Sorrir é preciso

Rosa Maria Custódio (Agosto/86)

Na maioria das publicidades das empresas aéreas, interessadas em cativar seus futuros passageiros está sempre estampada a imagem sorridente dos comissários e comissárias de voo. E não é por acaso. Na realidade, quando se trata de gente, não existe nada mais cativante que um sorriso. E, quando o sorriso nos vem de uma pessoa jovem e bonita, a sedução visual é bem maior.

Até mesmo por questão de exigência das empresas, os comissários e comissárias de voo são introduzidos na profissão no início da idade adulta, ma

 ainda bastante jovens. Para esses jovens, a escolha da profissão está ligada a vários fatores e, entre eles, a necessidade de conquistar a independência econômico-financeira, que, por sua vez, é garantia de uma liberdade maior.

A idéia da profissão, em si mesma, ainda está ligada a uma série de fantasias relacionadas às viagens, ao conhecimento de novos lugares, novas culturas, novos relacionamentos etc. Além de um salário um pouco acima da média. São essas fantasias que as próprias empresas alimentam para atrair aqueles que serão seus funcionários e que darão o toque final a todo um complexo esquema de prestação de serviços.

O objetivo final da empresa é proporcionar uma viagem segura e confortável a todos os seus clientes e, de preferência, oferecer o melhor serviço de bordo para ser a preferida por todos.

No início da vida profissional, sem entender direito toda a engrenagem da qual faz parte, a jovem Comissária se desdobra em atenções e sorrisos. Ela é jovem e espontânea na sua inexperiência, sincera nas suas intenções e ações. Com o passar do tempo, percebe que, entre as viagens que faz e as viagens que idealizou existe uma grande distância. Os novos lugares, as novas pessoas, as novas culturas, ela vai conhecendo “en passant”. Os sonhos e expectativas que alimentou, são vividos de forma muito superficial. É então que se dá conta da realidade e do cotidiano de sua vida e de sua profissão.

Este é um momento importante e ao mesmo tempo doloroso na vida do tripulante. Geralmente é um momento de crise, tanto existencial como profissional. Aeroporto – avião – hotel: esse movimento cíclico e triangular será uma constante em sua vida na aviação. Dentro do avião, ele realiza as suas atividades e obrigações: recebe os passageiros, procura ser gentil e atencioso, cuida do conforto e da segurança de todos. É uma tarefa cansativa por causa das condições ambientais e até emocionais e nem sempre gratificantes porque é quase impossível agradar a todos ao mesmo tempo. Fora do avião, o tripulante passa a ser cidadão do mundo sem direito a voto.

Cada país tem sua cultura, seus hábitos e costumes. Isto é, tem convenções sociais e códigos linguísticos, que só compreende bem quem é do lugar. Além disso, tem as diferenças de fuso horário e de clima, que dificultam o repouso e a alimentação. Sem falar no tempo do pernoite que vai ficando cada vez mais curto, na medida em que a aviação se moderniza e as frequências dos voos aumentam.

Aos poucos, o comissário ou comissária, que entrou para a aviação com seu largo sorriso, vai percebendo que é um estranho, tanto no estrangeiro quanto em seu próprio país. No seu país eles têm família e amigos, mas quase nunca estão junto com as pessoas que amam nos momentos mais significativos. Afinal, eles trabalham na aviação e todo mundo sabe que vivem viajando.

Todas as profissões têm seu lado positivo e negativo. Essa é uma lei natural da vida, porque estamos vivendo e sempre aprendendo. O importante é buscar o equilíbrio para viver em harmonia consigo mesmo e com os outros. Afinal, viver é preciso. E sorrir também é preciso!