Cale a boca, jornalista!

Rosa Maria Custódio (Outubro/2008)

Fernando Jorge, quando escreveu o livro Cale a boca, jornalista!, não imaginava que, décadas depois, essa expressão poderia ser usada para significar um Basta! vindo de uma direção oposta àquela que ele menciona em sua obra – quando descreve as relações entre os governantes e os profissionais da imprensa, marcadas pela intransigência, e até violência, por parte dos detentores do poder público.

Hoje, a situação é muito diferente. A ditadura militar, o período mais negro da nossa história recente, ficou para trás, mas o antídoto usado para combatê-la continua agindo sobre os corações e mentes das novas gerações, de tal forma que qualquer palavra que signifique ordem, respeito, disciplina, obrigação, responsabilidade, foi riscada do dicionário e do mapa comportamental de muitos brasileiros.

A Carta Magna de 1988, que agora completa 20 anos, trouxe inovações fundamentais na relação entre governantes e governados, definindo garantias, direitos e deveres, para a construção de uma sociedade democrática. Muda Brasil! Disse Ulisses Guimarães, no final da leitura do texto libertador, produzido com boas intenções (dentro dos limites possíveis, na época) por um grupo de brasileiros ansiosos por mudanças e mais liberdade.

As mudanças vieram em abundância e, agora, a liberdade é confundida com liberalidade. Depois dos muitos anos de autoritarismo, injustiça e violência, a sociedade, ainda traumatizada, não aceita imposição de limites, nem palavras de ordem. E, assim, vai criando seus filhos, que crescem achando que tudo deve ser permitido, em nome da liberdade e do prazer a qualquer preço. Preço que eles não pagam, enquanto agoniza o sentimento de honra e dignidade, num mundo cada vez mais pobre em valores e ética.

Nas campanhas eleitoreiras de nossos dias, que seguem as mesmas diretrizes das publicitárias, os candidatos aparentam o que não são e dizem o que não acreditam para atrair e manipular um número maior de eleitores. E são bem sucedidos entre os mais pobres e ignorantes, que são a maioria da população. Antes do atual liberalismo, quando os atores da cena política se uniam para se perpetuarem no poder e dividir entre si as fatias do bolo, o ditado comum era: Façam o que digo e não o que faço. Hoje, nem isso. Não existe qualquer preocupação com a coerência nas atitudes ou nos discursos. Não existe sequer a intenção de esconder o desvio, a falta de decoro.

E assim vamos vivendo e presenciando as mudanças. O excesso de liberdade só fez aumentar a violência e a impunidade, agora entre civis, parentes e até namorados. Tudo devidamente televisionado, ao vivo e a cores. Alguns seguimentos da mídia estimulam as pessoas a satisfazerem seus desejos sem limites, sem respeito aos limites dos outros. Estimulam nas pessoas o desejo de ficarem ricas, famosas, poderosas - de preferência sem estudar, sem trabalhar, sem fazer força. Até quando, a sociedade vai se sustentar com esta estrutura desprovida da sólida argamassa que são os valores fundamentais de respeito à vida e à dignidade humana?

A sociedade brasileira é coadjuvante nessa história que anuncia infeliz desfecho. Seus filhos estão sendo levados a agir sem pensar no amanhã. Os profissionais da mídia, principalmente a televisiva, que possui maior penetração nos lares brasileiros, e, por isso mesmo, maior poder de persuasão, deveriam estar mais atentos à responsabilidade que lhes cabe como agentes sociais. A maioria ainda realiza um trabalho sério e competente. Mas, infelizmente, cresce o número daqueles que se rendem ao sensacionalismo barato e atuam como personagens medíocres de um reality show.

Na busca de altos índices no Ibope, os sensacionalistas veiculam informações de forma precipitada; atrapalham o trabalho das autoridades responsáveis pelas ações de segurança pública e, muitas vezes, não escondem a intenção de desmoralizá-las diante do público. Exigem respostas e especulam sobre o que ainda não foi esclarecido; interferem no desenrolar dos fatos; acirram os ânimos da população; expõem os dramas sociais e humanos de forma aviltante; induzem milhares de pessoas à comoção e ao desvario, mantendo-as reféns da telinha, com a promessa de satisfazer a curiosidade mórbida que alimentam nos telespectadores.

Para completar a lista de desserviços, agora estão interagindo, ao vivo, com os agentes da criminalidade, entrevistando sequestradores em plena ação de sequestro! Incapazes de fazer autocrítica, não reconhecem as conseqüências negativas de suas atuações. O custo social é incalculável! Os telespectadores mais instruídos, e comprometidos com a construção de um mundo melhor, sentem um nó na garganta e ficam com vontade de dizer: cale a boca, jornalista!