Censura versus violência

Rosa Maria Custódio (Setembro/86) 

Além dos debates políticos via TV, um dos assuntos mais polêmicos aqui na imprensa carioca, nestas duas últimas semanas, é a discussão em torno da violência e da censura.

Tudo parece ter começado com um artigo do jornalista Moacir Werneck de Castro, intitulado “Sangue na tela”, que chama a atenção da sociedade para um incidente ocorrido no recife, onde jovens expectadores excitados pelo filme COBRA, promoveram um quebra-quebra que resultou em dez pessoas feridas e na destruição de inúmeras cadeiras. A partir daí, o jornalista levanta a questão da violência, tanto no cinema quanto na televisão, e suas conseqüências negativas para a formação dos mais jovens.

O assunto é mais sério ainda porque por trás de tudo isso está o poderio econômico das indústrias cinematográficas norte-americanas que, além de passarem para os outros países, principalmente os menos desenvolvidos, a sua ideologia embrutecedora, vai faturando bilhões às nossas custas.

O pivô da história é o ator Silvester Stallone, herói dos filmes ROCHY, RAMBO e COBRA, que , acima de qualquer representação da sétima arte (o cinema), está a serviço de um capitalismo selvagem, desempenhando papéis de seres humanos truculentos e perversos. Como diz Werneck de Castro, esses personagens surgem na tela, como heróis do nosso tempo, monstros com musculatura de Hércules e cérebro de minhoca, cuja única atividade consiste em surrar e massacrar.

Além do incidente em Pernambuco, houve outro caso na Bahia, onde um policial, após assistir o filme COBRA, saiu do cinema dando tiros para o alto e provocando tumulto.

Ao tomar conhecimento desses fatos, o ministro da Justiça, Paulo Brossard, imediatamente entrou em ação com todas as armas que o poder lhe oferece, ou seja, as tesouras bem afiadas da Divisão de Censura. Resultado: o filme, que antes podia ser visto por maiores de 14 anos, sofreu cinco cortes e agora só pode ser visto por maiores de 18 anos. Até aí tudo bem, porque o filme não presta mesmo.

Mas, este assunto tem dado o que falar, principalmente nos meios intelectuais e artísticos. Cada um coloca a questão de acordo com o seu ponto de vista e acrescenta novos elementos, tornando a discussão complexa e enriquecedora. Todos são contra a violência e a estupidez do filme, mas a grande maioria também é contra a censura.

Na verdade, os poucos que defendem a censura do filme estão muito mais preocupados em acabar com a violência do que com qualquer outra coisa. A violência nas telas ou nas ruas é a grande doença da sociedade em que vivemos. Nunca se sabe quem vai ser a próxima vítima. Enquanto isso, nós vamos vivendo na maior insegurança, sabendo que os bandidos estão agindo livre e impunemente.

O que choca em tudo isso é que a censura é incompatível com a democracia e traz de volta o pesadelo do regime militar. Este período ainda é muito recente na nossa história e a Liberdade de Expressão ainda carrega as marcas da repressão. Jornais, livros, peças teatrais e espetáculos musicais, representantes da mais legítima cultura nacional, eram censurados arbitraria e autoritariamente. A preocupação geral é com o retorno desse famigerado procedimento que, além de fazer calar as vozes mais conscientes e críticas do país, também foi muito eficiente em abafar tudo o que havia de mais espontâneo na criação artística nacional.

O fato é que precisamos acabar com a violência que gera violência e lutar por um mundo melhor, mais humano e mais justo.