A magia perdida

Eu quisera poder voltar no tempo. Àquele tempo em que eu - sentado na varanda - olhando o céu azul, límpido qual água pura e cristalina, sonhava, de olhos abertos, serReinaldo Bressani 1 b6834 capaz de estender as mãos e apanhar estrelas, tantas quanto nelas coubessem. Pois, na verdade, tantas haviam na imensidão infinita, que seria simplesmente como colher pequenas flores nos abundantes campos silvestres em época primaveril. Abundantes, a olhos nus, naquele tempo que já vai longe - quase perdido na memória que hoje sofre os desgastes da vida -, as estrelas pareciam fazer questão de se exibirem de forma intensa e participativa a quem aos céus olhasse. Não menos insinuantes, os raios de luar somavam-se ao brilho das estrelas, acalentando os lúdicos sonhos infantis e, também, os corações enamorados. A magia permeava solta, inspirando poetas e unindo vidas que se entrelaçavam num querer de vida a dois, derramando sobre elas aquela química invisível propulsora do amor e, por via de consequência, da felicidade. Tempo em que o mundo ainda vivia seu tempo de céu límpido e esplendoroso; claro qual a luz do Sol; certo como a quimera do tempo da própria vida; mágico como um sentimento de amor; transparente qual o véu deste meu sonhar.

Infelizmente, nos tempos atuais, os céus parecem cobertos por um tecido escuro na maior parte do tempo. Parecem sentir vergonha de se exibirem, bem como, exibirem a beleza dos seus astros. Com isso, privando os meus olhos - já cansados - daquele sonhar cativo e romântico, capaz de transportar-me através da liberdade dos pensamentos soltos pelas viagens ao mundo dos encantos. E, em decorrência, os homens, face à ausência de tal espetáculo naturalmente tão envolvente, vão perdendo o próprio romantismo, além da sua ingênita aptidão de sonhar. Também, os poetas parecem estar perdendo sua capacidade de transpor essa barreira atmosférica em direção ao templo das suas inspirações. Até mesmo, as próprias varandas que outrora acomodaram os nossos sonhos estão desaparecendo pela ausência de sentido de sua existência, pois, não havendo visão clara das estrelas, ou sequer, o fascínio de um luar rebrilhante e apto para acender as chamas do romantismo - substrato à própria consistência do amor -, este se esvai ao léu. Daí, corações vão se enrijecendo, mais e mais, diante desse tempo insano que nos subtrai a essencial claridade dos céus, impondo-nos visões obtusas quanto àquele notável envolvimento que excitava nosso sonhar. Aquele sonhar pontilhado de luzes plantadas num galáxico jardim de encantos, que tanto nos seduzia e transportava para onde o coração, cavalgando raios de luar, imaginasse.


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