Poemas do Livro "Sob os cedros do senhor" de Raquel Naveira

Fonte: Raquel Naveira

Solidarizando-me com as vítimas da tragédia ocorrida no Líbano, a explosão do dia 04 de agosto deste ano, que abalou a zona portuária e o centro de Beirute,  transcrevo poemas de nosso romanceiro “Sob os Cedros do Senhor: poemas inspirados na imigração árabe e armênia no Mato Grosso do Sul”, livro publicado pela editora Scortecci, em 1992.

Sobre ele escreveu Jorge Amado: “Belos poemas de  Sob os cedros do Senhor. Gostei de ler ‘Na casa libanesa/Havia um tapete persa’ ou ‘São Jorge/Grande mártir/Guerreiro lutador’ – o mundo oriental que sinto tão próximo.”

Os poemas permanecem atuais e neste momento representam uma homenagem a toda a colônia libanesa do Brasil.

OLIVEIRA

Oliveira,

Árvore abençoada,

Canto tua doçura,Raquel Naveira cronicas b2714

Tua superioridade.

 

Que seria de meu lar sem teu azeite

Que ilumina,

Cura,

Alimenta,

Perfuma?

Sagrado pilar.

 

Se colocar um de teus ramos em meus cabelos

E espalhar teu óleo em minha testa,

Tornar-me-ei rainha ungida,

Cheia de paz.

 

CEDROS

Cedros,

Árvores imponentes,

Imensas,

Agrupadas,

Broches verdes

No peito do Líbano.

 

De seus troncos

Saíram navios,

Altares,

Templos.

 

Seus ramos e suas folhas

Testemunharam impérios,

Religiões,

Raças.

 

A alma do Líbano se eleva

Quando ora

Sob os cedros do Senhor.

 

MARUJOS FENÍCIOS

Gente libanesa,

Brava, decidida,

Herdeiros dos marujos fenícios.

 

De Tiro,

Situada à entrada do mar,

Entreposto internacional de muitas ilhas,

Guarda a lembrança do esplendor,

Da beleza

Da abundância de bens:

Prata, ferro, estanho,

Artefatos de bronze,

Cavalos e corcéis,

Dentes de marfim e ébano;

Trocava mercadorias,

Artigos finos:

Granada, púrpura,

Tecidos bordados,

Linho,

Corais e rubis;

De Israel recebia trigo, mel, azeite,

De Damasco, vinho e lã,

De Dã, cássia e cana aromática,

Da Assíria, tapetes coloridos.

 

Tiro era rica, opulenta,

Em navios lançavam-se os remadores,

Marujos fenícios

Que o vento desmantelou pelos ares.

PRIMAVERA DO LÍBANO

A primavera floresce no Líbano,

É toda vermelha e púrpura,

Reclinada na montanha,

Erguida nos mastros dos cedros.

 

Gente da Europa,

Ásia,

África,

Vem te dar prestígio,

Sorver o clima de paraíso.

 

A um passo da tecnologia e do petróleo

Tudo é luz,

Exuberância,

Cálices violáceos.

 

Todos se saciam com teu queijo

De leite fresco,

Tuas cerejas,

Teus vinhos

E se vestem de linho,

Sedas coloridas.

 

Tua primavera é de fartura,

A libra corre pelas ruas

Como ouro líquido

E brilhas como joia.

Nos jardins,

Jovens meditam

Máximas de Shakespeare,

Enquanto orquestras de pássaros e instrumentos

Cantam tua primavera.

 

COMPLEXO LÍBANO

Líbano,

Pequeno país asiático,

Dividido

Entre religiões,

Facções,

Etnias,

Multifacetado

Como um cristal.

 

Líbano,

Páis de muitas cabeças,

Cristãos:

Moronitas,

Gregos,

Romanos,

Ortodoxos,

Assírios,

Nestorianos;

Mulçumanos:

Sunistas,

Xiitas,

Drusos.

 

Como ser uno

E diverso?

Ó complexo Líbano!

 

GUERRA NO LÍBANO

A guerra não é libanesa.

De onde vieram a tempestade arrasadora,

Os espíritos selvagens,

Os perigos na fronteira?

 

Ó Líbano refinado,

Alma sonhadora,

Mente racional,

Terra de mel, de leite,

De tradições milenares,

Esta guerra não é tua,

Não és o autor,

És palco e vitima

De sangrenta tragédia.

ESCOMBROS

Os escombros da guerra

São cinzentos,

Despojos cor de chumbo,

De fuligem,

De carbono.

 

Os escombros da guerra

São móveis,

Objetos,

Vidros,

Ferros,

Corpos retorcidos e negros

Como cascas de árvores

Depois do incêndio.

 

De colorido,

Azul e rosa,

Sobre um altar de fumaça,

Só a imagem de Nossa Senhora

Das Dores do Líbano.