Coronel Ieros Aradzenka morre por conta da Covid-19

Fonte: Luiz Eduardo Pesce de Arruda

O Acadêmico Luiz Eduardo Pesce de Arruda, que ocupa a Cadeira nº 40 na Academia Cristã de Letras, faz hoje, 23 de março de 2021, emocionante homenagem ao amigo e irmão iEeros Aradzenka, que é mais uma vítima do vírus Covid-19. A homenagem é um dos contos que compõe o livro "Barraca de Memórias", que esta sendo preparado para publicação ainda esse ano.

Diz Coronel Arruda:amigo morre de covid a6d20

"Amigo e irmão Ieros Aradzenka,

Este conto, escrito a partir de seu depoimento familiar, foi dedicado a você. Que um esplêndido campo de trigo, sempre iluminado e soprado pelo vento, o acolha no Céu.

Abraços e até a vista."

A ESPIGA DE TRIGO

“Amor que nutre e acalenta”

Talvez a gente nunca tenha comido kosekiena, krienai ou agurkas, ou experimentado as delícias denominadas kopustas, silke ou kupnikas.

Essas são algumas especialidades lituanas, nação que reúne no Brasil a segunda maior colônia do mundo, perdendo apenas para Chicago.

Os lituanos constituem um povo valente e sofrido.

Ciosos de seu passado guerreiro, alternam-se em louvar sua conversão ao cristianismo, a mais tardia da Europa, enquanto, melancólicos, falam com saudade das velhas guerras, quando se recordam que se tornaram dóceis e pacíficos, desde que, abraçando a Cruz de Cristo, abandonaram seu passado Viking.

Os lituanos são orgulhosos: orgulhosos de seu idioma, mais antigo queo grego ou o latim, de sua comida, de serem, desde há décadas, um dos três melhores times de basquete do mundo, de sua capital, Vilnius, uma das melhores cidades do mundo para se viver, nos mesmos padrões de Barcelona ou Copenhagen.

Embora o primeiro imigrante lituano de que se tem notícia, o coronel Andrius Visteliauskas, tenha chegado ao Brasil e ajudado o Exército Imperialna guerra do Paraguai, foi só em 1890 que um pioneiro grupo de 25 imigrantes lituanos com suas famílias se estabeleceu no país.

A moderna Lituânia tornou-se nação Independente em 1918, foi anexada pela União Soviética em 1940, só alcançando sua independência com o esfacelamento da URSS em 1991.

Sob ocupação comunista, o país foi martirizado, suas elites e sua cultura aniquilada com crueldade e dizem que as mães, para impedir que a língua, o Hino Nacional e os costumes fossem varridos pelo invasor, ninavam suas crianças, falando baixinho e cantando para elas enquanto amamentavam.

Contra essa arma, nem a KGB conseguiu se impor.

Entre 1926 e 1927, muito empobrecidas, milhares de famílias lituanas deixaram sua pátria e imigraram para o Brasil.

Dos mais de 40.000 que chegaram, a maioria foi trabalhar nas fazendas de café do estado de São Paulo, enquanto alguns se dirigiram para outros estados, principalmente Riode Janeiro e Paraná.

Na capital, concentraram-se na vila Zelina.

Dentre os imigrantes que vieram, estava a família Mindaugas. O menino mais velho, esperto e inteligente, logo se adaptou ao novo país. Em pouco tempo, o menino empinava pipa e jogava futebol com os garotos afroe ítalo descendentes do bairro e falava português quase melhor que o lituano.

Ainda menino conheceu Ana, uma menina também filha de lituanos,muito linda, que frequentava, como ele, a paróquia de São José.

Quando o rapaz, mais tarde, ingressou na Guarda Civil, não demorou a pedir cerimoniosamente permissão aos pais de Ana para que pudessem namorar.

Eles se casaram, constituíram família e um dos filhos, Ieros, para orgulho do pai, viria a ser coronel e exercer alguns dos cargos mais importantes da Polícia Militar de São Paulo.

O coronel, embora cultivasse a língua e alguns costumes de seus ancestrais, nunca visitou a Lituânia. Sua filha, Isabela, muito apegada à avó, incorporou-se a um grupo de danças típicas e, sempre que podia, sentava-se no chão, junto às pernas da vovó, pedindo-lhe que lhe contasse sobre seu país natal.

E a vovó lhe falava das florestas, da água mineral e do mel, do sabor inigualável das peras, maçãs e ameixas.

Mas a cena que a avó recordava da infância, quando ainda no colo da mãe deixou sua nação para nunca mais voltar, eram os extensos campos de trigo, acariciados pelo vento, como um oceano agitado em ondas amarelas.

Um dia, Isabela pôde fazer o que seus pais nunca haviam feito. Com seu grupo, teve a oportunidade de participar de um festival mundial de danças típicas em Vilnius, quando ali foram reunidos descendentes de lituanos de todas as partes do mundo.

A vovó estava muito velhinha e doente, frágil de verdade, e a Isabela queria levar um presente que demonstrasse a ela todo seu afeto.

Logo, teve a certeza do que deveria levar.

Visitando um campo de trigo, colheu uma espiga e guardou-a consigo durante toda a viagem.

Fato curioso: todos seus amigos que colheram, como ela, no mesmo dia e local, espigas de trigo, reclamaram que o trigo apodreceu e as jogavam fora.

Menos a espiga da Isabela, que, surpreendentemente, chegou ao Brasil viçosa como no momento em que foi extraída do trigal.Isabela foi visitar a avó no hospital:

- Senelè (vovó), eu lhe trouxe um presente de sua terra.

Os olhinhos da vovó se iluminaram:

- kviečiai... trigo... minha querida!

A vovó abraçou o ramo com carinho, aninhando-o junto ao peito:

- Você esteve lá, e lembrou-se da vovó!

Sorrindo, a chama foi-se apagando. E ela partiu serena, sonhando que ainda corria, menina, pelos campos de trigo.

A espiga, quando a acompanhou até sua última morada, ainda estava viçosa e cheia de vida.Ninguém sabe ao certo, mas deve ter sido o amor que nutriu essa plantinha.

São Paulo, 31 de agosto de 2018, 20:53h