o Estado não podia ficar mais à margem dos acontecimentos, razão pela qual foi um dos articuladores da Frente Única Paulista que deflagrou a Revolução de 32, que no último dia 9 de julho completou 85 anos.

A fundação do Idort trazia para o Brasil um movimento já em curso na Europa e nos Estados Unidos e consagrado, depois da guerra de 14, pelo setor social da Liga das Nações. Pena que tanto as massas quanto as elites sociais brasileiras deram pouca importância ao movimento, preferindo dedicar o melhor de suas atenções aos movimentos extremistas da Europa, o comunismo de 1917 e o fascismo de 1921. De fato, foi entre 1922 e 1932 que se fundaram no Brasil o Partido Comunista e a Ação Integralista, reflexos tropicais do espírito revolucionário do século XX.

Alceu Amoroso Lima apoiou decididamente o Idort convencido, a exemplo de Charles Péguy, da inanidade das revoluções e dos golpes de violência. Questão de princípio: a absoluta necessidade de introduzir na relatividade cega dos acontecimentos históricos uma ordenação racional à luz dos princípios da lei natural e, acima de tudo, da justiça e solidariedade como bases do bem comum. O Idort foi, na sua visão, um movimento de racionalização do trabalho, uma ponta de lança orientada no melhor dos rumos. Desejava refugar tanto a demagogia improvisada como a rotina conservadora; quis enveredar por um caminho alternativo, sem o fulgor das grandes avenidas, que são sempre as da revolução ou da reação, mas que pudesse ser a percuciente renovação de um statu quo, sem se perder no vazio e nem afogar-se no sangue: o discreto revigoramento das raízes, o único que redunda em benefícios reais, orgânicos e não apenas epidérmicos.

É sabido que Alceu Amoroso Lima, quando jovem, apreciara o integralismo e chegou a pensar em suicídio durante uma visita a Veneza. Mas, a partir de 1928, aos 35 anos de idade, converteu-se ao catolicismo e adotou uma corrente de pensamento progressista, fiel discípulo de pensadores como G.K. Chesterton, A.G. Sertillanges OP, Jacques Maritain, Leonel Franca SJ, Sebastien Tauzin OP. Foram estes que o levaram a conhecer profundamente o pensamento de Tomás de Aquino e a doutrina social cristã, expressa pelo papa Leão XIII na encíclica Rerum Novarum (1895), sobre a condição dos operários. Tornou-se, para o resto da vida, ardente defensor das liberdades e do solidarismo, embora cioso de sua condição laica, sem subserviência a quem quer que seja.

O problema do trabalho

Para o resto da vida, por mais de meio século, Alceu Amoroso Lima foi um paladino da defesa dos valores do trabalho e dos trabalhadores. Estudou longamente a economia e a política, como se pode ver em sua obra Introdução à economia moderna (1930). Refletiu profundamente sobre o significado de duas conflagrações mundiais e seu séquito de calamitosas consequências. E pode constatar os efeitos da ditadura, implantada desde 1937 por Getúlio Vargas com o golpe que deu origem ao Estado Novo.

Quando, em 1947, publica o seu livro A questão do trabalho, é um homem maduro, inclusive com 30 anos de contato estreito com operários, por causa dos estudos na Universidade do Brasil e no Centro Dom Vital, no Rio de Janeiro, e através do empreendedorismo da Ação Católica, de dimensões nacionais.

O momento era propício para que ele pudesse começar a elaborar uma síntese. As mortes violentas de Hitler e de Mussolini apressaram o desmoronamento dos dois regimes típicos de extremismo de direita na Alemanha e na Itália. Havia, porém, uma ingente obra a realizar, como dizia Joseph de Maistre: “o mais difícil não é matar os monstros, é remover os seus cadáveres”. Restava ainda um outro monstro a ser removido, pois a União Soviética vivia em plena era de estalinismo. Já começava a dar mostras de decomposição, mas o processo demorou ainda quase meio século. Pairava sobre todos os pensadores os temores e as incertezas acerca dos anos vindouros. Era preciso combinar realismo com ousadia. Foi o que fez Dr. Alceu, sendo esta obra sobre o trabalho o ponto de partida para análises cada vez mais lúcidas, que serviram para ajudar a formar a consciência política da geração que preparou o Concílio do Vaticano II, do qual tomou parte como membro da representação do governo brasileiro.


(*) Domingos Zamagna é jornalista, professor de Filosofia, membro da Academia Cristã de Letras