O olhar sereno pelo avião invisível de Raquel Naveira

Luiz Otávio Oliani*

“a vida é mesmo ilusória” Raquel Naveira (p.69)

Raras são as mulheres que transitam da poesia à prosa com excelência. Neste time, o nome de Raquel Naveira não pode ser ignorado.

Dona de vasta obra poética que abriga desde  os livros de poemas “Casa de Tecla”, “Abadia”, “Senhora”, “Sangue Português”, entre outros, a prosa surge-lhe como uma necessidade vital da artista.

O ensaio,  a crítica literária e crônica complementam a obra em curso de Raquel Naveira, isso sem se referir ao longo e profícuo trabalho desenvolvimento no magistério e na intensa atuação intelectual em palestras, aulas magnas, entrevistas, seja para divulgação da própria obra ou de pares contemporâneos.

Em 2016, veio a público o livro de crônicas “O avião invisível”, uma publicação da Ibis Libris, Rio de Janeiro, com prefácio de Mafra Carbonieri.

Sobre o título, cabem algumas notas. Isto porque Raquel Naveira imprime nas crônicas uma leitura tão agradável, que faz os leitores voarem pelas páginas. A sensação de prazer, ao percorrer cada texto, faz com que seja difícil de eleger um ou outro texto como preferido. Todavia, por conta do gosto pessoal, alguns merecem referências.

Os leitores, ao final do livro, terão um raio-X de quem é a autora que os fez voar entre tantas páginas. Isto porque, se a vida é a arte dos encontros, em “O albatroz e pelicano” (p.20), Raquel Naveira narrou um dos encontros mais memoráveis da existência pessoal, ao estar com Adélia Prado, grande autora de Divinópolis. É como se o leitor fosse convidado à casa da escritora mato-grossense do sul para estar também com a autora de “O Pelicano”, tudo uma gentileza de Naveira.

Um outro encontro real foi descrito belamente com Moacyr Scliar em “Até onde a literatura nos levar” (p.204), crônica em que Raquel não apenas cita como se deram os muitos momentos com Scliar, mas também filosofa sobre uma pergunta que ele lhe fizera, sendo o título do texto em análise. A senha, chave do enigma, proporcionou à cronista uma reflexão infinda sobre o papel da literatura e o que ela nos oferece, de fato, enquanto leitores. A arte da palavra nos humaniza? A arte da palavra revela quem somos? A arte da palavra nos esconde? Neste texto ímpar, Raquel Naveira alcançou o primor, reverenciando o grande mestre Scliar, de quem ficou órfã, mas que o reencontrará um dia, num momento sublime.

Mas também há de se falar de encontros espirituais. “Casa Mário de Andrade” (p.31) relembra o encontro agradabilíssimo de Raquel Naveiura com juma senhora e alunos ansiosos por uma oficina poética num local mágico, de espírito modernista. Trata-se de um texto pungente, lírico, capaz de comover; Isto porque, naquela oficina, o autor de Macunaíma esteve presente, não em corpo, mas em espírito a iluminar a professora Naveira.

Também há um espaço para uma homenagem póstuma em “Monteiro Lobato” (p.224), quando Raquel Naveira encontrou, numa caixa, uma fotografia dela e do avô no Sítio do Picapau Amarelo em Taubaté, São Paulo. Bastou tal registro para trazer à memória a inteligência, o encanto e a admiração por este paulistano de grande monta. Um homem além do tempo, um quixotesco sonhador de um Brasil mais justo e mais humano, mais libertário e com mais literatura, mais livros, mais educação.

A paixão pelas palavras, o amor às letras, tudo está em “Livros” (p.78), um texto delicioso no qual a autora conta detalhes importantes de sua formação cultural, desde a presença da babá Correntinha para quem dizia já saber ler, causando-lhe uma surpresa sem fim, ao aflorar a imaginação da menina Raquel nos idos da infância, até as últimas advindas deste ‘vício maravilhoso’ (grifo nosso). Da memória do Real Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio de Janeiro; aos sebos da Praça da Sé, em São Paulo, até a referência à Bíblia, como um grande livro da alma poética da autora, tudo a encanta.

Em “A Cadeira de Duque de Caxias” (p.88),a cronista valoriza o respeito insigne por um objeto histórico de máxima relevância, o qual ficava na sala da casa de ums tia de Raquel, em Macaé, Rio de Janeiro. Trata-se de uma cadeira pertencente a um “(...) dos mais ilustres militares e estadistas do Império” na qual, apesar de imensa vontade, Naveira nunca se sentara, por temer o cometimento de um crime de lesa-majestade.

Raquel Naveira expôs, em textos diversos, ora mencionados aqui, o gosto pela pescaria (p.95); o prazer de ir à feira (p.92); a admiração por Baudelaure e o “dandismo” na superioridade de intelectuais como Castro Alves e Mário de Sá-Carneiro (p.101); o amor pela compositora Chiquinha Gonzaga (p.195); o interesse pelo xadrez (p.147); o encantamento diante de Mona Lisa em “Mona Lisa e a Sede de Beleza” (p.246); o fato de dizer “Sou uma alma da fronteira” (p.231) por ter nascido num lugar onde o Brasil era o Paraguaio, em, “Música Paraguaia”       “(p.231); o fascínio pelos relógios, definidos como “objetos fascinantes”, mas que também exorcizam a angústia, quando se aperta um relógio de pulso, (p.102); o olhar surpreendente por Brasília (p.85) e também pelo Museu do Ipiranga (p.169), entre tantos outros vieses.

Raquel Naveira se indaga o que seria se fosse um objeto ou um elemento da natureza? Uma árvore (p.105). Narra o prazer que possui em percorrer um espaço mágico, “(...) a papelaria e meu universo, minha galáxia de Gutenberg”, como todo escritor que se preza e ama viver entre livros de vivos e mortos, papéis, civilizações.

Em “Os Cegos” (p.114), a cronista revisita um tema difícil balizado pelo título. Tematiza sobre autores e personagens que ficaram privados da visão, a saber de Camões, a Borges e a biblioteca de Babel, ao clássico conto “Amor” de Clarice Lispector, no qual a personagem se vê diante de um fluxo de consciência ao se deparar com um cego à rua. Caberia, aqui, uma menção ao clássico romance “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, obra na qual a tragédia advém da impossibilidade de ler o mundo com os olhos, fato que Raquel realiza de maneira linda e surpreendente.

Em “Horas” (p.119), não apenas traçou a importância do vocábulo, recorrendo ao no texto bíblico do Eclesiastes, com menção ao fato de existir uma hora ideal para tudo na vida, mas fez um estudo apurado sobre como a palavra que nomeia a crônica surgiu em obras literárias de grande monta. Citou três títulos: “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector; “A Hora dos Ruminantes”, de José J.Veiga e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de João Guimarães Rosa. Porém, o mesmo fascínio ocorreu em outro texto naveriano que é “As Formigas” (p. 131), em que percorreu as sendas literárias de Esopo revisitado por Jean de La Fontaine, ao conto “O Mistério da Formiga Matutina” de Ignácio de Loyola Brandão ao célebre realismo mágico de “As Formigas” de Lygia Fagyundes Telles.

De formigas, parte-se a algo mais sólido, como “As pedras” (p.137), em que a cronista trata do universo pétreo, da Educação Pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto, ao desejo compartilhado com Flobela Espanca em ser uma pedra. E, ainda na seara da natureza, Raquel Naveira adentrou às temperaturas de um “Vulcão” (p.155), tudo para percorrer, entre lavas e magna, a origem do vocábulo num passeio perigoso e surpreendente, com a chancela de Cruz e Sousa, ao trazer à tona as aliterações mais célebres da literatura nacional: “Vozes veladas, veludosas vozes, /
Volúpias dos violões, vozes veladas, / Vagam nos velhos vórtices velozes /
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

Mas as paixões de Raquel Naveira são muitas. Ama os contos de fadas, os bichos, valoriza os animais, ao escrever sobre eles em “Crocodilos e jacarés” (p. 163), além da “Raposa” (p.158), cuja astúcia se confunde com os lobos solitários da contemporaneidade. Também ferrovoária, percorre plagas distantes em viagens de encantar os olhos em “Trem” (p. 187)

A experiência profissional da cronista, que estudou Letras e Direito, lecionando língua e literatura latinas, está em “Cícero e a palavra” (p.190), quando, além de tratar da importância do filósofo, político, advogado, e orador da Antiguidade Romana, tematizou também o poder de incêndio de um vocábulo a ser bem ou mal dito. Na referência ao tratado de Cícero sobre a amizade, Raquel se embrenhou pelas frestas do verbo, ao discorrer lindamente sobre como a humanidade vive um dilema frente às palavras que acalmam, inflam, revelam amor ou ódio. Para ela, cultivar amigos é um bem maior, um acalanto, sejam eles mortos (à estante e com os quais dialogas sempre, por meio da leitura), sejam vivos com os quais o intercâmbio afetivo pulsa com mais latência.

Em “Sherlock Holmes” (p.217), Raquel Naveira mostrou a grande importância da leitura no seio familiar. Enquanto mãe, lia histórias policiais para a filha, deleitando-a com um universo de Conan Doyle. Uma pergunta pueril a fez dissecar sobre o gosto pelas investigações, as minúcias detetivescas, o ar dos inquéritos, os indícios, a denúncia, impressões digitais, tudo que cerceia o universo jurídico, outra paixão da autora que explicou a relevância do Direito Penal para Letícia: minimizar os níveis de crimes dentro da sociedade. Isto porque “Não existe sociedade sem crime. A sociedade se organiza para preservar-se contra o delito e atenuar-lhe os efeitos”, p.217.

Por fim, Raquel Naveira em, seu “O avião invisível” deixa aos leitores uma lição de afeto e humildade ao exprimir a crença no ser humano, apesar de todas as temeridades, como dito em: “Continuo acreditando, embora a família esteja em crise, ferida, perdida, fragmentada, atacada por tanto lixo em torno de notícias e arte. Continuo acreditando no meio do suor, do cansaço, dos espinhos, das tribulações, dos males, do materialismo, do esforço do trabalho, dos ciúmes entre filhos e afrontas.

Continuo acreditando mesmo ridicularizada e escarnecida por insistir em bases que desmoronam, que parecem não fazer sentido para mais ninguém. Continuo acreditando em lealdade, pois amar é ser leal com quem nos mata, como escreveu Camões. Continuo acreditando em bodas, alianças e promessas. Continuo acreditando, perplexa, diante de tantas mudanças, desobediências, desvarios, blasfêmias, libertinagens, que terminam em cárcere e escravidão. Continuo acreditando que a família é a pedra angular, eixo, unidade da raça humana. Continuo acreditando que a coroa dos que envelhecem são os netos.” (p.222).

*Luiz Otávio Oliani é professor e escritor. Publicou 12 livros, sendo 9 de poemas e três peças de teatro.   Em 2017, a convite da escritora e ativista cultural Mariza Sorriso, integrou a equipe de poetas que representou o Brasil no IV ENCONTRO DE POETAS DA LÍNGUA PORTUGUESA, em Lisboa, Portugal.