Gratidão em Tempos de Crise

Helio Begliomini -

“Gratidão é o sentimento que mais depressa envelhece.”
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), filósofo grego.

Há muitos, que por melhor que estejam, eivados de um pessimismo endógeno, sempre acham algo a criticar ou a menosprezar. Nem todos sabem “tocar algum instrumento”, encantando seus circunstantes ou ao menos mitigar o sofrimento alheio como fizeram os três violinistas na última versão do filme “Titanic” (1997) – dirigida por James Cameron –, que tocaram a melodia “Bethany”, quando, os passageiros e a tripulação, vivendo um total desespero pela morte iminente, tentavam lhes dar uma esperança ou um alento.

Todos temos exemplos de pessoas com perfis completamente antagônicos: os sempre melancólicos e pessimistas e os obstinadamente alegres e otimistas. Meu tio Júlio, a quem muito amei e que foi meu segundo pai, em idade provecta, ao ser perguntado se estava bem, sempre respondia franzindo a testa, entortando levemente o pescoço e elevando os ombros, ainda que plenamente bem de saúde: “Acho que sim” ou “talvez sim” ou ainda “mais ou menos”, apenas com medo de que uma resposta afirmativa e segura lhe pudesse advir por azar, mal agouro e achaques temerosos. Por sua vez, meu pai era uma pessoa extremamente alegre, confiante e otimista. Irradiava uma simpatia contagiante, ainda que estivesse passando por maus ou péssimos momentos no trabalho, na família ou com sua saúde, virtudes dentre inúmeras outras que praticou até seus últimos dias.

Não há dúvidas de que no curso da existência sempre haveremos de ter motivos para nos alegrar, nos motivar e degustar todos os sabores e cores que a vida gentilmente nos oferece, assim como nos entristecer, nos deprimir e nos desesperar pelos entraves, doenças e desgraças em suas imponderabilidades e matizes. A diferença é que os otimistas e os crentes enaltecem os primeiros valores e os pessimistas e descrentes acentuam os subsequentes.

Essa dialética não é recente, mas acompanha a abstração filosófica humana: a disposição para ver as coisas sempre pelo lado bom e esperar uma solução favorável, mesmo nas situações mais difíceis – condição que define o otimismo –, é característica do pensamento de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716, Figura 1), filósofo, matemático e cientista alemão. Ele afirmava: Deus escolheu a constituição do mundo em que vivemos, com suas alegrias e seus sofrimentos, o que permite, entre os diversos mundos imagináveis, a conciliação entre o máximo de bem e o mínimo de mal, o que o transforma no melhor dos mundos possível. Contudo, esse pensamento foi combatido por outros intelectuais, entre os quais se destacam o filósofo francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778, Figura 2), e, mais radicalmente ainda, pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860, Figura 3) e seus seguidores. Eles acreditavam que os aspectos maus ou negativos da existência superam os bons ou positivos. Assim, tendiam para ver e julgar as coisas pelo lado mais desfavorável, esperando sempre pelo pior.

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Não há dúvidas que temos motivos mais do que suficientes para nos desanimar, pois estamos vivendo uma das piores crises que os brasileiros já enfrentaram: crise financeira, crise de empregos, inflação em alta, supervalorização do dólar, denigribilidade e comprometimento futuro da Petrobrás e de outras empresas estatais, mas, acima de tudo, crise de ética, de moral, de idoneidade, enfim, de decoro.

A corrupção já está instalada há muito tempo na máquina pública em todos os níveis e seguimentos deste país. Receber propina explícita ou camuflada na execução de serviços ou na concessão de votos e favorecimentos se tornou rotineira. Os intermináveis recursos que o sistema judiciário brasileiro contempla favorecem peremptoriamente a impunidade. A excessiva morosidade na Justiça já é uma tremenda injustiça, praticada por quem pretende fazer tão somente justiça. A escolha viciosa dos juízes do Supremo Tribunal Federal pelo presidente da república faculta-lhe vantagens subliminares, sobremodo quando há perpetuação de um mesmo partido no poder; o fisiologismo reina solto e às escâncaras, o que desfavorece a meritocracia. A mentira desbragada faz parte do dia a dia da maioria dos políticos – classe moralmente há muito em baixa! –, fazendo com que a população não tenha mais esperança de dias melhores, visto que não adianta somente mudar os atuais protagonistas, pois aparentam ser “farinha do mesmo saco”.

Contudo, neste cenário de mau agouro: roubalheira deslavada, desmonte acelerado da indústria e do setor de serviços; desemprego em massa... ainda temos diversos motivos para exercer a gratidão em tempos de crise: capacidade para escutar, ver, sentir, andar, saborear, cheirar, refletir, opinar, influir, mobilizar, espernear, protestar, vaiar, aplaudir, trabalhar, lutar, somar, interagir... enfim, viver e tentar deixar um mundo melhor do que herdamos. Se não conseguimos enxergar exemplos a seguir nos desonrados atores públicos, devemos focalizar nossos olhares nos incontáveis voluntários – verdadeiros heróis! –, que através de serviços anônimos e gratuitos em diversas instituições de caridade tornam melhor a vida de muitos; ou ainda, admirar a garra, o entusiasmo e a superação dos atletas paraolímpicos ou mesmo dos trabalhadores que atuam com necessidades especiais.

A gratidão é uma dentre tantas virtudes que diferenciam os racionais dos irracionais, apesar de nem sempre ser naqueles cultivada e, nestes, por vezes esboçada; é uma gangorra onde ambos os lados se encontram para cima: quem dá e quem recebe. Agradecer não rima com fingir, mas identifica-se com reconhecer; não é somente um ato da razão, mas também do coração; é penhorar-se delicadamente, pois agradecer é uma reverência ao outro, onde quem agradece despoja-se de sua autossuficiência, e quem recebe um agradecimento robustece sua autoestima; é reconhecer o outro melhor do que a si próprio em alguns ou em muitos aspectos. Agradecer, enfim, é reconhecer-se humildemente endividado. Se o ser que não sabe agradecer, não é humano.