Di Bonetti

“Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, pois outras são as águas,
e outro é o próprio homem.”— Heráclito
Existem certas memórias que não devemos tentar reviver, por maior que seja o desejo de tocá-las novamente.
O que foi vivido no passado deve, muitas vezes, permanecer lá, guardado em seu próprio tempo, para que não se contamine nem perca a magia da lembrança.
Explico: quando se vive um grande amor, uma grande paixão no começo da juventude, e esse relacionamento não segue adiante, vem o rompimento. Depois, passam-se anos e anos sem ver aquela pessoa por quem um dia se foi louca de amor. Nesses casos, talvez seja melhor não tentar nenhum contato, nem mesmo para reviver, por um instante, sentimentos antigos. Porque não há retorno à mesma ordem das coisas. As pessoas já não são as mesmas. Reencontram-se, muitas vezes, apenas para quebrar o encanto do que foi vivido, desfazendo a delicadeza daquilo que, justamente por estar no passado, tornou-se memória.
Hoje, tres de maio de 2026, fui até o Terminal Barra Funda para comprar uma passagem para o Paraná. Moro em São Paulo e quero passar o Dia das Mães com a minha mãe preferida.
Ao passar em frente ao Bob’s, veio-me uma nostalgia do tempo de faculdade, na São Luís, na Rua Haddock Lobo, há trinta e oito anos. Ao lado da faculdade havia um Bob’s. Todos os dias, no intervalo das aulas, eu ia até lá e comia um Bob’s Burguer, que tinha um molhinho verde delicioso. Quando passei diante do Bob’s, no terminal, senti, de repente, o gosto daquele lanche antigo. Foi como se o paladar tivesse memória.
Arrisquei uma volta no tempo e perguntei pelo Bob’s Burguer. Ele não existia mais. Disseram-me que o molhinho agora estava em outro hambúrguer. Arrisquei.
Que decepção.
Não consegui reviver absolutamente nada. Primeiro, porque o pão, que antes me parecia enorme, transformou-se num pãozinho qualquer. O molho, que antigamente era farto e escorria gostoso pelo hambúrguer, nesta nova versão quase não apareceu. Mal senti o gosto. Parecia ter sido colocado com uma colherinha de café.
Que tristeza perceber que eu mesma havia tocado numa lembrança intacta e, sem querer, diminuído aquilo que, na memória, era fantástico.
Mas nem toda volta ao passado é ruim.
Meu último ano de faculdade foi marcante. Cinco anos convivendo com pessoas da mesma classe fortalecem os laços de amizade com alguns colegas. Gosto de lembrar que, sozinha, organizei a formatura de três turmas: Contábeis, Economia e Administração, que era o meu curso. Organizei a missa, contratei o fotógrafo, cuidei do aluguel das becas e fechei uma boate para a comemoração.
Depois da formatura, cada um seguiu para o seu mundo.
O tempo passou. Somente uns quinze anos depois, encontrei uma ex-colega, que me contou que alguns integrantes daquelas turmas se reuniam uma vez por ano para confraternizar. Fiquei temerosa de destruir as lembranças do passado, mas resolvi comparecer a um encontro.
Foi espetacular.
Um dos dias mais felizes da minha vida. Reencontrar aqueles amigos, ver que o tempo havia passado para todos, igualmente, foi lindo. Experimentei um sentimento raro, daqueles que a vida oferece poucas vezes.
Hoje, trinta e oito anos depois de formados, ainda nos reunimos uma vez por ano. E é sempre bom.
Perdemos alguns nessa caminhada, é verdade. Mas isso também faz parte da vida. Alguns partem, outros permanecem. E, entre ausências e presenças, seguimos guardando aquilo que o tempo não conseguiu apagar.
