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 “Entra em beco, sai em beco, há um recurso, Madalena.

Entra em beco, sai em beco, há uma santa com seu nome.

Entra em beco, sai em beco, vá na próxima capela e acende uma vela para

não passar fome...”

Acima em “negrito” está o refrão da letra de uma música de Gilberto Gil sobre os vários becos existentes em Salvador, na Bahia, que serviram de inspiração para esse nosso texto aqui. Na São Paulo de antigamente havia muitos becos, mas a maioria não resistiu ao avanço imobiliário, porém, sobraram alguns que trazem de volta curiosas histórias.

O Beco do Batman é o mais famoso dos sobreviventes, fica na Vila Madalena, nome da musa inspiradora do compositor da canção citada. Localizado na altura do número 77 da Rua Harmonia, o Beco do Batman, faz lembrar o herói das revistas em quadrinhos, agora guardião dos grafiteiros paulistanos. Outro super-herói que dá nome a um beco paulistano é o Hulk, lá em Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital paulista. Este beco recebeu o tal nome por causa de uma imensa pintura do personagem da Marvel, agora símbolo desse espaço que abriga mais de 40 grafites.

Você já ouviu falar no Beco Lira? Ele segue vivo em Pinheiros, só não se sabe até quando, e faz alusão a um antigo teatro, o Lira Paulistana. Dá para vê-lo de dentro do carro por quem passar dirigindo sobre o pontilhão da Rua Arthur de Azevedo, antes da esquina com a Henrique Schaumann. O mais antigo sobrevivente, entretanto, é o Beco do Pinto, que fica no centro, bem ao lado do Pátio do Colégio e remonta o período colonial. Neste caso, o nome se deve ao primeiro proprietário do terreno por onde ele passa, o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme.

Essa passagem servia na São Paulo antiga para a circulação de pessoas e animais, entre o Largo da Sé e a Várzea do Rio Tamanduateí. Também transitavam pelo Beco do Pinto os escravizados conhecidos como "homens tigres", porque naquele tempo não havia banheiros nas casas. Todas as manhãs eles passavam transportando nos ombros, barris e mais barris fedorentos com os dejetos provenientes das casas da elite, porque só os ricos tinham escravos.

Eram chamados “tigres”, por causa da cor da sujeira que escorria sobre os corpos de pele escura no caminho em direção às águas do Tamanduateí. No rio, tudo aquilo era despejado e nesta rotina diária, na mesma margem, só que mais acima, mulheres escravizadas também se utilizavam das águas. O trabalho delas também era pesado; lavar, quarar e secar as roupas usadas por essas famílias mais abastadas, constituídas por seus senhores e sinhás.

Atualmente, o Beco do Pinto, faz parte do circuito turístico promovido entre o Solar da Marquesa de Santos e a Casa de número 1. Esses dois casarões remanescentes do século XVIII, serviram durante anos de sede para a Comgás e a Central de Polícia, respectivamente. Agora esses imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico desde a década de 1990, guardam o acervo pertencente ao Museu da Cidade de São Paulo.

Apesar da existência de um órgão de preservação municipal, os becos da cidade, bem como as “vilinhas” com sobrados em ruas estreitas de paralelepípedo existentes nos bairros estão desaparecendo. O mercado imobiliário compra os terrenos e os revende no formato de apartamentos dentro de novos arranha-céus inaugurados quase diariamente.

Haverá um tempo em que apenas historiadores e memorialistas se lembrarão dos becos paulistanos existentes nas primeiras décadas do século XXI. Não sabemos até quando irão durar, mas são lugares que já despertam preocupações diante das mudanças tão repentinas na paisagem urbana. Para os que só pensam em cifras, cabe a nós historiadores explicar que a preservação desses lugares desperta carinho nas pessoas pela cidade. A este sentimento damos o nome de “memória afetiva” que indiretamente, ajuda valorizar o comércio imobiliário de toda uma região.

Não adianta apenas construir, é preciso também conservar aquilo que ainda existe de belo, interessante ou atraente na paisagem do dia a dia. Dedicar carinho a lugares tradicionais existentes nos bairros, é a forma de fazer da metrópole um lugar mais humano. Pena que as nossas “autoridades”, ainda não perceberam isso!

Geraldo Nunes, jornalista e escritor-historiador é titular da cadeira 27 da Academia Cristã de Letras - ACL