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Luiz Eduardo Pesce de Arruda

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Ao Lucca

Eu te saúdo, Senhor dos mansos rios,
Das corredeiras nas montanhas cobertas de neve
e das fossas abissais,
Dos mares revoltos, dos lagos e açudes
Do lodo e das locas,
das fontes vulcânicas hidrotermais
dos recifes e das cavernas,
Das águas cristalinas dos oásis do Ounianga,
Dos igarapés e das florestas inundadas
Dos mares gelados e das tépidas correntes
Das águas mansas e das ondas tormentosas

Eu te saúdo, Matsya, Senhor da salvação
manifestação divina de Vishnu
Que alertou Manu sobre o grande Dilúvio
E o orientou a construir sua Arca
Com sementes, animais e sábios,
E, em meio às águas revoltas,
rebocou a Arca com teu chifre
Até um lugar seguro.

Eu te saúdo, Oannnes,
Que trouxe à civilização mesopotâmica
A sabedoria, a matemática, as leis e a civilização
Durante o dia, ensinavas os homens
E à noite, homem-peixe, voltavas ao mar, onde habitavas
Lar dos sete sábios míticos
Que pouparam a Assíria da ignorância e do Caos
Eu te saúdo, sagrado habitante do Nilo e do Ganges

E te saúdo Enki/Ea,
Deus das águas profundas e da sabedoria
Que alertou secretamente a Utnapishtim
- o único homem justo sobre a terra -
que os deuses destruiriam a humanidade
E ordenaste a ele que construísse a Arca
Que preservou a humanidade do Dilúvio

Eu te saúdo, na forma de Afrodite e de seu filho Eros
Fugitivos, no Olimpo, da ira de Tifão
Eu, saúdo aos teus irmãos, que os salvaram
E a quem os deuses, agradecidos
Dedicaram, no firmamento,
uma constelação em honra a ti

Eu te saúdo, repositório do conhecimento
Secreto e simbólico
Senhor de toda Sabedoria oculta na natureza
Que os homens absorveram, ao consumir tua carne
na terra nevoenta dos druidas

Eu te saúdo, ancestral dos homens da floresta
Senhor das águas que fluem próximo às aldeias
Elemento sagrado de onde a vida humana é oriunda
e à qual permanecerá eternamente conectada

Eu te saúdo, por tua persistência e coragem,
Deixando o oceano, subindo o rio
Oferecendo, se preciso, a própria vida para, ao desovar
Assegurar a aurora de uma nova geração

Eu te saúdo, senhor da piracema,
Modelo para os meninos
Estoico, resiliente, sobrevivente,
Obstinado em face da dor
Herói do Koinobori

Eu te saúdo, lutador dos rios e dos mares
Terror dos que não o compreendem
E que por isso o temem, Senhor do mito e da realidade
Eu o admiro por tua força
Quando, em ânsia, se transforma em turbilhão, redemoinho
Banqueteando-se em pasto sangrento e ensandecido
Em frenesi que faz ferver a água turva
Do rio barrento

Eu te saúdo em paz, amigo e confidente silencioso
De Santiago e de todos os velhos pescadores

Eu te saúdo por tuas variadas formas
Por tuas variadas cores
Por tua graça hidrodinâmica
Por tuas escamas, que cintilam como joias
Brilhando ao saltar em plena luz
Como seta luminosa que dardeja sobre as ondas
E por tua vontade de viver, astúcia e força combativa,
Te fizeste Senhor incontestável de seu elemento

Eu o saúdo, criado no quinto dia do Gênesis
Precedendo aos homens

Eu o saúdo, salvador de Jonas,
Ichthys das catacumbas
Ouvinte atento de Antônio de Pádua
Amigo e irmão de Francisco
Inspirador de Antônio Vieira

Eu o saúdo, por te apresentares às redes
dos pescadores no Itaguaçu
Santificando as águas do Paraíba do Sul
Em cujo leito profundo repousara, até há instantes
A imagem maternal da Senhora Aparecida

Eu o saúdo por servir de alimento às multidões famintas
às margens do mar da Galileia
Instrumento de conversão do rude pescador
Que, desde então, tornou-se pescador de homens

Eu o saúdo, irmão peixe,
Paradigma da universalidade da Vida
E que, em tua modéstia e humildade,
Te fizeste oferta silente
E alimentaste, com teu corpo,
Ao teu próprio Criador

Uruguaiana, 08/05/2026, 12:04 h

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