Os tortuosos caminhos da política

Rosa Maria Custódio - (08/1986)

O Presidente da República, José Sarney, acaba de anunciar à nação brasileira, as medidas econômicas complementares ao Plano Cruzado, que servirão para financiar o Plano de Metas do Governo. Este plano visa promover o crescimento econômico e social do país.
As principais metas econômicas visam promover o aumento da renda per capta dos brasileiros, da geração de energia elétrica, da produção de petróleo e gás natural, indispensáveis ao progresso e bem-estar da sociedade. As principais metas sociais visam promover e assegurar a alimentação básica para todas as crianças brasileiras; escola pública para todas as crianças de 7 a 14 anos; ampliar o Plano Nacional de Habitação, destinado às populações mais carentes, etc.
Enfim, o Plano de Metas visa erradicar a miséria de nosso país e promover a dignidade do povo brasileiro. Esperamos que o discurso se realize na prática. Sarney afirma: “Estamos construindo o futuro do Brasil”. É uma bela afirmação. E, num gesto de singular generosidade, ele convida todos os brasileiros a serem como ele: Presidentes do Brasil. O convite é simbólico, mas a grandiosidade do gesto faz deste convite uma honrosa homenagem a este povo sofrido e marginalizado, que por tantos séculos vive excluído da capacidade de administrar o próprio destino.
Nem parece que estamos vivendo no mesmo país de poucos anos atrás. Nem parece que suportamos mais de 20 anos de autoritarismo, arrogância e corrupção, coroados com o descaso de um presidente chamado Figueiredo que, além de andar a cavalo, só sabia se expressar na base do “eu prendo e arrebento”. Não é sem motivo que herdamos um país entregue à violência e aos espertinhos que só querem levar vantagem em tudo.
Nos momentos de pompa e circunstância, esse senhor, ex-presidente (autoritariamente eleito presidente) se deixava fotografar ao lado de sua oficial primeira dama, plastificada e sorridente; em outros, ele se mostrava, hora montado em seu cavalo de fino trato, hora em trajes de banho, ora em trajes de “jogging”. Assim, nestes retratos, podíamos deduzir como ele governava o país. Enquanto isso, a sociedade sofria com a inflação galopante e a miséria correndo solta nos lares de milhões de brasileiros, atrofiando e ceifando vidas inocentes.
Parece milagre, o que estamos ouvindo agora. Parece que estamos vivendo em outro país. Graças à coragem de um homem, feito presidente pela força do destino, a quem dirigimos nosso voto de confiança. Mesmo trilhando os tortuosos caminhos da política, esperamos que José Sarney cumpra o seu papel e que tenha consciência do processo histórico e da responsabilidade que lhe cabe neste momento de vital importância para a nação brasileira.
Simbolicamente somos todos Presidentes, mas, antes de tudo, somos cidadãos desta nação cujo futuro há de ser o orgulho do seu povo. E, cada um de nós, livre e responsável, tem seu papel a cumprir na sociedade. Em primeiro lugar, deve participar do processo eleitoral e escolher com consciência e convicção o seu representante. Como eleitores, devemos lembrar que, se os caminhos da política são tortuosos, o candidato a ser eleito deve nortear seus princípios e propósitos na retidão e integridade moral.