Um Nobel da Paz esquecido: Pe. Dominique Pire, OP

Domingos Zamagna (*)

No momento em que o noticiário nos mostra a situação de penúria de muitos brasileiros (desemprego, dívidas, falta de vagas em hospitais, creches etc) nos damos conta da importância da solidariedade. As notícias que chegam do primeiro mundo não são alentadoras para os estrangeiros, com preocupantes casos de racismo, xenofobia. Partes do planeta, além de famintas, já bastante banhadas em sangue, ainda mantêm dezenas de focos de guerra, sendo a Síria talvez a mais conhecida. E mais uma vez surge a ameaça de guerra nuclear, com os experimentos da Coreia do Norte.

Por outro lado, são também inúmeros os esforços de paz, no campo da diplomacia, das Igrejas, das ONGs etc. Agora mesmo o Papa Francisco visita a Colômbia, para sustentar esforços de paz duradoura, após cinquenta anos de violência.

É oportuno, é educativo sobretudo para os jovens, recordar que no dia 10 de dezembro de 1958, no grande salão da Universidade de Oslo, o Pe. Dominique Pire (nascido Georges Charles Clement Ghislain Pire), religioso dominicano belga, recebia o Prêmio Nobel da Paz, das mãos do rei Olavo e da princesa Astrid.

Que jovem brasileiro já ouviu falar de Dominique Pire? Aliás, será que os intelectuais brasileiros (professores, jornalistas, políticos, artistas, seminaristas) também saberão quem foi esse religioso? O que fez ele para merecer um Nobel?

Gunnar Jahn, presidente do Comitê Nobel do Parlamento norueguês, assim justificou a concessão do prêmio: “O trabalho do Pe. Pire em favor dos refugiados é uma ação empreendida para curar as feridas da guerra, para construir um feixe de luz e de amor, bem acima das vagas do colonialismo e da oposição entre raças; uma ação que favorece o desenvolvimento do espírito de fraternidade entre os homens e os povos.”

De fato, as feridas da segunda guerra mundial, abertas antes mesmo que as da guerra anterior estivessem cicatrizadas, demoravam para serem curadas. A maior catástrofe provocada pelo ser humano, envolvendo direta ou indiretamente setenta e dois países dos cinco continentes, deixou um saldo de mais de cinquenta milhões de mortos, trinta milhões de mutilados e um incontável número de lares desfeitos e refugiados.

Foi para ao menos aliviar tanto sofrimento que este simples frade, munido apenas de forças morais, a partir de 1949 entregou-se de corpo e alma ao trabalho com os refugiados e deslocados de guerra. Fundou a “Europe du Coeur au Service du Monde”, construindo uma série de campos para refugiados, sem qualquer tipo de discriminação, coisa aliás que não chegou a ser bem vista por alguns de seus contemporâneos, numa época em que ainda pairava sobre o mundo o espírito da vindita.

Vestido com o hábito branco dos filhos de São Domingos que outrora, infelizmente, também fora símbolo dos inquisidores, estava ele ali, entre políticos, artistas, cientistas e sábios, como a testemunhar que os tempos já eram outros – sem ostentar títulos, nem mesmo o de “teólogo da libertação” – pois se apresentava apenas como seguidor e missionário de Jesus Nazareno, que passou sua vida construindo o bem e a paz. Agradeceu ao rei e aos noruegueses tamanha honraria, mas com humildade preferiu ver nela apenas um estímulo para prosseguir seu trabalho. Num gesto concreto de solidariedade, aplicou a grande soma correspondente ao prêmio na construção de obras assistenciais: o “Village Fridtjof Nansen” e o “Village Anne Frank”, na periferia de Bruxelas. Mais tarde, fundará a Universidade da Paz, que existe até hoje em Namur, destinada a promover o entendimento e a concórdia entre os povos, reconhecido centro de formação para prevenção e gestão positiva de conflitos. Construirá uma rede de proteção social conhecida como “Îles de la Paix”, uma ONG para o desenvolvimento de populações rurais de países pobres, a começar pelo Bangladesh e a Índia, mas também na África e América Latina. Muitas outras iniciativas de paz foram empreendidas pelo Pe. Pire, até sua morte em Louvain, em 1968.

Para o bem, e para o mal, o final da década de 50 foi um tempo paradigmático. Se, de um lado, tivemos a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, ou se foi quando começou a corrida espacial, de outro lado Giorgio La Pira transformou Florença num foco de irenismo para o Mediterrâneo, foram assinados os Tratados de Roma de 1957 (constitutivos do que viria a ser a Comunidade Europeia). Sem alarde, com gestos simples, mas bem concretos, Dominique Pire mostrou-nos que a paz é um bem precioso demais para ser entregue apenas aos cuidados dos políticos e diplomatas. Cada ser humano, se for apaixonado por ela, há de se tornar um artesão da paz. Um bom exemplo a ser lembrado como síntese de um novo patamar de convivência pacífica é a figura de João XXIII, infatigável trabalhador pelo banimento da violência e pelo entendimento entre as religiões e os povos (convocou o Concílio Ecumênico em 25/1/1959) em plena época de guerra fria, inclusive legando-nos uma das mais belas encíclicas da história da Igreja, a “Pacem in Terris”.

Nas vésperas do sexagésimo aniversário da premiação do Pe. Pire com o Nobel da Paz, todos os que se preocupam com a construção de um mundo novo, de justiça, solidariedade e paz, cumprimos o alegre dever de evocar o seu luminoso exemplo e homenageá-lo com gratidão.

(*) Jornalista, professor universitário, membro da Academia Cristã de Letras.