Raquel Naveira

Já fui a um lugar distante chamado “Nunca te Vi”. É um bairro da cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Uma zona de chácaras simples; primeiro assentamento de reforma agrária, da época de Getúlio Vargas. Casas de madeira afastadas umas das outras, em grandes terrenos com pomares, laranjais perfumados e pés de mandioca. A origem do nome remonta a meados do século XIX. Conta a lenda que um mascate turco atolou sua mula numa poça fumegante de lama, o “olho do boi”. Ao ser questionado se não tinha visto o perigo, respondeu: “Nunca te vi”. Ali se encontram o monumento “Nhandipá”, palavra guarani que significa “nós chegamos ao fim”, que homenageia os mortos da Retirada da Laguna; uma igrejinha rústica de pedras brutas; lagoas azuis com cachoeiras.
Mais tarde, encantei-me pelo filme “Nunca te vi, sempre te amei” (1987). Esse clássico do cinema narra a amizade de vinte anos entre uma escritora americana, mal humorada e impulsiva, Helene e o gerente de livraria londrino, Frank Doel, um homem cortês, culto e discreto. A princípio, Helene solicita obras inglesas raras. Depois, durante o período de escassez do pós segunda guerra mundial, Helene envia mantimentos para Frank e sua equipe. As cartas, livros e encomendas atravessam os oceanos. Há carinho, solidariedade, respeito mútuo. Prova que a conexão humana está acima do contato físico. Após o falecimento de Frank, Helene visita a livraria. É um drama inspirador e aconchegante. Nunca te vi... sempre te amei.
As coisas que vemos são materiais, temporais. As invisíveis são eternas. Marcante o relato de Tomé, um dos apóstolos, que não estava presente na primeira aparição de Jesus e exigiu tocar nas feridas do Mestre para crer. Oito dias depois, Jesus apareceu e permitiu o toque, levando Tomé a confessar: “Senhor meu, e Deus meu”. Tomé tornou-se símbolo da fé que precisa ver para crer. Das dúvidas e fraquezas que acompanham o ser humana. Mesmo as dúvidas podem nos levar a um relacionamento mais profundo com o espiritual. Não vi, não vi, mas sempre amei...
Esse valor da potência do invisível, daquilo que é chamado para se tornar visível, já estava lá, na Teoria das Ideias de Platão (428/427 a. C. -348/347 a. C.). É o núcleo central de sua filosofia: o mundo sensível, físico, mutável, percebido pelos sentidos e o mundo inteligível, imutável, acessível apenas pela razão. Essência e Realidade. Pensamentos que geram formas. O mundo que habitamos é pálida cópia, reflexo de sombras. Há diferença profunda entre o ser e o parecer. Apalpamos meras carnes, superfícies e aparências.
O céu é real. Não é local físico. É atuação divina que levará a um reino onde haverá paz, justiça e alegria. A sonhada plenitude. Um novo governo superior ao humano que se instalará no cosmos. Podemos senti-lo pulsar em nossos corações.
Escrevi:
Lá perto da fronteira
Havia um lugar chamado “Nunca-te-vi”.
Nunca-te-vi...
Parecia que o passarinho mudara de canto
E agora, quando subisse na amoreira
Ou passasse rasante no telhado,
Deixaria recado muito mais sofrido:
“Nunca-te-vi...”Nunca-te-vi...
Nunca
Nunca tem peso de eternidade,
Tem fatalidade de distância;
Nunca te vi
E, no entanto,
Isso que nunca vi
É a coisa mais importante da minha vida,
É minha essência,
É tudo que me falta.Nunca-te-vi...
Ai, mundão de Deus!
Cheio de mato crespo,
De porteiras rangentes,
De garças longilíneas,
De bois opacos
Balançando as papadas.Conheço tanto mistérios
Que já fui num lugar
Chamado “Nunca-te-vi”.
