Raquel Naveira

Paris é uma cidade de tirar o fôlego: os jardins clássicos, a água furta-cor do rio Sena, as margens fluviais charmosas com bancas de livros e flores, as catedrais góticas, as galerias com imensos quadros impressionistas.
O filme “Casablanca” é um ícone romântico, cheio de ação, espionagem, aventura. Um triângulo amoroso que exige sacrifício e renúncia. Inesquecível o diálogo entre Rick (Humphrey Boagart) e Ilsa (Ingrid Bergman), que foram amantes em Paris. Ela pergunta na despedida: “_ E quanto a nós?”. Ele responde: “_Nós sempre teremos Paris.” É a aceitação da separação. A maturidade. O foco na beleza do que foi vivido. Todos sonham em viver algo maravilhoso, fascinante, em Paris. E vivem.
Foi lá que aconteceu a paixão desmedida, intensa, atribulada entre a bela e sedutora atriz, Tônia Carrero (1922-2018) e o diplomata e cronista Rubem Braga (1913-1990). Flanavam juntos, de mãos dadas, pelas ruas de Paris. Corria o ano de 1947. Os dois eram casados. Ela, com o artista plástico Carlos Thiré, com quem tinha um filho, Cecil. Ele, com a dramaturga mineira Zora Seljan, mãe de Roberto Braga. O casal se encontrava às escondidas num pequeno hotel. Ao redor deles: o ciúme, a fúria, o flagrante moral e as luzes estonteantes de Paris.
Ao voltarem para o Rio de Janeiro, os casamentos de ambos terminaram. Tônia decide romper também com o instável e mulherengo Rubem Braga. O escritor reage de forma dramática, ameaça atirar-se sob os carros ou se jogar no mar. Persegue os passos de Tônia. Envia rosas vermelhas para o camarim do teatro onde ela se apresentava. Mas ela o trata com desdém. Era o encerramento definitivo. Ele nunca a esqueceu. Manteve admiração pela atriz ao longo de toda a vida. Escreveu por décadas poemas, crônicas e cartas endereçadas a ela, como este soneto “Tarde”:
E quando nós saímos era a Lua,
era o vento caído e o mar sereno
azul e cinza-azul anoitecendo
a tarde ruiva das amendoeiras.
E respiramos, livres das ardências
do sol, que nos levara à sombra cauta
tangidos pelo canto das cigarras
dentro e fora de nós exasperadas.
Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
o sentimento do prazer cumprido.
Se mágoa me ficou da despedida
não fez mal que ficasse, nem doesse:
- Era bem doce, perto das antigas.
Quem me enviou o poema e me fez relembrar desse caso amoroso foi Danilo Gomes (1914), o jornalista e crítico literário, que pertence à Academia Mineira de Letras. Danilo conhece profundamente a história urbana e literária do Brasil. É um grande memorialista. Escreveu o estudo “Em torno de Rubem Braga: ensaio e homenagem ao estilo do mestre”. Danilo foi assessor de imprensa da Presidência de República (1985-2004), nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem, Danilo descreveu: “Encontrei-me com Tônia uma vez, no Palácio do Planalto, numa homenagem a Fernanda Montenegro. Dei a Tônia o meu livrinho sobre Rubem Braga. Ela ficou surpresa. E, segurando minhas mãos, olhos marejando, ela me disse o soneto que Rubem Braga lhe dedicara.” E acrescentou: “Emotiva, franca, verdadeira, amável e adorável. Assim era Tônia Carrero, carioca da gema. (Não quero dizer que todas as cariocas sejam assim). E aquele poema do Rubem é antológico, como você captou logo.”
No meio de tudo isso, pegou-me, de surpresa, a pergunta de uma amiga que se preparava para viajar a Paris: “_ O que você quer que lhe traga de presente de Paris?” Respondi em forma de poema:
_ O que você quer de Paris?
_ Uma folha da borda do Sena,
Uma folha de castanheira,
Ressequida e amarela.
Bastará uma folha
E me virão à lembrança
Os beijos,
Os barcos,
As abadias;
Atravessarei pontes,
Arcos,
Águas ancestrais
E ficarei presa ao passado,
Às torres
E ao cais.
Uma folha só,
Da árvore mais velha
Ou da mais alta
E sorverei magia,
Gotas de chuva,
Pingos de luz.
Uma folha arrancada pelo vento
Como a que caiu
Sobre meu casaco de veludo
Naquela tarde bordô.
Uma folha do Sena
Armazena todo meu sonho
De ser feliz.
Uma folha da borda do Sena
É o que quero de Paris.
