Raquel Naveira

MAGDALA
Magdala,
Nesta cidade vivia Maria,
Maria de Magdala,
A Madalena,
Misto de mulher e açucena,
Falena de asas escarlates,
Louca sirena.
Magdala,
Pérola de chumbo
No mar da Galileia.
II-ABELHA
Madalena era uma abelha,
Uma mulher,
Marcada,
Zumbindo
Na vida.
Com qualquer um que lhe oferecesse
Uma pedra brilhante,
Um corte de seda damasquina,
Ela se deitava sobre a esteira,
Abria a cortina,
As pernas,
Os lábios,
A fenda crua e vermelha
De mel.
III-CULPA
De quem foi a culpa?
Da riqueza de Magdala?
Dos aliciadores com camelos
E ouro na garupa?
Da mãe que sumiu
Quando ela era pequena?
Do parente violento
Que estupra?
Da dona do lupanar
Que apanha mulheres
E como andorinhas
As agrupa?
Tornou-se prostituta
Jogando em tudo e em todos
A máxima culpa.
IV-BARATA
Madalena se debatia como uma barata,
Que, tonta e torpe,
A cada luta
Corta pulsos e antena.
“_Mulher que mercadeja
É como escarro,
Admita”
Dizia-lhe aflita
A barata.
V-LIBERTAÇÃO
À margem do lago,
Estava Jesus,
Era belo,
Os olhos soltavam luz.
Ele a chamou:
_ Madalena.
Ela sussurrou:
_ Mestre.
As mãos dele tocaram sua cabeça
Sob o capuz,
Uivos,
Ela caiu estatelada,
Os braços em cruz.
VI- VACA
Madalena estava fraca.
O amor forrou de relva
As estepes geladas
E ela pastou como vaca.
VII-FLOR
Madalena desejou a Pureza,
Como uma flor,
Uma certeza,
Arrancou da parede a gravura
Da fada nua
E do duende
Num jardim de corolas ácidas
E cogumelos venenosos.
Desejou a Pureza,
Como uma flor
Que nasce na lama,
Afasta o asco do coito
E apaga a Tristeza.
VIII- GANA
Madalena,
Com Joana
E Susana,
Seguiu Jesus.
Cada uma com sua história,
Sua gana,
Suas febres,
Tumores,
Filhos doentes,
Maridos doidivanas.
A todas, Jesus encoraja:
“_ Tua fé te salva, mulher,
Reaja,
Nada mais te engana.”
IX- PUNHAL
Os pés de Jesus,
Madalena banha,
Depois os enxuga com seus cabelos negros
Como teia de aranha.
“_ Esse homem
Penetrou em minhas entranhas,
Conhece meu passado,
Meus sonhos,
Me compreende,
Me prende
E emaranha.
Seu amor é um cone de cristal,
A ponta em forma de lança
Cravada em meu coração
Me acompanha
Como punhal.”
X-MARIAS
Madalena corria.
(“_Corja imunda,
Não veem que vão matar nosso Deus?
A vítima mais pura,
O cordeiro mais inocente?
O nosso rei?
Raça de víboras...”)
Calada
Permanecia.
Chegou ao topo da colina.
Três cruzes toscas.
Três homens nus,
Amarrados com cordas,
Fixados com pregos pelas juntas,
Por toda parte gritos,
Gemidos,
Perguntas.
Viu a mulher judia,
Era ela,
Maria.
Maria, Mãe.
Maria, Madalena.
Marias, tão humanas,
Frágeis,
Humilhadas,
Lavadas pelo mesmo sangue,
Para sempre apoiadas,
Para sempre abraçadas.
XI-CRISTO MORTO
_ Cristo morto...
Madalena dizia,
Atirou achas de eucalipto
Na boca do forno,
Subiram perfume e calor.
_Cristo morto...
Somente uma estrela
Vigiava em seu posto.
XII-JARDINEIRO
Madalena foi ao sepulcro,
Estava escuro,
Rente ao muro,
Viu as faixas,
O sudário
E o choro
Deixou-a em apuros.
Um anjo vestido de branco,
Saindo de um nevoeiro,
Disse-lhe:
“_ Por que o choro?”
“_ Quem és, senhor,
És o jardineiro?
Sou Eva num jardim fechado,
As vinhas exalam,
As árvores se vergam de figos,
Pêssegos de veludo.
Vem, jardineiro,
Sopra sobre as folhagens
O ar que balança o teu trigueiro.”
“_ Não me toques.
Não me retenhas.”
Com o choque,
Madalena
Saiu correndo pelo bosque,
Entre os cinamomos.
