O discurso que se encantou

Márcia Etelli Coelho - (homenageando Guimarães Rosa)

 

“– Ministro, está aqui CORDISBURGO.”

Assim João Guimarães Rosa terminou o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Um discurso que até hoje emociona pelas belas palavras e por alguns detalhes que vão além da compreensão humana.marcia ettelli coelho 2a fb10e

Na primeira vez que ouvi aquela derradeira frase durante um sarau literário eu me questionei: Quem era esse Ministro a quem Guimarães Rosa se referiu?

Só depois de algum tempo, ao me aprofundar na biografia do famoso escritor, eu descobri: Tratava-se de João Neves de Fontoura, o antecessor da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras que Guimarães Rosa viria ocupar. João Neves era Ministro das Relações Exteriores em 1946 quando Guimarães Rosa foi nomeado chefe de seu gabinete. O período em que trabalharam juntos alicerçou a amizade entre eles a ponto João Neves chamar Guimarães Rosa pelo apelido de Cordisburgo.

Ah! Então Cordisburgo, no final do discurso, não era exatamente a cidade e sim o próprio escritor? Isso me motivou a ler o texto na íntegra e a perceber que Guimarães Rosa se entregou plenamente naquela noite de 16 de novembro de 1967, data que, por coincidência, seria o aniversário de oitenta anos de nascimento de João Neves. Entregou-se à Academia e ao destino, vencendo um terrível medo, aparentemente sem razão de ser. Mas, medo de quê?

Convém ressaltar que Guimarães Rosa foi eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 6 de agosto de 1963 mas durante quatro anos adiou a posse. Guimarães Rosa temia desmaiar na tribuna, perder a voz, chorar e sobretudo pensava que seu coração não iria suportar tanta emoção. Talvez por considerar o ingresso na Academia como o mais alto posto que se pudesse alcançar (“O fim de uma obra, e portanto fim da vida”)... Quem sabe pelo fato de que quatro de seus tios faleceram aos 58 anos de idade. Por via das dúvidas, somente depois de completados 59 anos, Guimarães Rosa aceitou tomar posse, pensando principalmente em dar glória à sua pequena cidade natal.

Aliás o amor a Cordisburgo se manifestou não somente na palavra final do discurso, mas também logo na primeira frase: “Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito...”

Superstição ou pressentimento, o mundo literário iria se defrontar com a inesperada notícia da morte de Guimarães Rosa apenas tres dias após tomar posse.

O discurso, então, tomou ares místicos inclusive por haver diversas menções sobre a vida e a morte. Guimarães Rosa homenageou Álvares de Azevedo (patrono da cadeira número 2), “o que morreu moço, poento de poesia”. E referiu-se a Henrique Coelho Neto (primeiro ocupante daquela cadeira), como “amoroso pastor da turbamulta das palavras”: “Tenho-os comigo. Pois não descendemos dos mortos?”

Entretanto, depois de mais de 1 hora de discurso, nada foi tão impactante quanto as palavras finais:

“... A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: JOÃO NEVES DA FONTOURA.

Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: "Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!" - desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Soprem-se as oitenta velinhas.

Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.

– Ministro, está aqui CORDISBURGO.”

Guimarães Rosa, em forte estado de comoção, tentou controlar suas lágrimas.

“A Academia é demais para mim...” afirmou diversas vezes.

Três dias após a posse, no domingo do dia 19 de novembro de 1967, em meio aos seus livros e enquanto sua esposa assistia à missa, Guimarães Rosa faleceu em seu apartamento em Copacabana, vitimado por um infarto fulminante.

As coincidências dos últimos dias de vida do autor de “Grande Sertão: Veredas” conferiram um significado especial para a frase: “A gente não morre, fica encantado”.

O médico escritor que tanto amou Cordisburgo, porém, superou sua própria afirmação.

Completando sua travessia, Guimarães Rosa não apenas ficou encantado...

Ele tornou-se imortal.