Museu Histórico da Polícia Militar recebeu doação: O ANEL DO BISPO FEIJÓ

Fonte: Paulo Nathanael Pereira de Souza

Coronel Arruda

Museu Histórico da Polícia Militar recebeu doação: O ANEL DO BISPO FEIJÓ

Acadêmico: Paulo Nathanael Pereira de Souza

"O anel, que durante séculos esteva na guarda de pessoas ilustres a última delas foi Paulo Bonfim, destaca-se no lugar de honra, que lhe reservou a direção do Museu da Polícia Militar de São Paulo"

Participei em março deste, de uma cerimônia cívica, no Quartel General da Polícia Militar de São Paulo. Motivo: incorporação ao Museu Histórico da corporação, do anel de bispo, que pertenceu a Feijó, e foi doado à instituição pelo poeta Paulo Bonfim, até então seu detentor.

Tenho a mais irrestrita admiração por esse vulto histórico paulista, cuja biografia vai da condição de criança enjeitada (por ter sido seu pai, um padre, e sua mãe uma beata da família Camargo, que morava na Rua das Freiras), à ocupação do mais alto cargo do Império brasileiro, e de Regente, que governou o país enquanto durou a minoridade de D. Pedro II, filho do Imperador D. Pedro I, que renunciou ao trono em 1.831, seu nome todo era Diogo Antônio Feijó. Criado por um tio, também padre, irmão de seu pai, dividiu sua aprendizagem entre o incenso dos altares e o latim e a escolástica dos alfarrábios das sacristias das Igrejas de Santana do Parnaíba e de Guaratinguetá. Cursou os dois seminários, o Menor e o Maior, e quando se ordenou, morava em Campinas (naquele tempo ainda conhecida como São Carlos), onde esmolava para sobreviver. Conheceu nessa época, em peregrinações que fazia até Itu, o famoso sacerdote, padre Jesuíno de Monte Carmelo, ligado ao pensamento janseniano, e certamente uma fonte heterodoxa de onde bebeu Feijó. Fez oposições ao celibato clerical e ao padroado, que misturava a Igreja com o Império e fazia dos sacerdotes e dos bispos, funcionários públicos do governo brasileiro. Conheceu vereadores campineiros e ituanos e, pela mão deles, tomou gosto pela ação política. Suas inclinações republicanas levaram-no aos arraiais dos chimangos (apelido com que eram conhecidos os liberais da época, anos 30 do século 19) e, como tal, acabou integrando a bancada brasileira de deputados ao parlamento de Lisboa. Com a proclamação da Independência retornou ao Brasil e atuou politicamente no Rio de Janeiro, onde se ligou intimamente ao líder dos chimangos, Evaristo da Veiga. Com a renúncia do Imperador D. Pedro I, instalou-se a Regência Trina, da qual acabou Ministro da Justiça, seja pela profunda cultura jurídica que cultivava, seja pela personalidade austera e enérgica, que sempre ostentou. Exerceu com probidade e férrea vontade esse alto cargo, e quando a Regência Trina foi sucedida pela Una, coube-lhe exercer o comando da Pátria, numa espécie de ensaio sobre a viabilidade, no Brasil, de uma primeira experiência republicana, em contraste com José Bonifácio e seus irmãos, que lutavam pela manutenção do trono e, se possível com o retorno do Imperador renunciante, que a esse tempo lutava em Portugal, para defenestrar Miguel, seu irmão, que usurpara a coroa pertencente à rainha Maria da Glória. Feijó, como Regente, tinha que ser intransigente e aguerrido, para enfrentar a dupla oposição que sofria: dos “caramurus”, dos Andradas, e a dos pretendentes a seu lugar, liderados por Bernardo de Vasconcelos. Ademais, as revoluções regionais pipocavam nas províncias (Cabanadas, no Pará; Confederados em Pernambuco; Farrapos, no Rio Grande do Sul), o que trazia as forças armadas, sob o comando de Luiz Alves de Lima e Silva (futuro Duque de Caxias) em permanente deslocamento para essas frentes rebeldes, que se vitoriosas, teriam transformado o Brasil numa colcha de retalhos política, como aconteceu com os vizinhos de colonização espanhola. Por isso, Feijó governou com punhos de ferro e intransigências monocráticas.

Foi, então, que se deu a encrenca do bispado do Rio de Janeiro: o Regente quis confirmar no cargo, um seu amigo querido, o cônego Antônio Maria de Moura, no que foi obstado pelo Papa, que por politicagem de seu Núncio no Brasil, apoiava outro candidato. Do padre Moura dizia-se que pregava o fim do celibato clerical e que não tinha uma boa conduta como sacerdote. O tema radicalizou os contendores e Feijó chegou a admitir o rompimento diplomático entre o Brasil e a Santa Sé. Tentando contemporizar, Sua Santidade assinou bula nomeando Feijó, bispo de Mariana, e enviou-lhe o anel correspondente a essa alta função. O Regente, caracterizado por Otávio Tarquínio de Souza como: “homem da roça e do mato, de caráter um “peu sauvage”, como o caracterizavam os diplomatas franceses, a quem faltava tato, contemporização, paciência, dom de esquecer antipatias e de perdoar agravos”, refugou essas homenagens e jamais tomou posse do novo cargo.

Tinha as mãos limpas, uma coragem ilimitada, mas homem de pavio curto e de emoções extremadas, não aceitava contradita e, no exercício do poder, procedia no estilo de Robespierre, que na Revolução Francesa, agia como salvador da Pátria e foi chamado de incorruptível.

Jogou a bula e o anel no fundo de uma gaveta e nem sequer agradeceu ao chefe da Igreja o presente do cargo máximo na hierarquia dos antístites católicos romanos.

O anel, que durante séculos esteva na guarda de pessoas ilustres a última delas foi Paulo Bonfim, destaca-se no lugar de honra, que lhe reservou a direção do Museu da Polícia Militar de São Paulo. Lá está, aguardando a visita de historiadores e de admiradores, como eu, dessa figura soberba e intrigante, que foi o Regente Feijó.

(Paulo Nathanael Pereira de Souza)