Entrelinhas - Artigo premiado

Fonte: Helio Begliomini
Prêmio Flerts Nebó 2019 - Primeira Menção Honrosa 

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu.” (Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira.)

Aprendemos que linhas paralelas jamais se cruzam quer dispostas a milhares ou milhões de quilômetros uma da outra, quer a frações de milímetros. Assim são as imaginárias linhas da macroestrutura do globoHelio Begliomini 505e9 terrestre – do Equador; dos Trópicos de Capricórnio e de Câncer; e dos círculos polares Ártico e Antártico. Todavia caminhem lado a lado solitárias, quando próximas, ao mesmo tempo se tornam solidárias em suas

origens, em seus misteres e em seus fins.

Embora intangíveis, as linhas paralelas delimitam um espaço entre elas significativo, que não deve se confundido com o vazio do vácuo. Nele podem conter verdades explícitas, bem como albergar segredos inconfessos.

Não é difícil imaginar ao contemplar uma página de um caderno em branco, onde contém apenas um conjunto de linhas paralelas na direção horizontal, a quantidade de informações, lamúrias, suspiros, manifestações de ódio e de amor... que podem, pela mão do artista – escritor ou poeta –, preencher e adornar aquelas entrelinhas. Neste caso as linhas paralelas servem não somente de esteio a que se consigne um enredo, mas, tais quais as margens de um rio, acenam para manifestar uma origem... uma razão... um porquê, assim como conduzem o leitor a um destino... a um desfecho... a uma mensagem.

Certa feita, perguntado sobre como era criar uma obra de arte, o genial escultor, pintor, poeta e arquiteto italiano Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475- 1564), mais conhecido simplesmente como Michelangelo, humildemente respondeu:

“Dentro da pedra já existe uma obra de arte. Eu apenas tiro o excesso de mármore!”.

Se o escultor tira o excesso ou o supérfluo de um bloco de mármore ou de um tosco tronco de madeira para extrair e bem evidenciar a sua arte; o escritor escolhe, acrescenta, justapõe, contrapõe, coteja e concatena palavras, frases e parágrafos para melhor expressar suas ideias e sentimentos, compondo sua obra, dando vida e cores às imaginações contidas nas entrelinhas.

No conjunto de um texto, entrelinhas com poucas palavras ou frases, ou ainda que vazias, não deixam de indicar uma trégua... uma suposição... uma interpelação... uma reflexão... uma mudança de rota... um retorno ao passado ou uma projeção ao futuro.

Sim, as entrelinhas não são inermes ou não estão mortas. Por vezes hibernam à espera de alguém que as preencha, que as alimente. As entrelinhas falam! Elas se comunicam! Elas têm expressão viva e multicolorida não somente na razão direta da arte do escritor, mas também na destreza da introspecção do leitor. Quanto mais sensível ele for... quanto mais inserido no contexto ele estiver – verdadeira transposição ou transmutação de si na realidade que se lhe apresenta –, mais depreenderá e mais usufruirá a mensagem do autor através de suas entrelinhas.

Por entre as entrelinhas preenchidas, concatenada e parcimoniosamente com o cinzel da palavra escrita, estão contidos verdadeiros oceanos de informações, de conceitos, de encantos e de desalentos. Por elas não somente se alimenta a razão, mas também se aguçam os sentimentos e se descortina a vida!

Nas entrelinhas encontram-se também magistral e tacitamente os subentendidos.

Fábio José de Melo Silva, mais conhecido por Fábio de Melo (1971-), sacerdote, escritor e professor universitário, tem um pensamento que bem se aplica nesse particular: “Nas entrelinhas é que dizemos. Bom terapeuta é o que escuta o que omitimos”.

São nas entrelinhas que se encontram o substrato físico do exercício da arte de escrever. Se os trilhos de um trem determinam a origem e o destino de uma composição, são nas entrelinhas de um texto que se encontram – independentemente de seu tamanho –, o desenrolar de um propósito com início, meio e fim, ou até mesmo condensada toda uma saga de um acontecimento notório.

Nas entrelinhas transitam livremente o consciente e o inconsciente; o real e o fantasioso; o verdadeiro e o falso; o pessimismo e o auspicioso; o lógico e o inconsequente; o amor e a ira; o erudito e o chulo; o mensurável e o colossal; o explícito e o suposto; o cronológico e o anacrônico; o real e o fictício; o extraordinário e o banal; o atual e o extemporâneo; a razão e a abstração; o presente, o passado e o futuro!

Aduzo, uma vez mais, um pensamento lapidar e oportuno da renomada Clarice Lispector, já evidenciada em epígrafe: “Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O melhor está nas entrelinhas”.

Assim, nas entrelinhas os escritores não somente são evidenciados, mas também ressuscitados e até eternizados; assumem a ribalta; seguram a batuta; protagonizam o espetáculo; adquirem voz e vez; ecoam suas ideias; são calmamente escutados; avaliados e julgados: glorificados ou repudiados, aplaudidos ou vaiados, mas, sem dúvida alguma, exercem a cidadania e a liberdade de expressão no areópago do tempo!