Tive o privilégio indescritível de ver o Lorenzo quando nasceu, dentro da sala cirúrgica. Ele foi o primeiro de uma série de netos e netas queridos, que minha esposa e eu tivemos, e que se constituíram em grandes bênçãos de Deus à nossa família!
Lorenzo, estimulado pelo seu pai Bruno, aprendeu a gostar e a jogar futebol desde pequenino, participando de treinamentos e competições dentro e fora de sua escola.
Alguns meses antes de completar nove anos, começou a ter dores na coxa direita e dificuldades para a prática de futebol. Começaram-se as andanças de seus pais para visitas a vários ortopedistas, até que foi feito o diagnóstico da infrequente Doença de Legg-Calvé-Perthes, que acomete crianças e é devida a um distúrbio do suprimento sanguíneo ou mesmo necrose da cabeça do fêmur, podendo causar sequelas posteriores.
Uma avalanche de preocupações e ansiedade preencheu não somente o coração de seus pais, mas também de seus familiares. Durante o ano de 2020 não somente deixou de praticar o futebol que tanto gostava, mas experimentou desde o repouso, o andar de muletas, o andar de cadeira de rodas, cirurgia para a colocação de fixadores ósseos externos a fim de imobilizar a articulação coxofemoral; cirurgia para a retirada desses fixadores, além muitíssimas sessões de fisioterapia pós-operatória. Em todas essas etapas o Lorenzo acompanhou e aderiu conscientemente.
Não me sai da memória as dores que sofreu; a serenidade pueril com que enfrentou todas essas fases, assim como os momentos de suas necessidades fisiológicas intestinais, pois, com os fixadores ósseos externos, pedia para que seus pais o erguessem, a fim de que pudesse evacuar em pé (!), pois era a melhor posição que tinha.
Durante o seu tratamento expressou desejo de relatar a experiência que estava tendo com essa doença. Assim, estimulado pelos seus familiares e, particularmente pela sua avó Aida Lúcia, minha esposa, foi escrevendo aos poucos, com suas palavras infantis, os momentos que experienciou em consultórios, hospital, bem como em sua convalescença, guardados em sua memória.
Por oportuno, também se encontram neste livro, relatos que sua mãe Denise vivenciou ao longo desse tempo.
Que esse pequeno e singelo livro que ora vem a lume, escrito por uma inocente criança de nove anos, possa contribuir para amenizar o sofrimento de outros pacientes e familiares em situações similares, bem como dar-lhes forças e esperanças de superação!
Helio Begliomini
1 Nota:
Havia me comprometido e me empenhado em editar esse livro de meu neto, a fim de servir de apoio e estímulo a outras crianças que passam por situações semelhantes. Contudo, por motivos nem sempre fáceis de serem justificados ou entendidos, a ideia de escrevê-lo foi se dissipando lentamente, à medida em que meu neto recuperava sua saúde e retornava à sua normalidade funcional. Sem querer forçar na persistência desse projeto, mas procurando respeitar a vontade dele e de seus pais, restou apenas um singelo prefácio de um livro que não foi escrito, mas que também, a seu modo, serve como testemunho de um período inesquecível de sofrimento e apreensão que todos nós, pais e familiares passamos.
Trabalho apresentado na XVIII Jornada Médico-Literária Paulista, realizada no Espaço Civile em São José dos Campos, de 24 a 25 de julho de 2026. In: A Pizza Literária – Décima Oitava Fornada. Editora Scortecci, São Paulo, 2026, páginas 35-46.
