Pais Fazem Falta

Nalini d11b7

Há vinte e seis anos perdi meu pai. Não há dia em que dele não me lembre com saudades crescentes. Sinto falta de contar a ele minhas angústias, minhas frustrações, minha decepção com tanta coisa! Mas também de partilhar com ele a alegria propiciada pela ingenuidade de meus netos, que são seus bisnetos e que ele não conheceu!

Fiz muito pouco por ele. Descobri, verdadeiramente, a bondade de meu pai, relativamente tarde. Houve aquela fase de pouco diálogo, de pretensa ilusão de que já se descobrirá tudo e que o conselho paterno nada acrescentaria ao meu cabedal.

Aos poucos fui detectando a sabedoria de meu pai. Sereno, tranquilo, disponível. No silêncio de sua postura discreta, vibrava com aquilo que considerava êxito de sua prole. Que insignificantes as alegrias que lhe causei! Uma delas, conferir ao meu primogênito o seu prenome. Gesto singelo, mas significativo para ele, que também recebeu o nome do avô!

Manifesta desproporção diante do que dele recebi. Daquilo que continuo recebendo como lição permanente de honradez, de modéstia, humildade, generosidade e desapego. Valores a cada dia menos presentes numa sociedade ávida por fruir de prazeres sensuais, prenhe de egoísmo e de insensibilidade.

Não soube compensar com carinho multiplicado a perda de meu irmão. Não me dei conta de que essa mutilação o matou. Prossegui na minha rotina, mergulhei no meu trabalho e cuidei de meu pequeno grupo doméstico. Lamento essa desatenção que poderia, se debelada, talvez tivesse prolongado sua existência por mais algum tempo.

Erramos quando agimos como se tivéssemos pela frente o infinito. Só muito tarde acordamos para a verdade: a vida não é ensaio. É drama definitivo. Não conseguimos regravar as cenas. Cada ato, cada palavra, cada minuto, é para valer.

Ah! Pudéssemos passar adiante a experiência de quem hoje constata o quão avaro foi em carinho, em gentileza, em afago e em ternura, com quem devotou sua vida à formação integral de sua cria. Só tem merecido esta gratidão inerte, inócua, ineficaz e pobre, cujo destino é sua memória. Na esperança, com certeza vã, de que possa chegar àquele a quem tanto devo, junto com as lágrimas e minhas humílimas preces.

Crédito: Jornal de Jundiaí - agosto/2017