Refletindo Sobre a Confissão[1]

Helio Begliomini - 

Ilustríssimo irmão sacramentino Denilson Mariano
Editor do Jornal O Lutador

confissao aa1ebMuito oportuno foi artigo “Yes, Nós Temos Pecados” de Carlos Scheid, publicado em O Lutador, na edição Ano LXXXV – no 3845, de 1 a 10 de agosto de 2014. Como sói acontecer, o autor consegue em poucas e sábias palavras formatar um diagnóstico bem preciso da desvalorização hodierna da confissão.

Assim como ele vivi também nos anos 60 e a procura por este sacramento era muitíssimo maior, com formações de grandes filas diante dos confessionários, hoje, preteridas peças de museu em boa parte das igrejas. Todos sabemos que não é o confessionário essencial à graça de Deus nesse sacramento, mas, sem dúvida, ele se tornava um vivo e constante lembrete, tanto para o padre quanto para o penitente, que naquele espaço operava através do mister sacerdotal, a reconciliação do pecador com seu Criador, do desprezível com o Todo-Poderoso.

Dentre as seis causas apontadas pelo articulista, duas delas (a quarta e a quinta) referem-se à Igreja, através da atuação sacerdotal: 1. Falta de Contrição; 2. Ausência da Disposição de Mudar; 3. Embotamento da Consciência; 4. A Fuga de Ministros; 5. A Vulgarização da Confissão Comunitária; e 6. O Subjetivismo Cristão.

Ainda nos anos 60 fazia parte frequente das catequeses e homilias não somente a necessidade de se confessar, como também o padre era educado durante a sua formação a fomentar e a ministrar esse misericordioso sacramento.

Tive a felicidade de conhecer e de conviver com sacerdotes santos naqueles e nestes tempos, e, dentre eles homenageio um, de saudosa memória, chamado Bruno Carra, muito cioso das coisas de Deus e que foi, ao seu modo, um São João Batista Maria Vianney (1786-1859), um verdadeiro Cura D’Ars da segunda metade do século passado.

Acontece que naqueles idos tempos dos anos 50, 60 e 70, o sacerdote não somente falava publica e reiteradamente da importância da confissão, como se colocava no confessionário em horários ordinários e extraordinários para a prática desse inefável sacramento. Era comum ouvir do sacerdote que ele estava disponível a qualquer hora do dia ou da noite para o atendimento de penitentes, de enfermos e até de acidentados. Aliás, mais do que um dever era um nobre orgulho que ele sentia por ter sido agraciado com o sacramento da ordem. Hoje, infelizmente, boa parte dos párocos vive de expediente formal e, algumas vezes, parece que intimamente torce para não ser “incomodada” com petições de suas “ovelhas”.

Hoje em dia os paroquianos só são lembrados da confissão (muito provavelmente por determinação do bispo diocesano) duas vezes por ano, que, em grandes cidades, é realizada em regime de mutirão: Por ocasião da preparação da Páscoa e durante o Advento que antecede o Natal.

Tem-se mudado o perfil de boa parte do clero paroquial: outrora tido como cura de almas, hoje se tem tornado um caricato “executivo paroquial”. Ele se atrela a reuniões e reuniões, encontros e encontros, mas não divulga e não se dispõe explicitamente ao serviço de orientação espiritual, à confissão e à visita aos enfermos como em outros tempos.

Será que hoje se peca menos? Será que hoje se precisa menos do perdão e da graça de Deus? Provavelmente não!!!

Dentre as muitas viagens que faço e desejoso de não perder o preceito da missa no final de semana, é triste constatar que, em plena era da comunicação, diversas igrejas não possuem placas externas ou sequer avisos em seus murais, dos respectivos horários das missas durante a semana, quanto menos das confissões...

Não há dúvida de que a limitação do número de sacerdotes e as diversas atividades paroquiais são premissas a considerar, sendo sempre lembradas como desculpa. Entretanto, sempre foi assim e provavelmente sempre o será segundo as próprias palavras do Senhor: “A messe é grande, mas poucos são os operários” (Mt 9, 37).

Com relação ao pretexto do número de sacerdotes talvez haja, nos dias de hoje, um viés a considerar. Há cerca de meio século também havia poucos sacerdotes e o número de católicos no Brasil era algo em torno de 90% da população. Nestes cinquenta anos cresceu a população e também o número de padres, contudo, infelizmente, a proporção de católicos caiu acentuadamente, girando em torno de 65%, o que de per se, já explicita que do rebanho que era preponderantemente católico, 25% não aspira mais pela assistência e serviços sacerdotais. Portanto, tal carência de padres não é, relativamente, mais premente como antes.

Não faltam por parte da Santa Sé, considerando-se apenas os três últimos papados, documentos, exortações e exemplos dos papas de se tentar resgatar a importância da confissão na vida do católico e na rotina paroquial.

Sendo mais ousado que Carlos Scheid, acredito que se esteja há muito tempo esperando um mea-culpa por parte do clero neste particular, pois se a confissão está desvalorizada, esquecida e pouco praticada é porque boa parte dos padres não somente ignora este tema em seus sermões, como e principalmente porque não se disponibiliza no dia a dia para ministrar este lenitivo sacramento. A propósito, se o clero assim fizesse, poderia atenuar as outras quatro causas (primeira, segunda, terceira e sexta) apontadas acima por Carlos Scheid.

Aliás, reuniões, encontros, compromissos e pastorais são importantes na vida paroquial, mas não são sacramentos – sinais ordinários da graça e da salvação. A atuação de um sacerdote poderia ser definida simplesmente como a forma e a frequência com que ele se disponibiliza na ministração dos sacramentos que lhe compete.

A confissão é um dos grandes legados da tradição católica. Seu valor é inestimável do ponto de vista espiritual, psicológico e humano. Urge que boa parte do clero faça o que lhe diz respeito e siga o exemplo de santos confessores. Quiçá o resgate do sacramento da confissão contribua não somente para fortalecer o rebanho de fiéis, como também de aumentá-lo.

[1] O Lutador – Ano LXXXV – no 3849, 11 a 20 de setembro de 2014, página 4 (publicação parcial).