ALMA DE IPÊ

Fonte: Raquel Naveira

raquel naveiraTenho alma de ipê. Nasci no cerrado, no centro-oeste. Minha cidade, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é conhecida por “Cidade dos Ipês”.

Escrevi uma coletânea de poemas em que encarno e dou voz aos ipês. O trabalho surgiu também da observação dos quadros de ipês pintados pelo artista plástico Isaac Oliveira. São ipês que fazem o coração bater. Parecem plantados no Jardim do Éden. Escorrem gotas de orvalho e harmonia.

Dividi os poemas em “Ipês Brancos”, Ipês Róseos”, “Ipês Roxos” e “Ipês Amarelos”. Transcrevo dois poemas de cada parte.

1ª PARTE: IPÊS BRANCOS

NOIVA

Casei-me com um ipê branco,
Suas raízes fincaram-se em meu sexo,
Suas ramagens
Se espalharam pelos meus seios,
Formaram guirlandas
No meu pescoço
E um véu sobre meus ombros.

Penetrei passiva
Num mar de leite
E lavandas.

A noite era de lua,
De bruma
E de glacê.

GLACIAL
Aquele ipê veio da era glaciária:
Pingos de gelo
E cristais
Formaram esculturas delicadas,
Bordadas de orvalho,
Brancas e frias luminárias.

2ª PARTE: IPÊS RÓSEOS

PROMESSA DE AMOR

Quisera ser um pássaro
Nesta primavera
E voar entre as flores
De um rosa lilás.

Seriam minhas primeiras emoções
De sensualidade e voo
E os galhos gemeriam:
_ Amarás!

JUVENTUDE
Como era verde
Minha juventude,
Quanta esperança,
Quanta sede de alegria.

Rosas mimosas
Em buquês de malva
Sinalizaram
Aquilo que eu desejara
No mais alto grau
De minha poesia.

Nesse misto de clorofila
E suave vermelho feminino
Estava meu destino
Como uma gravura,
Uma pintura
De ternura e beleza
Moldada em humana argila.

3ª PARTE- IPÊS ROXOS

ABAJUR

O ipê perfumado de lavanda,
Carregado de flores purpúreas,
Manchadas de branco,
Parece um abajur
Na noite lilás.

Quanto silêncio
Ao redor
Dessa luz quebrada,
Abaixada
Em filtros
E véus!

Quisera colocar esse ipê
Sobre minha escrivaninha,
Na casa imóvel,
Iluminando meus livros
Como um antigo
Lampião a gás.

SIMULACRO

O tronco negro
Em forma de um “s”
Parece ter sido forjado
Por uma tempestade,
Um estrondo,
Prenúncio de uma revelação,
Cólera e castigo
Sobre o arroxeado fundo.

A escrita
De um alfabeto arcaico
Desenhou esse “s”
Simulando algo concreto
Como uma serpente
Ou um gesto.

Poderia ser o “s”
De “Sabedoria”
Oculto no intelecto vegetal.

4ª PARTE: IPÊS AMARELOS

PALITOS GIGANTES

No campo aberto,
Palitos gigantes,
Imponentes,
Fazem do ipê
Uma escultura esguia.

Há aspirações sem limite
Nessa busca de espaço,
Nesse dinamismo jovem,
Nessas colunas levantadas
A partir da base
Em forma de bacia.

Pelos galhos derramam-se
Ovos quebrados
Como se fossem jarros
Contendo gemas úmidas
E claras de espermas.

As cascas,
Macias e quentes,
São ninhos
Em que se multiplicam
Seres amarelos.

FADA
Encontrei uma dama na campina,
Estou certo de que era uma fada:
Cabelos longos,
Ágil como uma gazela,
Perfume de canela,
Montou em minha sela
E cantava.

 

Apeei o cavalo,
Sob um ipê amarelo,
Teci para ela
Uma grinalda,
Um bracelete,
Um cinto,
Reunindo as pétalas em volta de um talo.

Ela, toda adornada,
Pôs a mão em minha boca:
_ Deixe-me que te falo:
Estou apaixonada.