O Natal das crianças brasileiras

Rosa Maria Custódio (Dezembro/2008)

O Espírito Natalino surge, no final do ano, cada vez mais cedo, mais colorido e cheio de luzes. Começa como apelo visual nas vitrines das lojas e se expande nas publicidades da mídia impressa e televisiva. Depois de ganhar as ruas e invadir as casas, finalmente se instala, como que por encanto, nos corações e mentes das pessoas. Então, o cenário da vida social e familiar se abre para relações mais afetivas e fraternas. Compramos presentes, enviamos cartões com mensagens carinhosas, preparamos belas ceias, nos reunimos...

Não importa se a figura do papai Noel, vestido de vermelho e branco, é fruto de uma bem sucedida campanha publicitária criada pela Coca-Cola no final do século XIX. Não importa se as roupas de lã, do bom velhinho, são inapropriadas para o clima tropical brasileiro. Não importa se o colorido das festividades de Natal é patrocinado pelo sistema mercantilista ou pela ideologia consumista.

O que importa é a chegada de um clima de mais harmonia, de mais fraternidade e solidariedade. O que importa é o espírito natalino e o que ele representa, de generosidade e bem-aventurança. O que importa é o sorriso e a alegria que ele desperta nas nossas crianças, com as luzes e as cores dos enfeites natalinos, os novos brinquedos que vão chegar, as histórias da estrela de Belém e do nascimento do menino Jesus. Tudo isso faz parte do imaginário coletivo e vai muito além dos dogmas, religiosos ou não.

Felizmente, no final de cada ano, mais pessoas se envolvem em campanhas beneficentes, trabalham como voluntárias para arrecadar fundos e comprar presentes, roupas e outros produtos que possam ajudar a tornar mais alegre o natal das famílias mais pobres e desfavorecidas pela sorte.

Infelizmente é muito grande, desumanamente grande, o número de crianças brasileiras que não vivenciam o Espírito Natalino. Nasceram em lugares deprimentes, muito piores do que uma estrebaria. Nasceram e estão crescendo em cortiços, favelas, barracos e beiras de estradas, e, outras tantas, nas ruas. Sem higiene, sem cuidados, sem carinho, sem roupas decentes e limpas, sem boa alimentação, sem educação, sem estrela guia.

Essas crianças crescem e se tornam pessoas adultas sem princípios e sem valores, pois nada receberam de bom. Como adultos, continuam marginalizados, cometem infrações e violações, provocam a ira dos cidadãos que conhecem as regras e normas sociais, pois foram eles que as criaram. Por serem adultos e marginalizados (sem boa formação, educação, emprego e um lugar decente na sociedade) abarrotam as prisões que, por sua vez, custam fortunas ao Estado Brasileiro e solidificam sistemas viciados e corruptos, onde a violência e as transgressões são ainda maiores.

Existe ainda, na nossa sociedade, outro crime mais assombroso cometido contra as crianças: é o crime hediondo da exploração sexual, do abuso e violação da inocência. Os autores desses crimes praticados às ocultas, ou com promíscua cobertura, contra esses seres indefesos, deveriam ser punidos com a pena de morte. Não merecem viver, aqueles que não respeitam a vida.

Para nosso espanto e indignação, na maioria das vezes, esses criminosos (pedófilos e estupradores) e são adultos e familiares das vítimas. Independentemente da classe social, do nível socioeconômico, do nível de instrução, eles têm características em comum: a covardia e a dissimulação. Até o crime se tornar público, muitos deles eram considerados “bons” pais de família, “bons” tios, “bons” vizinhos, “bons” profissionais. Em comum, independente da origem, eles também têm a deformação do caráter e o desvio comportamental. Dificilmente, depois de adultos “formados”, podem ser recuperados.

Não podemos esquecer que a vida é o que temos de mais valioso e sagrado. E a vida tem leis que devem ser respeitadas: não matar, não ferir, não macular. Mas, o que mais vemos, é a morte praticada sem escrúpulos, anunciada, premeditada, encomendada. O que mais vemos é a vida ferida, maculada, desrespeitada. E a impunidade correndo solta. Os criminosos, quando presos, continuam agindo, fazendo escola entre seus pares. Outros, em liberdade, agem disfarçados, são os corruptores, os exploradores, egoístas e insensíveis.

Grande parte da mídia, impressa e falada, faz a sua parte: as denúncias estão sendo feitas, as informações estão sendo veiculadas. Mas nem todas as verdades podem ser ditas, para preservar a vida de alguns e o bem-estar daqueles que, no poder, se beneficiam do sofrimento alheio. Até quando?

É dezembro, mês de festas. O Espírito Natalino está no ar, nos nossos lares, nos nossos corações. Vamos aproveitar essa energia, boa e positiva, para ajudar a mudar a realidade das crianças brasileiras, principalmente aquelas que não foram contempladas com a estrela da sorte no momento do nascimento. Vamos juntar nossos esforços para alegrá-las neste Natal. E, mais que isso, vamos nos comprometer com sua segurança, seu crescimento sadio, sua educação e felicidade. Vamos oferecer a elas o mundo de paz, harmonia e justiça, que sonhamos.

É mês de festas. Paz na Terra aos homens e mulheres de boa vontade! Feliz Natal para todos aqueles que trabalham por um mundo melhor!