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Hoje é outono no meu coração. Não o outono do calendário, que chega com a precisão dos astros no equinócio de março, mas aquele outono íntimo, silencioso, que se instala sem pedir licença, quando a alma decide caminhar mais devagar. É nesse estado de espírito que me imagino andando pelas alamedas de Paris, sob os plátanos que deixam cair suas folhas como se escrevessem cartas ao chão.

Paris no outono tem uma melancolia elegante. As folhas douradas parecem saber mais sobre a vida do que nós. Caminhar sem pressa pela margem do Sena, ouvindo apenas o som dos passos sobre o tapete seco das folhas, é como entrar num filme antigo, daqueles em que quase nada acontece, mas tudo se sente.

Sempre que penso no outono, lembro-me do filme Sociedade dos Poetas Mortos. Há uma cena inesquecível em que os alunos caminham pelo campus coberto de folhas, enquanto o professor, interpretado por Robin Williams, ensina que a vida é breve e que devemos escutá-la com atenção. O outono naquele filme não é tristeza. É pura maturidade. É o momento em que as coisas ficam mais verdadeiras, porque já não precisam provar nada.

As estações não são apenas mudanças do clima, mas mudanças da memória. O outono é como o tempo das recordações, quando o perfume das coisas antigas volta de repente, como se estivesse guardado dentro de nós.

No outono as folhas que caem não são apenas folhas, mas, instantes que já vivemos e que continuam soprando dentro do coração.

Talvez por isso eu goste tanto do outono. Ele não grita como o verão, não floresce como a primavera, não endurece como o inverno. O outono sussurra.

Hoje é outono no meu coração, e eu caminho pelas alamedas de Paris que existem apenas dentro de mim, olhando as folhas de plátano caírem devagar, como quem aceita que a beleza também sabe partir, mas nunca deixa de existir.

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