Raquel Naveira
Joana D´arc
Joana D’Arc (1412-1431) é uma das pessoas mais estudadas da Idade Média. Camponesa, heroína e salvadora da França, ícone de liberdade e independência, destacou-se durante a Guerra dos Cem Anos.
A adolescente Joana fiava lã, ajudava seu pai no plantio e nas colheitas, cuidava dos animais. Nutria o sentimento profundo de que os ingleses precisavam ser banidos do território francês. Corria uma lenda, uma profecia atribuída ao mago Merlin: uma virgem carregando um estandarte acabaria com o sofrimento da França. Joana entendeu que ela era essa donzela prometida. Começou a ter visões místicas: São Miguel Arcanjo apareceu no jardim de sua casa, ladeado por Margarida e Catarina, santas torturadas por suas crenças. Teria sido imaginação descontrolada? Alucinações? Transtorno mental? Fé exagerada? O fato é que, aos dezessete anos, Joana, escoltada por soldados, vestindo roupas masculinas, encontrou o Delfim Carlos VII e lhe disse que havia vindo para encerrar o cerco de Orleães e levá-lo a Reims para sua coroação: “_ Senhor, vim conduzir seus exércitos à vitória e fazê-lo legítimo rei.” E lá se foi Joana à frente do exército, com armadura e espada, montada em seu cavalo. A sua forte personalidade levantou o ânimo dos soldados. Ela inspirava, insuflava, abençoava as tropas, aconselhava, instruía, atacava, posicionava a artilharia, assaltava, tomava fortalezas, regia ofensivas, alimentava o fervor patriótico do povo. Após sete dias de ação, a batalha terminou com um resultado favorável aos franceses. Orleães foi libertada, elevando a reputação de Joana. Mas Joana não parou. Nunca parou. Resolveu cercar Paris e ali fracassou. Sua popularidade despencou dentre a nobreza que desejava uma saída diplomática. Foi capturada, traída e entregue nas mãos do governo da Inglaterra. O julgamento pelo bispo Pierre Cauchon foi político, travestido de religioso. Os ingleses viam a capacidade de uma jovem derrotar seus exércitos como prova de que estava possuída pelo Diabo. Joana não recuou diante do tribunal. Respondeu a todas as perguntas com controle emocional e prudência. Tentou fugir da cela tenebrosa. Pulou da janela de uma torre. Caiu no fosso do castelo. Foi presa em correntes até a sentença final: morte na fogueira. Seu corpo ardeu amarrado num poste revestido de gesso. As cinzas foram atiradas no rio Sena. Diante de seu martírio, a tristeza, a raiva e a indignação tomaram conta dos franceses. Somente vinte e dois anos depois, os ingleses foram expulsos da França.
Lídia Baís (1900-1985), a pintora, desenhista, precursora das artes plásticas no Mato Grosso do Sul, pioneira à frente de seu tempo, identificou-se com Joana D’Arc. Pintou-a num afresco emblemático localizado na casa de sua família, à beira dos trilhos da Avenida Afonso Pena, hoje museu Morada dos Baís. Um autorretrato, seu próprio rosto no rosto da guerreira Joana. Símbolo de sua luta contra o conformismo e as opressões sociais. Lídia estudou pintura no Rio de Janeiro, com mestres como Osvaldo Teixeira e Henrique Bernardelli. Viajou pela Europa, Berlim e Paris, recebendo influências do expressionismo e do surrealismo. Perdulária e generosa, gastava sem medidas de sua fortuna pessoal até ser interditada pela família. Supostamente virgem, aos trinta e oito anos, aceitou casar-se com o advogado paulista Arthur Vasconcelos. Dizem que, na lua de mel, ele a deixou num quarto de hotel e foi jogar num cassino. Ela voltou à sua cidade. O casamento foi desfeito, anulado pelo Vaticano. Ela continuou pintando suas obras enigmáticas, ferindo os padrões estéticos da época e se dedicando a pesquisas filosóficas. Ingressou na Ordem Terceira de São Francisco adotando o nome de Irmã Trindade e passou a se vestir com o hábito marrom dos franciscanos. Faleceu de um tombo que a enfraqueceu. De um longo poema que escrevi, intitulado “Casarão dos Baís”, pinço este trecho:
Antes de ser abatido pelo trem,
Corro em direção a casarão,
Abro a porta,
Um raio de sol entra pelo vão.
Vejo Lídia no centro da sala,
Lídia moça,
De cabelos cacheados
Sob a boina,
Saia plissada,
Pele rosada,
Indiferente,
(Sou eu o fantasma)
Continua pintando
A imagem de uma mulher guerreira,
Joana D’Arc em seu cavalo.
Joana e Lídia: duas guerreiras que sofreram ataques de inimigos reais e espirituais. Abriram brechas nos muros de seus castelos; saltaram de altas torres psíquicas; fizeram escolhas boas e fatídicas; receberam flechas incendiárias no peito; passaram por zombarias, tribunais, conspirações, falsidades, difamações, bombardeios. Brilharam embaixo de suas armaduras, no meio das batalhas.
