Comunicações, laicidade e religião

Fonte: Domingos Zamagna

     Com alguma frequência ouvimos ou lemos pronunciamentos de educadores a respeito da falta de ética em algumas redes brasileiras de televisão. As pessoas que têm responsabilidades pessoais e sociais sabem que o problema existe, não é ilusório: por isso  costumam prestar atenção a esses pronunciamentos, vendo neles um sério esforço de colaboração para a melhoria do nível de nossos meios de comunicação. Mesmo porque essas lideranças verbalizam o que tem sido o pensamento e indignação de milhões de pais, mães e educadores brasileiros.

     As reações das emissoras não tardam, umas dizendo que não têm nada a ver com o assunto, outras só faltam dizer que sua programação  é destinada à lua etc. Mas há também quem afirme que seus28 Domingos Zamagna e088a  empreendimentos, por exemplo, seus realities-shows ou programas de baixíssima qualidade, são lastreados no pluralismo ideológico-cultural-religioso dos brasileiros; que são emissoras leigas, não têm religião e não seguem nenhum preceito discriminatório. Que coisa fantástica!

     Os “refinados” intelectuais que são designados para redigir os textos em defesa de algumas dessas emissoras, que não acenam sequer com a possibilidade de alguma verdade no que afirmam pais e educadores, certamente teriam ainda muito a aprender sobre o sentido dos vocábulos “leigo” e “religião”. No Brasil, toda vez que instituições praticam atentados contra a ética, toda vez que as organizações beiram práticas criminais, costumam dizer que são leigas. Está havendo uma falaciosa ressemantização de alguns vocábulos, de tal modo que, na cabeça de muita gente, “laicidade” vai virando sinônimo de bandidagem. Porque sou “leigo”, estarei acima do bem e do mal: serei a favor do aborto, da eutanásia, da pena de morte, do mensalão, do aumento astronômico do salário de parlamentares, da voragem dos impostos, do aumento ridículo do salário mínimo etc. Se alguma escola ou Igreja protestar contra esse préstito de sem-vergonhice, serão estigmatizadas – em horário nobre – de alienada, atrasada, antiliberal, anacrônica.

     Mais pitoresco, para não dizer trágico, é o modo como se pretende usar a expressão “preceitos religiosos”. As religiões (falo de verdadeiras religiões e não de “instituições caça-níqueis” = caça-milhões), por incrível que pareça, apesar do enorme peso de milenares rotinas, são capazes de evoluir, e colocar-se a serviço do povo. Quem tiver um pouco de espírito e prática de pesquisa, facilmente há de constatar que a Igreja Católica – para falar apenas da que conheço mais de perto – tem feito uma autocrítica, revisto seus procedimentos, constatado e investigado seus erros, não só pedindo desculpas por seus pecados, mas também praticando reparação por seus crimes. Se houve momentos de nossa história em que a Igreja foi um peso morto, há muito que os fiéis vêm procurando cada vez mais se modelar na Igreja dos profetas, dos apóstolos, das santas e santos mártires. Por palavras, mas sobretudo pelo testemunho de conversão e serviço, querem se identificar com a pessoa e a missão salvadora, pela misericórdia, de Jesus Cristo.

     Ora, algumas das práticas das quais as verdadeiras religiões se desvencilharam, alguns dos cacoetes e penduricalhos típicos das religiões que não souberam se renovar, estão cada vez mais sendo absorvidos por instituições que se apresentam como “leigas”. Para quem – como eu – já passou por isso, ou quem não se deixa impressionar pelas aparências, é difícil imaginar ambientes mais hierarquizados do que certas centrais de comunicação, mais dogmáticos, mais ritualísticos, mais ideologizados, mais subservientes ao deus “mamon”, para o qual são exigidos sacrifícios verdadeiramente sangrentos, praticando milagres de manipulação, num clima de indisfarçável infalibilidade.

     Digam-nos o que quiserem, mas não nos digam que não se pautam por preceitos “religiosos”. São os novos sacerdotes, estão desenvolvendo uma “religião” graúda, que não abre mão de nada daquilo que as religiões, a duras penas, estão aprendendo a relativizar, a abandonar.

     Podemos tirar várias conclusões a partir desta reflexão. Limito-me a uma: apesar de a Igreja ainda abrigar projetos neoconservadores, vamos tomar cuidado para que nossa religião não se deixe seduzir pelos ouropéis da imagem, não sejamos mais reprodutores de realidades das quais a história conseguiu nos libertar. Vamos concentrar o que temos de melhor para servir aos pobres, e não fazer deles um instrumento de vertiginoso enriquecimento através da sedução da pirotecnia tecnológica. Isso não nos conduzirá jamais à realidade (reality), mas sim ao ópio da alienação e, pelo fetiche do show, do exibicionismo, à desvalorização da vida. O que herdamos de Jesus é que lutemos pela vida, e vida em abundância. O Sermão da Montanha ensina a viver e não a representar.

     Que coisa mais medonha seria olhar para uma Igreja e vê-la representando, introjetando os padrões do universo da nova e envolvente televisão; ou olhar para a televisão e vê-la representando os padrões do universo da velha e superada religião-superstição.

 

Domingos Zamagna - Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.