Conhecendo Maria

            Márcia Etelli Coelho          

            Minha avó Maria faleceu quando minha mãe ainda não havia completado 18 anos de idade e eu nem planejava existir. Com a falta dessa convivência, até hoje pouco sei sobre ela. A foto na estante da sala, ao lado do meu avô Mário, constata que ela era bonita, com cabelos pretos ondulados e face serena.

            Mas e o seu temperamento? Seus gostos, seus sonhos, suas inquietações? O que ela pensava do mundo? No que ela acreditava? Teria algum talento? Será que eu herdei alguma característica genéticamarcia ettelli coelho 2a ce10e específica ou um pouco de suas habilidades?

            Pela minha mãe eu soube que ela gostava de conversar e cada vez que visitava os parentes levava um bolo que ela mesma assava com pedaços de carvão. Sempre muito gostoso. Às vezes um bolo era o seu presente para um aniversariante e muito agradava. Com restrições financeiras, meu avô trabalhava como pintor de parede na Companhia de Gás e minha avó auxiliava costurando calças masculinas para uma fábrica.

            Habilidades que na verdade não desenvolvi. Sou quieta e introvertida, e eu sinceramente nunca me empolguei pela arte de cozinhar. Quanto à costura, limitou-se às aulas de bordado no ginásio. O trabalho até que ficava bonito. Isso caso não se olhasse o avesso, um emaranhado de nós...

            Olhando a foto na estante, mais uma vez eu fico a pensar no que haveria de especial dela em mim.

            Foi quando minha mãe revelou que durante muitas tardes, ela (criança) e minha avó sentavam-se no sofá da sala. E, enquanto minha avó costurava, ambas cantarolavam as músicas da rádio, principalmente as marchinhas de Carnaval, tão populares na época.

            Ah! Então é essa uma boa herança.

           Não! Não me refiro ao talento de cantar, pois confesso que sou um pouco desafinada. Mas modestamente eu aprecio música e tenho uma boa noção de ritmo, que eu emprego nos poemas que escrevo. Isso mesmo. Toda poesia exige ritmo. O texto pode até não ter rima nem métrica. Mas ritmo é fundamental.

             Assim eu sorrio e continuo a admirar a foto.

            No dia 16 de maio minha avó Maria comemoraria seu nascimento e eu planejo um bolo para comemorar bem ao seu estilo: simples e cativante.

            Ela, que faleceu com menos de cinquenta anos de idade depois de uma complicação operatória, deixou singelas recordações.

            A vida é mesmo assim: passageira... Mas pode se eternizar através das pequenas lembranças de quem com amor se deixou conquistar.