
Civilização é a manifestação da vida material e espiritual de um povo. A soma de conhecimentos adquiridos, o produto da cultura e da ciência. A região espiritual de uma civilização está carregada de mitos e símbolos, que formam o seu imaginário, o seu inconsciente coletivo. Segundo definição de Freud “inconsciente é todo processo psíquico cuja existência nos é demonstrada pelas suas manifestações, mas que, por outro lado, ignoramos por inteiro, embora se desenrole em nós”. Há, portanto, nessa afirmativa, o reconhecimento da existência de um vínculo psíquico real, de um reservatório de energia dentro de nós, de base enigmática e atávica.
Chamamos de civilização ocidental cristã aquela situada ao ocidente, iniciada no mundo greco-romano, da Antiguidade clássica e que designava de “bárbaro” o estrangeiro de forma geral. Na região do Lácio surgiu o dialeto latino que predominou na Itália durante o Império Romano e a Idade Média. Do latim vulgar derivaram-se as línguas românicas entre elas o galego-português. Portanto nós, portugueses e brasileiros, pertencemos a essa civilização. A Civilização Ocidental Cristã, teológica e filosoficamente é sustentada por dois pilares: a mitologia greco-romana e o cristianismo.
Da literatura grega citamos Homero, que escreveu os poemas épicos Ilíada e Odisséia; Hesíodo, que em Teogonia, expôs a genealogia dos deuses e Safo de Lesbos, a musa lírica dos palimpsestos. No movimento filosófico, lembramos de Sócrates, aquele que disse que “a única coisa que sabia é que não sabia de nada” e cuja máxima era “conhece-te a ti mesmo”; Platão, seu discípulo, autor de Diálogos, onde demonstra a imortalidade da alma e Aristóteles, que estudou os fenômenos do universo de forma magistral. Da literatura romana, ressaltamos os discursos do orador e filósofo Cícero; o célebre poema Eneida, de Virgílio, que narra a queda de Tróia e a fuga do herói Enéias para a Itália e o elegante poeta da Arte de Amar, Ovídio. Na filosofia, o moralista Sêneca, que foi obrigado por Nero a suicidar-se.
A mitologia greco-romana é o estudo da religião desses povos. Histórias maravilhosas que o homem imaginou para chegar ao conhecimento dos mistérios existenciais. Um patrimônio mítico-poético que vem influenciando o homem através dos tempos em todas as áreas. Segundo os gregos e os romanos, o monte Olimpo era a morada de deuses fantásticos como Júpiter ou Zeus, o pai dos deuses e dos homens, senhor da disciplina e da justiça; Juno ou Hera, esposa e irmã de Júpiter, ciumenta e vingativa; Ceres, deusa da agricultura e da fertilidade; Vênus ou Afrodite, deusa da beleza e do amor, nascida das espumas do mar; Minerva ou Atena, deusa da sabedoria e do trabalho; Vulcano ou Hefestos, deus do fogo e da forja; Mercúrio ou Hermes, mensageiro alado do Olimpo; Apolo, deus do sol; Diana, deusa da lua e da caça; Baco ou Dionísio, deus do vinho, da orgia, do teatro e muitos outros deuses e semi-deuses nascidos num contexto não-lógico, sem rigor racional, fantasioso.
O cristianismo surgiu como religião na capital do Império Romano nos tempos de Cláudio, professado por pessoas humildes e insinuando-se gradualmente nas classes elevadas. O nascimento de um Cristo, de um Messias, estava previsto em várias escrituras. Havia profecias de que o Deus Pã morreria com todo politeísmo e idolatria; de que o Oriente se curvaria ao fato de que o Deus-Homem nasceria no Ocidente, como atesta a passagem dos reis magos que vieram do Oriente para adorá-lo; de que esse Homem-Deus seria sacrificado ao próprio Deus numa cruz. Ao cessar a época de perseguição aos cristãos, os padres da Igreja ensinaram a nova doutrina e os poetas celebraram as suas belezas. Os principais padres escritores foram: São Hilário; Santo Ambrósio; São Jerônimo, o tradutor do Antigo e do Novo Testamento, a Vulgata e o filósofo, Santo Agostinho.
Na realidade, segundo analisa o escritor João Ribeiro, “o cristianismo é uma grande fase da espécie que se abriu quando ela atingiu a madureza heleno-romana. O homem greco-romano estava preparado para ser cristão. Ao ideal da força e da expansão egoística dos instintos, degeneradores e mórbidos como a própria sociedade, sucedia a reação humanitária e misericordiosa da justiça e da compaixão pelos humildes e vencidos e escravos, que eram afinal a quase unanimidade do mundo”. O cristianismo foi assim a vitória da multidão, a redenção, o prêmio de uma vida nova. Antropologicamente, nós, os antigos pagãos e ateus, somos agora os cristãos, com sede de justiça e igualdade. A bandeira do Cristo crucificado no Ocidente é o grande símbolo da civilização. A poesia produzida no campo artístico da civilização ocidental cristã está, portanto, alicerçada nesses dois pilares. Exemplificaremos com alguns autores das literaturas portuguesa e brasileira.
Camões foi o talentoso poeta clássico das antíteses, paradoxos e incertezas. Influenciado por Platão considerou-se um “caído” no plano humano, no mundo sensível, esmagado pelas “reminiscências” do mundo “inteligível”, onde moram “as ideias”, a verdadeira realidade, de que as coisas deste mundo são sombras. Há nele toda uma inquietação universal, de quem mergulha no labirinto do próprio “eu”, numa dor cósmica.
Nos Lusíadas, faceta épica da poesia camoniana, temos a sincera e comovida reportagem do momento em que Portugal atingia o ápice de sua evolução histórica. O poema tem como núcleo narrativo a viagem empreendida por Vasco da Gama a fim de encontrar as Índias. Nos Lusíadas misturam-se fatos da viagem, o maravilhoso da mitologia greco-romana, episódios da história de Portugal e intervenções filosóficas do Poeta sobre as artes, o poder e a glória. Exemplo: no começo do poema, as naus estão navegando o Oceano Índico. Enquanto isso, no Olimpo, os deuses se reúnem num concílio, a deliberar acerca dos navegantes. Júpiter é favorável aos portugueses. Baco se opõe. Com a adesão de Vênus e Marte o concílio desfaz-se a favor dos portugueses. Chegam a Moçambique; Vasco da Gama desce à terra; Baco arma-lhe uma cilada, mas o comandante triunfa e segue viagem. Chegam a Mombaça, Vasco da Gama não atraca avisado por Vênus, que, indignada, reclama a Júpiter proteção aos portugueses cristãos. O poeta intervém refletindo sobre a miserável condição humana.Através desse resumo, percebemos a formação clássica de Camões, leitor de Homero, de Virgílio, Platão, Horácio; a divisão entre o fantástico da mitologia greco-romana que dá ao poema o tom surreal e o lastro da doutrina cristã, que norteia o pensamento subjetivo e filosófico do poeta. Camões edificou assim uma epopeia renascentista e moderna.
Nas matrizes poéticas portuguesas temos em Camões o “ciclo camoniano”, que termina em Fernando Pessoa, iniciando-se o “ciclo pessoano”. Fernando Pessoa, poeta metafísico, assimilou o passado lírico de seu povo e refletiu em si, como uma antena parabólica, as grandes crises de cultura e valores, no primeiro quartel do século XX, em torno da guerra de 1914. Procedendo a um incontrolável desdobramento interior, Fernando Pessoa pagou o preço da desintegração de seu “eu”, a atomização de sua personalidade. Desse desdobramento nasceram os “heterônimos”, os “outros nomes” de poetas que viveram dentro dele. Os heterônimos mais importantes foram Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. É Ricardo Reis quem vai simbolizar uma forma humanística de ver o mundo. É ele quem adere ao espírito da Antiguidade clássica, cultuando um paganismo anterior à noção de pecado. Inúmeras são as odes clássicas de Ricardo Reis, citemos uma estrofe: “Mas serenamente/Imita o Olimpo/No teu coração/Os deuses são deuses/Porque não se pensam”.
Na literatura brasileira vale registrar a obra o Uraguai, de José Basílio da Gama. Basílio nasceu em Tiradentes, Minas Gerais, em 1741, viveu parte de sua vida em Portugal e em Roma. O Uraguai é um poema épico de cinco cantos, que narra as disputas entre espanhóis e portugueses no sul de nosso continente, envolvendo os índios e os jesuítas de Sete Povos da Missões. Como esquecer o amor de Lindóia e Cacambo? É interessante observar nesse poema a influência dos clássicos antigos e dos Lusíadas; há “ninfas do mar”; “heróis”; a morte trágica e lírica de Lindóia, lembrando a de Inês de Castro; a presença do cristianismo representado pelos padres jesuítas; a natureza selvagem, cheia de cobras e jacarés; índios “cruzando em canoas”. Que imenso caldeirão cultural latino-americano! A esse caldo, mais tarde vão se acrescentar os elementos da cultura e da religião africanas e dos diversos imigrantes que foram chegando ao Brasil.
Na base de toda poesia brasileira estão os dois pilares de nossa civilização: humanismo helênico e cristianismo. Em Anchieta, em Gregório de Matos Guerra, em Tomás Antônio Gonzaga, em Gonçalves Dias, em Castro Alves, em Olavo Bilac, em Cruz e Souza, em Alphonsus de Guimarães, em Cecília Meireles, em Murilo Mendes, em Augusto Frederico Schimidt, em Jorge de Lima, em Vinícius de Moraes, em Adélia Prado, só para citar alguns nomes. O poeta é um farejador de relatos, um elaborador de mitos e fatos de natureza literária e histórica.
Hoje há um debate cultural intenso sobre religião, família, identidade nacional, revisão crítica da história. Seria uma renovação ou uma erosão dos valores centrais da nossa civilização? A civilização ocidental cristã está em transformação ou em crise? O que seria preciso reformular? Como fazer sem arrancar as bases jurídicas e culturais que moldaram o mundo moderno? Como retirar a visão cristã da dignidade humana? O que fazer com toda arte, música e literatura inspiradas pelo cristianismo? Razão e fé podem dialogar? Como proteger a sociedade de rupturas tão destrutivas? Não negamos as contradições, as guerras, as intolerâncias, as desigualdades sociais, mas defendemos uma tradição cheia de transcendência, compaixão e memória. Sou herdeira dessa tradição. Minha pesquisa temática está na reflexão de mitos, descrição de passagens históricas e épicas. Desenvolvo um pensamento filosófico cristão. Tenho certeza de que assim construirei uma poesia metafísica, universal, de pronunciado amor e respeito pelo Homem.
