"Amanhã eu vô num vim trabalhá..."

Fonte: do livro "Mostrando a língua" de J. B. Oliveira

38 João Baptista de Oliveira 91e11Foi com essas palavras que certo funcionário “justificou”, por antecipação, sua ausência ao trabalho. Pelo visto, esse certo funcionário não era um funcionário certo. (Notou como a posição do adjetivo modifica o sentido do substantivo? É por isso que se diz que “as mulheres de certa idade não têm idade certa”!)

Voltando ao funcionário, ele não poderia ter tido apenas: “amanhã eu não virei trabalhar”? Ou, se achasse essa forma — construída com o Futuro do Presente — muito pomposa, não poderia recorrer ao Presente do Indicativo e falar somente: “amanhã eu não venho trabalhar”? (O emprego do presente com ideia de futuro é muito frequente na linguagem usual, e dá sentido de maior intensidade ao verbo. Como muitos outros comunicadores de rádio e TV, apreciado jornalista alvinegro (sim, Corintiano! Afinal, ninguém é perfeito!) Heródoto Barbeiro anunciava os intervalos comerciais de seu programa com um sonoro: “voltamos em seguida” ou “voltamos logo”, e isso soa melhor do que “voltaremos em seguida”!)

Basta prestar um pouco de atenção para ouvirmos pessoas dizerem algo como: “Aí ele foi e pegou e disse: ‘eu disconcordo de tudo isso que vocês concordaram”’. A verdade é que ele não foi a lugar algum nem pegou coisa alguma! Apenas disse: (ou poderia ter dito) “Eu discordo de tudo.”

Nas vezes em que, como vice-presidente, assumi a direção das reuniões do sindicato patronal a que pertencia, pedi ao secretário que simplificasse a expressão largamente usada para introduzir as falas dos diretores. “Fazendo uso da palavra, o diretor Fulano de Tal falou...”. Ora, bolas, como poderia alguém falar sem fazer uso da palavra? Por sinais?

Certa feita, passeando em Campos do Jordão (terra de meu nobre amigo, colega e irmão Pedro Paulo Filho, autor da extraordinária obra “A Revolução da Palavra” entre tantas outras) deparei com este cartaz em uma loja do (desculpem!) “Aspen Mall”:

“Gostaríamos de informar aos nossos prezados Clientes que as peças cujo tamanhos (sic) sejam GG e GGG serão cobrados 5,00 a mais devido ao maior custo de tecido.

Esperamos sua compreensão”.

(Para início de conversa: se “gostariam de informar”, então informem! E a quem seria, senão aos “nossos (e não dos outros!) prezados clientes”? Ao Fisco? À Polícia?)

Recebi há algum tempo de uma querida colega jornalista de Araraquara — Angélica Bombarda — um e-mail relacionando algumas “pérolas do jornalismo” (sim, também jornalistas podem “usar” “colar de pérolas”...). Algumas lembram um célebre bordão da TV: “Isto é incrível!”:

“No corredor do hospital psiquiátrico, os doentes corriam como loucos.”

“Este ano, as festas do 4 de setembro coincidem exatamente com a data de 4 de setembro, que é a data exata, pois o 4 de setembro é um domingo.”

“Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.”

O que de fato ocorre é que colocamos sempre em prática a velha expressão popular: “Se dá para complicar, pra que simplificar?” Isso lembra um amigo — notável comunicador e uma das pessoas mais inteligentes e criativas que conheci — e que já se encontra há alguns anos “no andar de cima”, chamado Mário Moraes. Sua filha é ninguém menos que a versátil e lúcida comunicadora Cinira Arruda. Referindo-se a um terceiro, dizia o bom Mário: “Ele tem um jeito simples de complicar as coisas...”

É digno de “respeito” o texto abaixo, inserto (inserto, assim, com “s” é o particípio irregular, reduzido do verbo inserir, e equivale à forma regular inserido) na revista Veja de 29 de julho de 1998, página 38:

“Conspícuo diretor:

abroquelado em extrema necessidade, epigrafando direito irremovível na ritualidade e sem quiproquó de pergaminho autorizativo, solicito liberação do título cheque, supedâneo da documentação anexa.”

Aristóteles Ferreira, secretário jurídico do

município de Jaboatão dos Guararapes (PE), em ofício ao secretário das Finanças.

Em meu livro “Falar bem é bem fácil”, transcrevo texto do notável jornalista e ex-deputado Sebastião Nery, constante de seu livro “Folclore Político”:

“Virgílio Távora, governador, recebeu telegrama do prefeito do Crato:

‘Senhor governador, solicito V. Exa. Recursos enfrentar seca município.

Cordiais  saudações.’

Virgílio respondeu:

‘Senhor prefeito, aguarde, 19 de março, passagem Equinócio.

Cordiais saudações.’

Dia 20 de março, o prefeito telegrafa de novo:

‘Senhor governador, apesar banquete e homenagens preparamos receber condignamente enviado V. Exa., até agora Dr. Equinócio não apareceu.

Cordiais saudações.’’’

E o que dizer de instituições de ensino superior que não se dão conta de que uma correspondência sua é sua imagem? O que se segue é a parte final da carta que uma universidade dirigiu a seus alunos:

“À guisa de informação queremos esclarecer que o percentual adotado sobre a diminuição da bolsa concedida não atende às necessidades presentes, deixando claro que, havendo necessidade de cumprir compromissos para atingir as metas delineadas pela Instituição, novas medidas terão de ser tomadas, mas que até o final do ano letivo de (), a intenção da Direção é manter a situação ora apresentada.

Certo de que haverá por parte de Vossa Senhoria a compreensão que se faz presente na atual situação.

Um dos fatores de complicação, é a mania de se pluralizar o singular! Há quem cante — e não são poucos — o Hino Nacional Brasileiro assim:

“Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com ‘BRAÇOS FORTES’’’

Osório Duque Estrada, ao redigir a letra do Hino, ficou no singular: “BRAÇO FORTE”!

E como irá fazer, quem canta “braços fortes”, para fechar a rima, na outra estrofe:

“Desafia o nosso peito as PRÓPRIAS MORTES’?

Foi em decorrência dessa “mania nacional” de usar no plural o que é singular, que um fiel humilde, lá do interiorzão, encerrou sua oração com este singular pedido a Deus:

“Eu te peço, Senhor, que aumentes as nossas lavouras, que aumentes as nossas colheitas, mas principalmente, que aumentes as NOSSAS FEZES”!