Ética, um Princípio que não Pode ter Fim [1]

“A ética caminha na contramão do descalabro, da anarquia, do vale-tudo, do escambo de valores, da barganha de princípios e da coisificação do ser humano.”

Aprende-se em Rotary International que seus membros devem primar por serem líderes em seus misteres e os desempenhar com a mais escorreita conduta ética.

Não é difícil definir o venha a se líder, palavra que tem como sinônimo: aquele que comanda; que dirige; que coordena; que predomina ou se sobressai; e, particularmente, aquele que exerce influência sobre o pensamento e comportamento de outras pessoas.

Entretanto, não é fácil explicitar o que venha a ser ético hodiernamente, uma vez que este vocábulo, a exemplo de outros como honra, reverência, decoro, probidade, pudor, civismo e até mesmo respeito e honestidade passaram, não somente a não constar mais no ensino e nos dicionários da vida prática de muitos jovens e adultos, mas, o que é pior, se tornaram até motivo de chacotas àqueles que heroicamente tentam vivê-los e transmiti-los.

Como entender o que venha a ser ético vivendo-se na filosofia de Gerson, onde o importante é “levar vantagem”!? Quando o tráfego de influência entre pessoas e empresas é desmedidamente ambicionado!? Quando se patrocina carreiras de homens públicos em troca de regalias!? Quando se institucionaliza e se paga por um departamento lobista em empresas e partidos políticos em troca da primazia do conhecimento, do favorecimento, do poder ou do lucro!? Quando informações privilegiadas valem mais do que um quilo de ouro!? Quando se prioriza cortesãos e os camarilhas das cortes reinantes!?; Quando a falta de lisura não reside no recebimento de propina camuflada, mas sim numa percentagem maior do que aquela que foi “acordada entre ‘cavalheiros’” numa negociata?!

Parece que as palavras do grande jurisconsulto e tribuno Rui Barbosa (1849-1923), em seu discurso no Senado da República, em 1914, mais se adéquam, paradoxalmente, ao descalabro e à situação calamitosa dos dias de hoje do que à contemporaneidade dele: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Peremptoriamente, a ética não se associa com a desfaçatez; não venera a sem-vergonhice; não se coaduna com o menoscabo ou mesmo o desrespeito a pessoas e instituições idôneas; não se conluia com a mentira e a falsidade; não se mancomuna com a injustiça; não se alinha com competições desleais no mercado de trabalho; não denigre outrem; não se presta a calúnias ou propagações de infâmias.

Ademais, o exercício da ética não pode exultar a filosofia robin woodiana de roubar dos ricos para dar aos pobres, o que aparenta ser uma ação nobre mas não ética e nem honesta. Ao contrário, trabalha para proporcionar melhores condições aos menos favorecidos na alimentação, educação, higiene, vestuário, saúde e trabalho, a fim de que eles possam ter acesso a uma vida digna e com menor desnivelamento social.

Tampouco a prática da ética pode se compactuar com o maquiavelismo[2], onde os fins justificam os meios para obtê-los. Se assim fosse dever-se-ia em nome da liberdade de cada um legitimar o aborto em detrimento da vida do nascituro, indiscutivelmente sempre inocente; legalizar a prostituição, a fim de se ampliar o mercado de trabalho; abonar o tráfico de drogas, largando à própria sorte seus contumazes dependentes; descriminalizar o roubo e o crime, visto que não somente abundam em nossa sociedade, como parece não terem fim; estimular o tráfico de pessoas, tencionando reduzir a pobreza ou o índice populacional; favorecer o comércio de órgãos, objetivando vencer as intermináveis filas de transplantes; dissimular a escravidão, almejando a obtenção de uma produção mais barata; regulamentar o caixa dois, pois assim como existe malversação do dinheiro público arrecadado de múltiplos tributos, julga-se no direito de não dar ainda mais ao governo, o que lhe é legal e, infelizmente, de direito; legitimar o fisiologismo entre políticos, a ladroagem entre empresas e membros dos governos, os impostos escorchantes, a fim de se ter melhorias na educação, transporte, saúde e segurança pública; ocultar a prática do sequestro de crianças de pais pobres a pretexto de darem a eles lares melhores no primeiro mundo... E certamente a lista destes maquiavélicos sofismas se tornaria interminável!

Não se pode negar que o lado pernóstico do jeitinho brasileiro fautoriza lograr pessoas e instituições, tornando-se até motivo de orgulho quando deveria ser de desonra a muitos incautos e pobres de espírito e de formação.

A ética, por sua vez, poderia ser simplesmente definida como a prática dos bons costumes ou o exercício da boa conduta. Inexoravelmente se vincula com a moral. Tem como predicados fulcrais o respeito ao próximo, a honestidade e a retidão de caráter; e necessariamente como limite, o reconhecimento da liberdade alheia.

Ninguém pode coerentemente e em sã consciência, “dar de si antes de pensar em si[3]”, sem que seja ético em sua ação ou empreendimento.

A prática da ética é um princípio interminável. Dentre os fatores que a atrapalham encontram-se a inveja, a ganância, o poder pelo poder, a vaidade desmesurada, a arrogância, a sovinice, a ira, a impetuosidade, a rudeza, a intolerância e a cabotinagem...

Por sua vez, dentre as virtudes que colaboram no seu aprimoramento têm-se o desprendimento, a magnanimidade, a temperança, a caridade, a humildade, a paciência, a pacificidade, a mansidão, a coerência, a prudência, a tolerância, a solidariedade e o bom senso...

Apesar dos desmandos, dos contravalores e da ausência de limites entre o certo e o errado que grassam na Babilônia e no contubérnio atual, a busca da ética é um bem em si mesmo que não pode ser preterido, pois ela forja, beneficamente, não apenas a têmpera do indivíduo, mas contribui na estruturação familiar e na construção de um povo, de uma nação.

 

[1] Anais do XXV Congresso da Sobrames – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, e do IX Congresso da Umeal – União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos, realizados em Recife (PE) de 8 a 11 de outubro de 2014, páginas 128-131.

Este artigo, adaptado e reduzido, recebeu o 2o lugar em crônicas na VIII Jornada Nacional da Sobrames, realizada de 15 a 18 de outubro de 2015, em Tubarão (SC). Anais – Editora Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, páginas 28 e 29; www.sobramespaulista.blogspot.com.br – textos (novembro), 2015; Boletim Doctor Line do Imuvi – Instituto de Medicina Humanae Vitae – edição no 66 (outubro-dezembro); 3-4, 2105, (publicação na íntegra); O Bandeirante no 277 (dezembro): 5, 2015 (publicação parcial); Boletim de Informações Urológicas (março-abril): 20-21, 2016 (publicação na íntegra); e Antologia Paulista da Sobrames – SP. Rumo Editorial e Expressão e Arte Gráfica, São Paulo, 2017, páginas 71-72 (publicação parcial).

[2] Maquiavelismo: doutrina de Niccolò Macchiavelli (1469-1527), estadista e escritor florentino, geralmente considerado como a negação de toda a lei moral.

[3] Um dos mais tradicionais e caros aforismos rotários.