SP, a cidade fundada sobre os alicerces da fé

Domingos Zamagna - 

Durante alguns anos trabalhei com um senador italiano, Dr. Lelio Basso, que além de político era brilhante intelectual. No início da década de 70 o senador visitou longamente o Vietnã em guerra. Ao retornar a Roma fez um relatório ao Papa Paulo VI sobre o que viu e conseguiu documentar. No início da audiência entregou ao Pontífice um Crucifixo mutilado que os católicos de uma aldeia vietnamita enviaram ao Papa. Era o que sobrara de uma capela bombardeada.

"E por que bombardearam uma capela?" - indagou Paulo VI.

"Os aviões, com precisão cirúrgica, lançam suas primeiras bombas sobre as bases da resistência moral do povo: capelas, escolas, postos de saúde... É preciso eliminar o líder religioso, a professora, o enfermeiro" - respondeu o corajoso e lúcido senador.

Como trabalhei vários anos junto ao Pátio do Colégio, recordava-me com frequência desse diálogo entre os queridos e saudosos Paulo VI e Lelio Basso.

Por que? Porque a nossa cidade começou assim: os missionários Jesuítas construíram no planalto de Piratininga uma capela, uma escola e um posto de saúde, que era também uma hospedaria. Esse foi o núcleo a partir do qual foi se fortalecendo a aldeia até tornar-se cidade e, hoje, a maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo.

Durante toda a sua história São Paulo foi marcada pela presença missionária da Igreja Católica e posteriormente por outras confissões através dessas dimensões: oração, instrução, saúde, acolhida, demonstrando preocupação com o ser humano na sua integralidade. Tanto para o indígena quanto para o africano e o europeu. Nenhum historiador poderá dizer que São Paulo foi fundada sobre o sangue dos vencidos, o suor dos reduzidos ou os discursos justificativos dos vencedores. Dentro das condições de possibilidades da realidade americana do século XVI, a nossa cidade nasceu de um intercâmbio entre raças e culturas.

O paulistano de hoje mal pode avaliar o que significava conviver com os africanos e indígenas, aprender suas línguas, distinguir suas nações, entender seus costumes tão diversos, (quando necessário) prover sua subsistência e ainda suportar a pressão do colonialismo português, que abrigava instituições tão arcaicas como a escravidão, e dentro dos limites - mas também dos alcances - da Igreja da Contra-Reforma.

O Padre Manuel da Nóbrega e o jovem seminarista José de Anchieta, ao lado de seus companheiros, lançaram as mais genuínas e generosas sementes da Palavra de Deus e da civilização em Piratininga. Não consideraram como estranhos nenhum ser humano e nenhuma terra. Por isso, será anacrônico quem os considerar como estranhos em nossa terra.

O Antigo Testamento colocou os fundadores de cidades entre os descendentes de Caim, e não de Abel, o justo (cf Gn 4,17). A "cidade" tornou-se um símbolo ambíguo, muitas vezes sinônimo de opressão. O Novo Testamento superou essa dubiedade a ponto de vislumbrar como cidade a morada celeste de Deus, como se lê no último livro da Bíblia: “civitatem sanctam Hierusalem”. Jerusalém, a cidade santa (cf Ap 21,10), deixou de ser a cidade que matava os profetas e apedrejava os que lhe foram enviados (cf Lc 13,34).

Anchieta e sua equipe de missionários são gente de uma nova estirpe, fundando cidades baseadas em novos paradigmas. Graças a eles, e aos que neles se inspiraram, hoje somos essa grande metrópole.

No remoto 1554, nossa cidade teve um início de extrema simplicidade. Anchieta descreveu esse empreendimento “in pauperrimo et vetustissimo sed felici tuguriolo” (paupérrimo e velhíssimo, mas feliz tugúrio). Tudo começou com a capela-escola-posto de saúde-hospedaria, que não ultrapassava os 14 passos de comprimento por l4 de largura.... Um povo só é feliz, maduro e civilizado quando tem saúde e educação, e quando pratica a convivialidade alicerçada sobre os valores da justiça e da equidade, cuja melhor garantia – salvo melhor juízo, para além de todos os relativismos – ainda é a fé teologal. Aí estão os fundamentos da paz.

Vamos sonhar, ao menos nas comemorações de nossas datas cívicas, com Manuel da Nóbrega e Anchieta repetindo sobre São Paulo as palavras de Jesus sobre Jerusalém: "Ah! Se nesse dia também tu conhecesses a mensagem de paz!" (Lc 19,42).

(*) Domingo Zamagna é jornalista, professor de Filosofia e membro da Academia Cristã de Letras.