Entre girassóis e estrelas

- Márcia Etelli Coelho -

Ao ver pela primeira vez “Os Girassóis” de Van Gogh minha imediata reação foi sorrir. As flores amarelas, todas unidas, saíam da tela e me proporcionaram uma sensação de vida e plenitude.girassois van gogh 959b8

E olha que amarela nunca foi a minha cor preferida!

Acontece que eu mal completara nove anos de idade, não entendia nada de pintura, mas aquela sensação foi tão intensa que eu até tentei aprender a desenhar. A total falta de habilidade, porém, me fez desistir da pintura, passando a me concentrar apenas nos estudos convencionais.

Anos mais tarde eu me deparei com outra tela do mesmo Van Gogh: “A Noite Estrelada”. E se os “Girassóis” alegraram o meu coração, com esse novo quadro eu simplesmente me encantei. Os redemoinhos em azul, intercalados com suaves tons de amarelo, transmitiam uma tranquilidade que eu, adolescente, jamais havia experimentado.

Por uma dessas coincidências inexplicadas, naquele mesmo dia, aos dezesseis anos de idade, eu ganhei do meu pai uma edição da Enciclopédia Barsa. E qual foi um dos verbetes que eu me interessei em pesquisar? Van Gogh, é claro! Imaginei que fosse encontrar o registro de uma vida de glória e sucesso como recompensa de todo o talento que até os meus olhos inexperientes percebiam.

Na Enciclopédia, poucas linhas dedicadas a ele. Até aí, tudo bem... Afinal nem mesmo centenas de páginas distribuídas em 16 volumes poderiam abranger os detalhes de tantas personalidades que já existiram no mundo.

Pintor holandês nascido em 30 de março de 1853 com centenas de notáveis pinturas, mas com uma existência marcada por crises psicóticas e depressivas, tendo se suicidado aos 37 anos de idade.

Por alguns minutos o meu coração se entristeceu. Eu ainda não conseguia entender que uma extraordinária sensibilidade podia se associar com desajustes, medo e solidão. Mais triste ainda fiquei ao saber que Van Gogh não conseguiu vender seus inúmeros quadros, morrendo na miséria, só alcançando a fama depois de sua morte.

Quanta injustiça, pensei, enquanto detinha minha atenção ao auto retrato de um homem com aparência humilde e angustiada. Claro que eu não me identifiquei com aquela personalidade conturbada, embora na época minha insegurança fosse total. Eu ainda não havia me decidido em seguir Medicina e nem cogitava incluir os escritos nos meus planos futuros. Além de não conseguir me ajustar em nenhuma turma.

A identificação, porém, se iniciou depois de adulta quando comecei a me arriscar no mundo das letras e eu pude sentir a profunda dramática frustração de não obter o reconhecimento esperado diante de um trabalho realizado com tanto empenho.

Ele, um gênio incompreendido.

Eu, apenas uma aspirante à escritora, tentando lançar e distribuir um livro no tão competitivo mercado editorial.

Penso, então, nos inúmeros artistas que não conseguem se destacar, apesar de um incontestável talento. Cantores que se apresentam em pequenos eventos longe da mídia. Poetas que participam de saraus pelo simples prazer de compartilhar suas mensagens. Artesãos que demonstram seus produtos em feiras e parques, quase sempre sem a valorização merecida.

Quantas pessoas não desistem da sua arte e se entregam a empregos burocráticos para poderem sobreviver?

marcia ettelli coelho 3a eaab1O sucesso, sim, exige um contínuo caminhar, por vezes em trilhas sinuosas com inesperados declives e surpreendentes subidas.

E cada vez mais eu me convenço de que a vida também é assim, manifestando-se entre conquistas e derrotas, entre alegrias e desalentos, entre girassóis e noite de estrelas.

Girassóis abertos que acompanham os ciclos da natureza com dinamismo e vitalidade.

Estrelas aconchegantes que inspiram devaneios, recolhimento e reflexão.

Se Van Gogh intuiu essa polaridade quando pintou as belíssimas variações sobre os dois temas, não há como saber.

O que eu sei é que ainda hoje eu sorrio quando vejo girassóis que não desistem de buscar a luz e continuo me encantando com as noites estreladas que resgatam sonhos e fantasias. E se, por milagre ou ciência, as estrelas continuam iluminando o espaço celeste mesmo depois de não mais existirem, eu ainda acredito e torço para que todos os autênticos sonhos, cada qual no seu devido tempo, possam ser realizados.

Tomara que os meus também...


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